Foto: arquivo / AGORA MT

Por maioria absoluta, com apenas cinco votos contrários e cinco bstenções, numa assembléia absolutamente lotada, os professores da UFMT decidiram entrar em greve a partir do próximo dia 24. Aintransigência, acrescida de arrogância e incompetência do governo federal nas negociações, está empurrando a categoria docente para a greve desde o mês de agosto do ano passado. Durante um ano constata-se a indisposição do governo em fazer uma proposta digna de ser avaliada.

Distanciando-nos um pouco do cenário imediato que motiva, sobretudo, os jovens professores da Universidade, resta a constatação de que somos obrigados, sempre, a abandonar o nosso campo de trabalho para nos dedicar às lutas políticas em busca de salário o que é lamentável. Particularmente, estou na UFMT desde março de 1984.

Desde então, jamais obtivemos qualquer tipo de reajuste fora das greves. Nunca, dentro desses 30 anos, um governo de turno teve a iniciativa de se antecipar ao movimento. Aliás, em muitos casos, muitas greves poderiam ter sido abortadas.

Mas, ao contrário, os interlocutores governamentais, em regra, se comportam de quatro maneiras: primeiramente, empurram as negociações para frente, “ad infinitum”; em segundo lugar, aguardam para sentir a musculatura do movimento; em terceiro lugar, deixam o movimento falar sozinho por um ou dois meses; em quarto lugar, aceitam sentar-se à mesa para negociar; por fim, propõem um reajuste mínimo e a categoria, já cansada, acaba aceitando.

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Ora, não seria melhor sair na frente e já fazer uma proposta que possa evitar a greve e as suas consequências? Seria, se não houvesse uma incompetência de gestão.

Atualmente, dou início a uma pesquisa buscando sistematizar queixas, reclamações e protestos por parte dos profissionais da educação, em toda a história. Em todas as épocas, da história antiga à pós-modernidade percebe-se um nítido descontentamento dos professores com relação aos salários aviltantes e, consequentemente, com a desvalorização do magistério. Seja contra os governos, seja contra os mercadores do ensino, os professores jamais estiveram satisfeitos com a sua situação salarial e profissional. A baixa remuneração não só piora as condições de vida como impacta diretamente na qualidade do ensino. Quando a educação se tornou fenômeno de massa, mormente a partir da Revolução Francesa, somando-se à entrada da mão de obra feminina nesse mercado de trabalho, os salários foram ainda mais aviltados.

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O propósito da investigação que estamos iniciando é o de sistematizar as queixas dos professores, em cada período histórico, percorrendo a História da Educação, com destaque para a História da Educação Brasileira. A bibliografia já levantada é farta em exemplos nos quais os professores são apontados como miseráveis, sofridos, desencantados, ou mesmo servindo como motivo de chacota devido aos seus parcos salários. Piadas contadas por historiadores da educação medieval dizem que o professor, de manhã, ao ver o padeiro, era tomado por uma vontade de correr em duas direções: correr para o padeiro (porque tinha fome) e correr do padeiro (porque devia o pão do dia anterior). Outra anedota diz que alguém importante morreu e foi para o inferno. Depois voltou para narrar o sofrimento. E disse aos amigos: não queiram ir para o inferno porque viver lá é o mesmo que ter vida de professor. Como trabalhamos numa profissão de massa, não devemos ter ilusões de que um dia ganharemos como os juízes, como os procuradores, etc.

Porém, com os parcos salários, sobretudo aqueles pagos aos jovens professores doutores, não estamos longe de uma crise na docência. Às custas dos salários do funcionalismo público, ampliam-se campus, criam-se universidades novas, abrem-se milhares de novas vagas em cursos superiores.

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A sociedade ingenuamente aplaude; só não percebe que neste ritmo, não vai longe para termos uma deserção de docentes devido à baixa remuneração. Há outras atividades mais atrativas. Diria que, até mesmo por um certo elitismo nosso, continuamos a ser docentes. Temos um pouco de asco com relação ao trabalho manual e, por outro lado, a vaidade por sermos trabalhadores intelectuais nos prende à docência.

Mas reconheçamos que os bons pedreiros, eletricistas, pintores, estão ganhando mais que professor doutor em início de carreira na UFMT. Este é um fato grave para o país, para a sociedade brasileira, pois é infinitamente mais fácil e menos oneroso formar os bons pedreiros. Tiremos as conclusões. Os filhos dos bons pedreiros poderão,  no médio prazo, não ter bons professores universitários.

ANTONIO CARLOS MÁXIMO É PROFESSOR DA UNIVERSIDADE
FEDERAL DE MATO GROSSO. E-MAIL:
[email protected]

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