(*) Arnaldo Niskier

Foi Augusto Comte quem afirmou ser o conhecimento uno e indivisível. Só por motivos didáticos é que o separamos em diferentes disciplinas, e assim se justifica a individualidade da matemática, por exemplo, que empolgou grandes pensadores, como Platão. Segundo ele, na Academia só deveria entrar quem fosse geômetra. Assim ela cresceu e adquiriu grande importância nas escolas do mundo inteiro. No Brasil, entretanto, vive em crise.

Antigas civilizações sempre deram muita importância à matemática, ciência fundamental para a solução de problemas do cotidiano. Quem conhece um pouco de geometria é capaz de lembrar da lei linear de Tales (“toda paralela a um dos lados de um triângulo determina um segundo triângulo semelhante ao primeiro”). Foi possível chegar a esse resultado pela observação da sombra projetada pelas pirâmides do Egito no deserto em que foram erguidas.

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Por que a matemática tem poder? Quem indaga é o astrofísico Mario Livio, no seu livro “Deus é matemático?”. Ele se vale de um pensamento de Albert Einstein para afirmar que “a matemática é um produto do pensamento humano, independente da experiência”. Mas levanta uma dúvida: como é capaz de descrever com tanta exatidão, e até prever, o mundo que nos cerca? Essa questão é tratada com muita propriedade, desde o século I d.C., pelos estudiosos do Zohar, o livro do esplendor da religião judaica, também conhecido como livro de Abrahão.

São dados fascinantes, mas que não ajudam a tornar mais amena a presença da ciência do raciocínio nas escolas brasileiras, mesmo aquelas vocacionadas para as ciências exatas (ou quase). Notas do Saeb e do Enem, relativas ao desempenho em matemática de alunos das antigas 4ª série e 8ª série, essencial para a futura disputa internacional nos exames do Pisa, demonstram uma grande precariedade de resultados, especialmente nos estados do Norte e do Nordeste. A média nacional é de 27 pontos em 100, o que demonstra a deficiência do aprendizado.

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Há uma generalizada falta de bons professores de matemática – e aí o fenômeno é detodas as regiões, lançando uma nuvem de desconfiança sobre os resultados do trabalho das escolas superiores que cuidam das necessárias licenciaturas. Não éde estranhar, por exemplo, que em grandes centros urbanos faltem professores da matéria nos sistemas públicos de ensino. Como formar os jovens para os desafios da sociedade do conhecimento com essa precariedade? Não se deve estranhar que a questão esteja bem equacionada em praças como o Distrito Federal, Rio Grande do Sul, Minas Gerais, Santa Catarina e Paraná. É a melhor prova de que a solução existe.

No caso da matemática, devemos atentar para as potencialidades da educação à distância. É modalidade largamente utilizada em países desenvolvidos, como vimos na Inglaterra (Open University). Por que não adotar a EAD de modo intensivo, inclusive com o emprego dos recursos oficiais de comunicação radiofônica e televisiva? Ou se está à espera de algum milagre divino, tipo as tábuas de Moisés, para que todos apreendam os mistérios da ciência que empolgou filósofos como Platão e Aristóteles? É hora de agir.

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(*) Doutor em Educação, membro da Academia Brasileira de Letras e presidente do CIEE/Rio

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