Isabela Ramona em ação no Mundial sub-19 (Foto: Fiba.com)

No ano em que Hortência e Janeth comemoravam a conquista do título mundial, dona Iris festejava a chegada do seu “troféu”. O que ela não poderia imaginar é que a pequena Isabela Ramona escolheria seguir uma trajetória semelhante à daquelas duas jogadoras alguns anos depois. Muito menos que a história de vida delas, contadas em tom de conversa, faria com que a filha encarasse o basquete não mais como algo para ocupar o tempo, mas como profissão. Os treinos que algumas vezes foram trocados por idas a Salvador para rever os amigos e a família passaram a ser cumpridos religiosamente. E as recompensas não demoraram a aparecer. Aos 17 anos, a ala de 1,78m faz parte de uma geração preciosa, que arrancou elogios dos adversários depois do bronze no Mundial sub-19 do Chile e reforça a esperança verde-amarela para as Olimpíadas do Rio-2016.

– Não sei explicar o que senti quando vi que estava no pódio. Treinamos seis meses para fazer nove jogos. Só nós sabemos pelo que passamos. Foram 16 meninas que trabalharam e marcaram uma nova página na história do basquete brasileiro. Formamos um grupo muito unido e que mostrou ter potencial. Queremos sentir mais vezes aquela sensação maravilhosa de quando conquistamos a medalha no Mundial – disse.

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Por ora, o sentimento que impera segue o mesmo. Sua mais recente vitória é não precisar pedir dinheiro à mãe. Se há cinco anos fez as malas deixando a Bahia para morar no Rio, agora ela repetiu o gesto para ter Jundiaí como novo endereço. Deixou o time da Mangueira para defender o do interior de São Paulo. Trocou a convivência com dona Iris por uma república cheinha de jogadoras. E já começa a sentir a diferença. Mas nada que a lembrança das palavras de Hortência não possa ajudar.

– Eu nunca tinha saído de casa. Estou morando com dez meninas e cada uma tem que lavar a sua própria louça. É diferente, mas está sendo legal não ter que pedir dinheiro para minha mãe. Tudo aconteceu muito rápido para mim. Com um ano em meio (aos 14 anos) no esporte fui convocada para a seleção, mas não estava preparada e fui cortada. Não pensei em desistir. Só fiquei machucada e mais ligada. Antes não sabia o que queria, hoje tenho certeza de que jogar é o que quero. No ano passado, vi que os títulos com a seleção começaram a vir e ainda recebia ajuda de custo para jogar. Aí, conheci a história de vida da Hortência e da Janeth. A Hortência fala que tinha o dom, mas que precisou treinar muito. E é isso que tenho que fazer.

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Tem também que voltar ao banco de escola. O primeiro semestre foi perdido para que pudesse se dedicar aos treinos com a seleção. Aluna do 3° ano do Ensino Médio, Ramona pensava em prestar vestibular para Engenharia Ambiental, mas resolveu adiar os planos. Por enquanto ela estuda sim, mas com outra “cartilha”. Naquela onde ter a visão de jogo de Kobe Bryant, a agilidade de Rajon Rondo, o arremesso de três de Ray Allen e a habilidade no um contra um de LeBron James são coisas que deseja aprender.

É lá, nos Estados Unidos, que a brasileira quer um dia poder estar por acreditar que seu estilo de jogo se encaixe melhor na WNBA do que no basquete europeu. De preferência usando o número 13 nas costas. Assim como Zagallo, Ramona vê nele sorte e não azar.

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Para que tudo saia do jeitinho que sonha, a menina de fala mansa sabe que será preciso deixar parte de sua baianidade de lado. As idas a Salvador vão diminuir. As corridas atrás do trio também. E a filha de pai baiano e mãe carioca, que se diz “meio preguiçosa e bem tranquila”, já começa a perceber que daqui para frente haverá pouco espaço para isso.

– Quero me destacar aqui no Brasil e seguir carreira. Já consigo pensar nas Olimpíadas de 2016. E depois da medalha que ganhamos no Mundial dá para imaginar um pódio no Rio sim.

Mas fica o aviso. O temperamento tranquilo pode ser uma de suas marcas, mas Ramona sabe crescer no jogo, sabe crescer diante das adversárias. E ai de quem resolver passar dos limites. Se preciso for, também sabe rodar a baiana.

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