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Todo mundo tem um Natal, mas o fato é que a milenar festividade é dessas poucas unanimidades da vida. Mesmo os que não acreditam no seu significado aproveitam os últimos dias do ano de alguma forma, nem que só para dar uma pausa na rotina e reunir forças para o ano que já vem apontando na esquina.

À parte os natais particulares — pelos cheiros, pelas férias, pela família —, há sempre o Natal de todos: o que envolve guirlanda na porta, árvore iluminada na sala, Papai Noel nos shoppings. Junte esses a outros símbolos e o resultado é o que se poderia chamar de “samba do crioulo doido”. Herdamos a árvore um pouco dos romanos, um pouco dos alemães.

O Papai Noel era bem menos gorducho e morava na Turquia, não na Lapônia. Não tinha renas, claro. Por fim, ninguém sabe ao certo em que dia Jesus nasceu de verdade — e o mais provável é que tenha sido em abril, o que significa que a festa vem sempre com oito meses de atraso.

Árvore enfeitada, distribuidores de presentes a crianças e religião não necessariamente carregam a mesma origem, mas foram se misturando ao longo dos anos até formarem a massa mais ou menos homogênea que hoje colore de verde e vermelho o último mês do ano. A Revista foi buscar a história de alguns desses símbolos e mostra de onde vieram e para onde evoluíram. Há por aí até Papai Noel vestido de roqueiro e árvore que canta e dança. A hora é de festejar. Feliz Natal.

A DATA
É 24 de dezembro. A mesa está posta, com abundância de comida. A noite é de festa e de troca de presentes. Mas o homenageado não é Jesus. A celebração é pelo solstício de inverno — a partir daquele dia, as noites seriam cada vez mais curtas e os dias, mais duradouros. Breve, chegaria o verão novamente e os dias frios de escassez, tidos como obra de bruxas e espíritos ruins, ficariam para trás. Qualquer semelhança da Festa do Sol Invicto com o Natal religioso não é mera coincidência.

As celebrações em torno do Sol eram praticadas já muito antes que o cristianismo fosse a religião dominante. Até então, as festas mais importantes dos cristãos se davam em torno do martírio e da morte de Jesus. Mesmo os calendários de judeus e pagãos não coincidiam. Os cristãos guiavam-se pela lua – por isso a Páscoa é, por definição, no primeiro domingo após a lua cheia do equinócio vernal – e os pagãos, pelo Sol, com dias fixos, como se usa atualmente. O cristianismo crescia em Roma um tanto à parte dessa coisa toda. Até que, no século 3, percebeu a importância das festas dos solstícios — de inverno e de verão – para os romanos e o quão difícil seria proibi-las à revelia.

A Festa do Sol Invicto continuaria, exceto que o homenageado seria outro: a Igreja decidiu que Jesus teria nascido no dia 25 de dezembro — embora não exista nenhum registro sobre isso — e, daí por diante, a festança toda seria ao aniversariante. “O que os cristãos fizeram, na verdade, foi dizer para os pagãos: ‘Olha, essa festa aí que vocês comemoram não tem nada de Sol. É pelo nascimento de Jesus’. E assim nasceu o Natal”, resume o historiador Pedro Funari, da Unicamp. “E daí associaram o Sol à luz, por sua vez associado a Jesus”, continua o especialista. O outro solstício, o de verão, virou o que hoje é nossa festa junina, que aqui, na verdade, é no inverno. As fogueiras, aliás, eram originalmente uma celebração ao clima quente de verão. “Foi uma decisão esperta. Os dois solstícios, um em cada metade do ano, viraram grandes festas religiosas”, analisa Funari.

O PRESÉPIO
Não seria mentira dizer que a árvore de Natal é o novo presépio. A montagem, que representa a noite do nascimento de Jesus, é tida como a primeira tradição verdadeiramente católica de Natal, em um tempo em que velhinhos gorduchos e árvores enfeitadas não contavam com a importância que têm hoje nas festividades natalinas. Segundo conta o historiador da Universidade de Brasília Jaime de Almeida, cujo tema da tese de doutorado foi festas tradicionais, a história de como a miniatura – algumas vezes nem tão pequena assim – virou símbolo da celebração remonta à Itália Medieval, lá pelo século 13. Foi nessa época que São Francisco, quando atuava em Assis, juntou animais, reis magos, Maria, José e Jesus na mesma cena. “O presépio de São Francisco de Assis passava uma ideia mais humana de cristianismo. Foi uma maneira de ajudar a aproximar os fiéis, principalmente os analfabetos, que eram boa parte da população”, pontua Jaime de Almeida.

