(*) Nelson Valente

O assunto é recorrente e retorna, quando estamos às voltas com a revolução da educação, discutindo sua gênese e os seus objetivos. Na educação superior, uma das provas mais importantes e decisivas do exame do ENEM  é a redação, primeira manifestação dos educadores no sentido de acabar com a prevalência das provas totalmente baseadas na múltipla escolha ( as famigeradas cruzinhas).

A conclusão é óbvia: sem leitura, como escrever adequadamente? O primeiro passo é mesmo a entrega de voluptuosa aos livros, sobretudo os nossos clássicos, sem esquecer os jornais e revistas também podem ser fundamentais.

Criar o hábito ( ou gosto) pela leitura é um primeiro passo que depende basicamente de pais e professores. Há uma idade para isso, que infelizmente para os calouros não coincide com os seus 17 ou 18 anos. Começa antes, na altura ainda do ensino fundamental. Depois, é só alimentar a cabeça de bons produtos, a fim de que persista o interesse.

Leia também:  Luto e luta: todas as vidas nos importam

No vestibular, em geral, caem temas da atualidade. O penta do Brasil no futebol, as forças armadas no combate ao crime, o avanço da Aids, os salários dos professores, a busca da profissão ou a esperança que cerca a vinda de um novo presidente da República. Quem estiver devidamente preparado, com a base que é fornecido por uma leitura constante, não terá dificuldade de desenvolver o tema da prova. Terá desenvoltura e – o que é mais importante – uma riqueza vocabular essencial. A capacidade de expressão vem daí.

Uma saudável epidemia tomou conta da imprensa brasileira. Os grandes jornais publicam alentadas seções de valorização da língua portuguesa, que alguns até ajudam  a abastardar com sua crônica e indesculpável falta de cuidado. Quando sai na manchete do jornal que “Ronaldinho marca gol de placa na Espanha”, não há quem se choque com o lamentável cacófato antes que a página seja definitiva impressa?

Leia também:  Gordura pode voltar após uma lipo? Mito ou verdade?

Em primeiro lugar, pode-se registrar o fato, facilmente comprovável, de que nunca se escreveu e falou tão mal o idioma de Ruy Barbosa. Culpa, quem sabe, da deterioração do nosso sistema de educação básica.

Em segundo, o pouco apreço que devotamos ao gosto pela leitura.

Em terceiro lugar, para não ir muito longe, podemos citar a “contribuição” dos meios televisivos. Donos de uma força descomunal, salvo as exceções de praxe, como os programas gerados pela TV Cultura de São Paulo, praticam um magistral desserviço à educação brasileira. Comunicadores falam mal, atores não se expressam adequadamente, dublagens são feitas de forma chula, programas infantis deseducam  – o que se pode esperar desse triste universo?

O curioso é que, vez por outra, aparece algum vereador interessado em ensinar às nossas crianças a biografia dos homenageados, o que, aliás, é uma boa ideia. Pelo menos um resumo poderia ser colocado na primeira placa de rua. Se isso é de grande utilidade, mais importante ainda é escrever os nomes de maneira correta. Respeitar a nossa língua é uma forma de fazer educação.

Leia também:  Quais são os benefícios do exercício para os idosos?  

Concluindo, o brasileiro está oco. Não é só a ideia da religião, da crença em Deus ou em determinada igreja. Mas está ligado ao pensamento abstrato, à filosofia, ao homem pensando em sua sorte, de onde veio, para onde vai. Essa carência prejudica a cultura geral do indivíduo, porque o homem é essencialmente linguagem. O brasileiro está oco com a língua portuguesa.

Se o jovem não se der bem no ENEM, não há de ser nada. De toda maneira, terá lido alguns dos nossos melhores livros. O que é sempre saudável.

Portanto, há um enorme desafio para reverter esse quadro, exigindo maior atenção das pessoas responsáveis deste País.

 

(*) é professor universitário, jornalista e escritor

 

Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.