“Eu não quero dinheiro. Nunca quis. Vou fazer o quê? Ir ao shopping e gastar em roupas? O que eu quero é virar para a minha filha e falar: ‘Olha, seu pai morreu, mas os responsáveis pela morte dele estão na cadeia’.”

A frase é da empresária Rosane Gutjahr, de 53 anos, que perdeu o marido na queda do voo 1907 da Gol, mas poderia ser de outros parentes de vítimas. Passados cinco anos do acidente (que terminou com 154 mortos durante uma viagem de Manaus para o Rio, com escala em Brasília), dois sentimentos ainda tomam os familiares. O primeiro, mais óbvio, é a saudade dos que morreram inesperadamente. O segundo é a sensação de injustiça: todos querem ver os culpados pelo acidente em uma cadeia brasileira.

As vítimas eram do Distrito Federal e dos Estados do Amazonas, do Rio, do Paraná, de Pernambuco, do Rio Grande do Sul e de São Paulo (nenhuma da capital paulista).

Rosane e o marido nasceram no Rio Grande do Sul, mas moravam em Curitiba (PR) e tinham negócios em Manaus (AM). O acidente aconteceu quando ele voltava para casa.

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Ela continuou com os negócios e cria, sozinha, a filha deles, hoje com 9 anos. “A ausência não é no dia 29 de setembro (data de aniversário da tragédia). É dia 29, 30, 1.º… O que morreu foi nosso passado e nosso futuro. Não quero parecer melodramática, mas é isso: tiraram uma parte da nossa vida porque não ligaram um equipamento, porque resolveram não ligar para o plano de voo”, diz Rosane. “Eu quero o fechamento dessa história, com a Justiça cumprindo a parte dela.”

A empresária é uma das organizadoras da Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Voo 1907, criada para acompanhar o julgamento dos responsáveis pelo acidente. O que os familiares classificam como “injustiça” é o fato de que os condenados pelas mortes não terem recebido a pena de prisão – mas o cumprimento de serviços comunitários. O processo ainda tramita no Tribunal Regional Federal (TRF) de Brasília, em segunda instância.

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O acidente aconteceu quando o Boeing da Gol se chocou, no ar, contra um jato Legacy que seguia para os Estados Unidos. Entre os condenados estão os pilotos americanos do Legacy, Joseph Lepore e Jan Paul Paladino, acusados de negligência ao não perceberem falha em dois equipamentos de segurança. A pena original foi de 4 anos e 4 meses de prisão.

MUDANÇA

Nem todos os parentes conseguiram manter a rotina, a exemplo de Rosane. A funcionária pública Anne Caroline Rickli, de 33 anos, precisou sair de Brasília, onde vivia com a mãe e a irmã, para superar a tragédia. A mãe, Maria das Graças Bezerra Rickli, que tinha 58 anos na época, também voltava para casa após prestar consultoria em uma empresa de Manaus.

“Eu tive depressão e outros problemas de saúde. Perdi 10 quilos. Um dia, falei para a minha irmã que não daria mais para morar na mesma cidade”, conta. Segundo Anne Caroline, a casa e os lugares que ela freqüentava a faziam lembrar-se da mãe – uma dor que ela não conseguiu suportar.

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O endereço dela, agora, fica no Recife (PE), onde moram alguns parentes. “Eu tinha acabado de passar no concurso quando minha mãe morreu. Eu sempre penso como seria a vida se ela estivesse aqui. Minha irmã casou e também se mudou, mas foi para o Rio Grande do Sul e agora está grávida. A gente pensa como seria a gravidez se minha mãe estivesse acompanhando.”

O trauma é tanto que, até agora, há familiares com dificuldades de comentar o acidente. A reportagem procurou outras duas famílias, que preferiram não dar entrevistas.

PUNIÇÕES

A Associação de Familiares e Amigos das Vítimas do Vôo 1907 não tem ações para garantir indenizações às vítimas. Segundo um dos advogados da entidade, Dante D’Aquino, essas negociações têm sido tratadas diretamente entre a Gol e as famílias. A expectativa dos advogados é de que o julgamento do recurso sobre a prisão dos acusados ocorra no começo do ano que vem.

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