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Daí por diante, os presépios passaram a ser símbolo do catolicismo e, três séculos depois, quando a Reforma Protestante rachou o cristianismo, ele ficou sendo uma espécie de identificação católica quando os reformistas se desgarraram de imagens e santos. Onde houvesse um presépio, havia um católico. No Natal, os presépios eram montados e adornados pelas famílias e quase sempre abertos à visitação. “A ideia era de que o seu presépio fosse o mais vistoso, o mais bonito”, conta o historiador da UnB. As pessoas saíam às ruas para conhecer os presépios pela cidade, alimentando o cunho religioso da festa. Hoje, é a árvore a grande protagonista das decorações mais pomposas de Natal, mas as montagens da cena do nascimento continuam presentes nos lares católicos.

O PAPAI NOEL
O século é 4 depois de Cristo e a cidade é Myra, onde hoje fica a Turquia. Vem daí, e não da Lapônia, a história contada pela Igreja para justificar a existência do velhinho gorducho que distribui presentes às crianças comportadas. O benfeitor era Nicolau de Myra, bispo da cidade na época. Diz a lenda que ele, um homem bastante afortunado, ajudava aos pobres jogando saquinhos de moedas de ouro pelas chaminés das casas nas noites de dezembro. A história mais conhecida é das três irmãs que teriam sido salvas da prostituição graças a Nicolau – espertas, elas usaram o presente como dote para um bom casamento e se livraram da triste sina. Talvez você conheça Nicolau de Myra por um nome um pouco mais popular: São Nicolau, que em países como a Rússia, por exemplo, têm importância equivalente a que Nossa Senhora Aparecida tem por aqui, inclusive o papel de padroeiro das crianças. Hoje, a cidade onde está a tumba de Nicolau tem um mercado turístico agitado e recebe milhares de fiéis, especialmente russos, em visita ao santo.

Séculos depois, quando a Reforma Protestante atacou o culto aos santos, São Nicolau foi praticamente banido de grande parte dos países europeus. Na Holanda, no entanto, onde ele era chamado de Sinterklass, o culto permaneceu vivo e foi, em seguida, levado à colônia de Nova Amsterdã, nos Estados Unidos, onde hoje é Nova York. Depois, quando os ingleses retomaram o poder, Sinterklass já havia caído na cultura do povo. “Eles cozinhavam biscoitos em formato de bispo e diziam às crianças que ele traria presentes na noite de 5 de dezembro, quando se comemorava seu dia”, conta o historiador da Universidade de Manitoba, na Inglaterra, e autor de Santa Claus: A Biography (sem tradução para o português), Gerry Bowler.

Foi no início do século 19, no entanto, que ele ganhou a forma que conhecemos hoje. Um grupo de artistas, poetas e escritores de Nova York mudou a aparência de São Nicolau como parte de um movimento que queria dar uma nova identidade às festividades natalinas, até então bastante ruidosas, geralmente com muita gente nas ruas e álcool à vontade. Eles então o vestiram de vermelho e batizaram de Santa Claus, acrescentaram alguns quilos a mais. Substituíram a sisudez religiosa por um simpático sorriso. Por fim, definiram que, a partir de então, ele viria na véspera de Natal, e não mais em 5 de dezembro, o dia de São Nicolau, quando as crianças ganhavam presentes.

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“Era uma forma de humanizar o Natal e trazer as festas para dentro das casas. Assim, elas teriam um caráter mais classe média e menos popular”, pontua Bowler. O poema Twas The Night Before Christmas (A noite antes do Natal, em português), escrito por Clement Clark Moore para os filhos em 1822, foi um dos maiores expoentes desse movimento. De acordo com o historiador inglês, é daí que surgem as oito renas no lugar dos cavalos, que, até então, carregavam o presenteador.

A Coca-Cola, portanto, nada teve a ver com a invenção do Papai Noel, como muitos acreditam. No entanto, ajudou a popularizá-lo quando decidiu usar a figura do bom velhinho numa série de anúncios de fim de ano ilustrados pelo artista de Chicago Haddon Sundblom. Os anúncios assinados por Sundblom foram um sucesso e circularam de 1931 até 1964. “Mas a figura simpática em uma veste vermelha já era a imagem padrão do Papai Noel antes disso”, frisa Bowler.

