Uma reportagem do periódico The Daily mostra que vários casais americanos estão recorrendo à ocitocina, conhecido como “hormônio do amor”, para recuperar suas relações desgastadas pelo tempo e pela falta de libido.

O hormônio estaria sendo vendido como uma espécie de Viagra para homens e mulheres com a promessa de aumentar o desejo e a intensidade dos orgasmos. O comerciante Danny Saul, de 48 anos, ouvido pela reportagem, disse ter experimentado os efeitos positivos depois que passou a ingerir ocitocina. Além de spray, agora o hormônio é vendido em gotas nos Estados Unidos.

A repórter do jornal também experimentou o tratamento e contou o resultado para os leitores. Disse que se sentiu mais sociável e pensou mais em sexo.

A ocitocina, os pesquisadores já sabem, age na hora do parto e estimula a secreção de prolactina, hormônio ligado à produção do leite materno. E, estudos sugerem, pode estar envolvida na criação de laços entre os pais e as crianças. Mas a ciência ainda está longe de comprovar qualquer relação entre a ingestão do hormônio e o desempenho sexual.

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“Há estudos experimentais, com animais, sobre os efeitos da ocitocina”, diz a médica Dolores Pardini, professora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp) especializada em menopausa. “Mas não existe nenhum embasamento científico para esse uso.”

Os estudos são tão incipientes que o hormônio nem foi citado no último congresso mundial sobre menopausa, em Roma, de que a média participou. Se ele realmente aumentasse a libido – uma queixa frequente de mulheres que passaram pela menopausa –, certamente seria um dos tópicos do evento.

Para Dolores, que também é diretora do Departamento de Endocrinologia Feminina e Andrologia da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, pode acontecer com a ocitocina o mesmo que ocorreu com outro hormônio, o DHEA. Há quinze anos, o DHEA começou a ser vendido como “elixir da juventude”, com a promessa de retardar o envelhecimento. Hoje, muitos anos e vários estudos depois, os cientistas não conseguiram encontrar uma relação significativa entre a substância e o rejuvenescimento. O DHEA, além de não melhorar a libido, como se dizia, ainda pode causar perda óssea – um risco para as mulheres de meia-idade. “Quando não há estudos suficientes, o risco pode ser maior do que o benefício”, diz Dolores Pardini.

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Enquanto o DHEA não é vendido no Brasil, porque não foi aprovado pela Anvisa, a ocitocina pode ser encontrada nas farmácias. Mas seu uso só é indicado pelos médicos para estimular a lactação – não para melhorar o desempenho sexual de ninguém.

Sem estudos que comprovem os efeitos da ocitocina sobre o sexo, o mais provável é que a jornalista e o comerciante citado pelo Daily tenham sentido a melhora devido ao famoso efeito placebo – em que o paciente se sente melhor apenas por acreditar que o remédio funciona. Ainda mais no caso da qualidade da vida sexual, que depende muito das condições psicológicas dos envolvidos.

Uma boa conversa entre o casal, bom humor para tentar (de novo, e de novo) e, se for o caso, uma consulta com o médico parecem ser maneiras mais eficientes – e menos arriscadas – de melhorar uma vida sexual desgastada.

Letícia Sorg é repórter especial de ÉPOCA em São Paulo.
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