Um polvo de tamanho médio, acompanhado de pimentão, batatas, cebola e alho. Para temperar, algumas gotas de limão e um pouco de sal. Em 40 minutos, com algum talento na cozinha, estará pronto o “Pulpo a la gallega”, tradicional prato da Espanha. Acostumados ao feijão com arroz brasileiro, Augusto Lima, Caio Torres, Paulão e Rafael Hettsheimeir encontraram na especialidade galega e na famosa paella, outro prato típico, um alívio. Afinal, ao saírem do Brasil para tentar a sorte no segundo campeonato mais forte do mundo, os quatro pivôs, que, juntos, formam o “garrafão espanhol” da seleção de Rubén Magnano, sentiram no estômago as dificuldades de adaptação a um novo país.

Dois dos principais jogadores da seleção brasileira, que buscará, no Pré-Olímpico de Mar del Plata, no fim de agosto, uma vaga nos Jogos de Londres, fizeram seu caminho na Espanha. Pontos de referência na atual seleção de Magnano, Marcelinho Huertas e Tiago Splitter, atualmente no San Antonio Spurs, trilharam naquele país seus caminhos dentro de quadra. O quarteto do garrafão brasileiro escolheu o mesmo destino, mas ainda busca o reconhecimento dos dois companheiros.

Caio Torres, do Vivemenorca, é quem está há mais tempo na Espanha: sete anos. O pivô, de 24 anos, ainda tenta conquistar seu espaço dentro da seleção, mas acredita ter, no país ibérico, o melhor caminho para a sua carreira.

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– Desde o primeiro ano, foi uma experiência muito boa, conheci novas culturas, novos lugares. É uma experiência que ajuda muito quando for voltar para cá. É muito bom para qualquer jogador. É uma liga muito forte – afirma.

Dos quatro, apenas Augusto – o mais novo, com 19 anos- e Paulão já jogaram juntos na Espanha. As brincadeiras, porém, revelam a intimidade de quem procura em compatriotas uma forma de estar um pouco mais perto do país.

– É uma cultura muito diferente. Aqui, está todo mundo acostumado a ficar junto dos amigos, da família. Chegando lá, muda muito. Pelo fato de sermos brasileiros, sempre mantemos contato. O Rafael eu conheço desde a época do COC (time paulista). Sempre temos contato. O Caio era mais difícil, mas agora é da família – diz Paulão, atualmente no CB Murcia.

Assim como a comida, o idioma foi outra dificuldade encontrada na mudança. Apesar das brincadeiras um com o outro, hoje, todos mostram desenvoltura na língua. E, durante o período de treinos em São Paulo, o aprendizado se revela útil até mesmo na seleção. Embora Magnano já arrisque algumas palavras em português, a comunicação se mostra mais fácil no idioma do técnico.

– Ele está tentando se acostumar. Mas, morando há tanto tempo na Espanha, é mais fácil entender ele falando em espanhol do que em português. Porque o português dele parece nosso espanhol quando chegamos à Espanha. Muito ruim… – brinca Paulão.

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Mas, no início, não foi tão fácil. Desde 2005 na Espanha, Rafael Hettsheimeir, do CAI Zaragoza, teve problemas até se entender com o idioma.

– O espanhol é parecido com o português. Com dois meses, eu já estava sabendo bastante. Mas no início foi bastante difícil, as pessoas falavam comigo e eu ficava perguntando “Que? Que? Que?”. Mas fui me acostumando, é coisa do dia a dia mesmo.

– Ele achou que era a mesma língua, chegou lá viu que era diferente (risos) – emendou Paulão, brincando com o companheiro.

Tradição na Espanha, a “siesta”, descanso dado aos trabalhadores após o almoço, também ganhou o quarteto. Mas é o fato de o campeonato ser uma vitrine para o basquete mundial que segura os brasileiros por lá. O sonho de seguir o mesmo caminho de Splitter, que, após brilhar no campeonato espanhol, seguiu para a NBA, é o principal atrativo.

– Com certeza é o sonho da gente. Lutamos muito por isso. A vitrine está lá. Eles olham mais para lá do que para o Brasil. Se seguirmos o profissionalismo dele (Splitter), podemos conseguir. Lá, é um pouco mais levado a sério do que no Brasil, tem mais estrutura. É mais profissional – diz Augusto.

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Apesar das diferenças culturais, os quatro afirmam que não têm do que reclamar da recepção no país. Aos poucos, até se acostumaram com o estilo de vida dos espanhóis.

– Sempre me trataram bem. Não tenho do que reclamar. Tenho amigos espanhóis. Só o Paulão que não tem amigos mesmo (risos). Já me acostumei a sair por lá. Muito pouco, mas, quando tenho tempo, tenho que sair. Não vou ficar em casa trancado. Tenho 19 anos, né? Gosto de sair, ir a uma “baladinha”, ir ao cinema quando tenho namorada. Quando não tenho, vou sozinho (risos). Chamo uns amigos, como uma pizza – afirma Augusto, único solteiro do grupo.

O retorno para casa, por ora, está descartado. Apesar do longo tempo longe do Brasil, os quatro ainda pretendem seguir por um bom tempo a aventura no exterior.

– Ainda somos muito jovens. Temos muito a aprender, a evoluir na Europa. Eu pretendo ficar mais lá, aprender mais o esporte europeu. Mas não fecho as portas para o basquete brasileiro, que me abriu as portas para o esporte lá. Mas ainda é cedo – diz Paulão.

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