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Opinião do Leitor

Jornalista que se preza não tem amigos
Publicado em :26/07/2010 às 13:25

“Zagueiro que se preza não ganha o prêmio Belford Duarte.”

A declaração foi feita na década de 70 por um defensor do Vasco chamado Moisés, que costumava bater até na família dos atacantes adversários. Ele ironizava um prêmio oferecido pela federação aos jogadores que passassem 10 anos sem uma única expulsão de campo.

Recorri à sabia filosofia futebolística porque vou fazer uma adaptação: jornalista que se preza não tem amigos. Bom, certamente isso é um problema quando o tal jornalista fica desempregado, mas, quando ele está trabalhando, a máxima deve ser aplicada. Sem ela, a independência do repórter vai para as cucuias.

Fiz essa introdução para chegar ao governador Sérgio Cabral e ao prefeito Eduardo Paes. Nos contatos que tive com ambos, eles se mostraram pessoas bastante agradáveis. Foram encontros profissionais, mas em clima de descontração.

Jornalista, em geral, é um bicho muito carente. Está sempre ali, de coadjuvante, ouvindo o que os outros têm a dizer (ou pensam que têm) e impedido pela ética de dar sua opinião no texto que escreve (coisa que muitos não conseguem, inclusive eu). Então o repórter, aquele anônimo que vive a emoldurar gente famosa, de repente, está sentado com o governador do estado, ou com o prefeito, trocando ideias e sorrisos olhos nos olhos. Seu ego recebe, enfim, o afago tão esperado. Fica difícil, a partir daí, criticar pessoas tão amáveis.

Muitos políticos usam isso como um truque que os blinda diante da imprensa. Outros não representam. Sua simpatia é autêntica e verdadeira – espero.

A regra vale para qualquer área do jornalismo. Imagine dizer que o disco que o amigo acaba de lançar é uma porcaria, ou que aquele cara legal não está jogando nada e merece ir para a reserva do time...

O cantor Roberto Carlos, com seu milhão de amigos, seria um jornalista ultracomprometido.

Agora, devo dizer que vou criticar o governador e o prefeito meio constrangido. Mas é o meu dever e nesse ponto fico com o zagueiro Moisés. Perco o prêmio do fair play, mas não o texto.

Cabral não deve agüentar mais pedir desculpas à população em nome da PM. Não falo nem da liberação do atropelador de Rafael Mascarenhas. Há oito dias, nossa polícia trocou tiros com bandidos diante de um Ciep cheio de alunos em aula. Um deles, de 11 anos, levou um tiro de fuzil no peito, dentro da sala.

Em vez de pedir desculpas aos pais do menino, o governador do Rio deveria proibir de uma vez operações desastradas como aquela. Tudo bem, ele afastou o comandante do batalhão, mas, se não houver uma determinação clara, outros inocentes morrerão. De que adiantou a PM matar seis traficantes e apreender drogas naquele dia? Nada. Hoje, há outros bandidos lá, e as boca-de-fumo continuam funcionando.

O menino Wesley, porém, não tem reposição.

Fazer esse tipo de incursão policial em favelas revela, no fundo, um profundo desrespeito pelas pessoas honestas que vivem lá. Um tremendo elitismo institucionalizado. A polícia só deve invadir uma favela se for para não sair mais. E para chegar com toda a estrutura que o estado sonegou aqueles cidadãos por décadas, não apenas com armas e blindados.

Mas os governos sempre dizem que faltam recursos para tornar as comunidades carentes bairros dignos. Para fazer trem bala, no entanto, há R$ 3,7 bilhões em caixa...

O prefeito Paes é outro boa praça. Mas está empurrando a pobreza para debaixo do tapete. Com os abrigos municipais lotados de sem-teto, restou à prefeitura praticamente suspender os acolhimentos. No sábado passado, vi os fiscais do choque de ordem expulsando um grupo de mendigos da Rua Figueiredo Magalhães, em Copacabana. O fiscal foi bem claro:

– Se eu encontrar vocês aqui de novo, vou levar para o abrigo. Circulando.

E lá se foi o grupo, cambaleando, para algum lugar bem longe da Zona Sul. Um lugar onde os choques de ordem são bissextos ou nunca acontece.

 

Marcelo Migliaccio é colunista no Jornal do Brasil











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