Curiosidades
# Rovaniemi, na Lapônia (Finlândia), recebe cerca de 600 mil cartas por ano endereçadas ao bom velhinho.
# O endereço do Papai Noel é: Santa Claus, Santa Claus Village, FIN-96930 _ Article Circle, Finland.
# Mas ele é um senhor moderno e tem e-mail também: [email protected]..
# 85% das crianças de 4 anos acreditam que ele exista. Entre as de 8, apenas 25%.
# Ele teria que descer por 2,5 bilhões de chaminés se quisesse presentear todas as famílias.
# Os norte-americanos gastam, em média, US$ 900 (cerca de R$ 1.602) em presentes no Natal.

A CEIA
A história da comilança na véspera de Natal é dos mistérios natalinos para os quais os livros de História não apontam muito bem a origem. Alguns acreditam que tenha viajado gerações pelos séculos desde os primórdios das comemorações, quando a festa do dia 25 de dezembro era em homenagem ao Sol e o banquete à meia-noite, oferecido ao deus da agricultura para que a colheita fosse próspera no verão que aproximava. Já uma outra versão dá conta de que a farta ceia, recheada de frutos típicos do inverno nórdico, como as nozes, viria dos protestantes e suas comemorações menos ruidosas e mais familiares _ com a família reunida em torno da mesa de jantar.

O CARTÃO
Desejar feliz Natal e um próspero ano-novo é uma tradição milenar. Não porque o Natal também o é, mas porque em 1843 o artista inglês John Calcott Horsley recebeu uma encomenda que, mal sabia ele, o tornaria imortal entre as tradições de Natal. Naquele ano Sir Henry Cole não teria tempo de escrever aos amigos durante a época festiva, como fazia todos os anos. Terceirizou a tarefa e Horsley ficou encarregado. Mil cartões foram impressos em branco e preto e depois coloridos à mão. A ilustração mostrava uma família feliz, levantando taças em um brinde ao destinatário com as palavras Merry Christmas (Feliz Natal). Aos poucos, a invenção foi se sofisticando. Já em 1870 circulavam cartões com truques como puxar um pedaço de papel e ver o cartão crescer para o dobro do seu tamanho – eram os trick cards. Hoje, embora a tradição vitoriana permaneça viva, ela acabou ganhando novos contornos com a tecnologia e diversas versões musicais e animadas estão disponíveis gratuitamente em sites especializados na internet.

A ÁRVORE
Geralmente é ela quem dá a largada na temporada de Natal. Quando as vitrines começam a exibi-la junto às ofertas e os shoppings montam suas versões gigantescas, é hora de planejar as compras natalinas e tirar as caixas de enfeites do maleiro. Embora originalmente não tenha significado religioso, o pinheiro de Natal subiu na vida, ganhou status de protagonista natalino, somou novos e divertidos penduricalhos às já antigas e tradicionais bolas. Entre as famílias, fazer espaço para ela – enorme, no canto da sala, ou miúda, em uma prateleira -, é o mesmo que abrir as portas oficialmente para o espírito de confraternização da data.

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O pinheiro não foi escolhido à revelia para ocupar um dos postos de maior destaque das festividades de fim de ano. Sua presença vem desde os tempos em que a festa era pagã: acreditava-se que, como ele permanecia verde mesmo durante os mais rigorosos dias de inverno, seria imune a bruxas e espíritos ruins, supostamente os culpados pelo desaparecimento temporário do Sol. Assim, supuseram que pendurar galhos de pinheiros nas portas e janelas seria o suficiente para manter bem longe todo tipo de ruindade trazida por eles. Já no norte da Europa, na época em que os celtas se espalharam pelo continente, dois milênios antes de Cristo, os templos dos conselheiros (os druídas) eram decorados com pinheiros como símbolo da vida eterna.

O costume de decorar a árvore para a época de Natal como atualmente, no entanto, é herança alemã e, segundo historiadores, vem do século 16, quando alguns cristãos passaram a construir pirâmides de madeira e enfeitá-las com folhas e velas. A lenda diz que numa noite de dezembro, enquanto caminhava para casa, Martin Luther, um reformista protestante, notou como brilhavam as estrelas por entre os galhos dos pinheiros na floresta. Encantado com a cena, arrastou uma das árvores até a sala da sua casa e distribui velas por entre os galhos para compartilhar a magia com a família.

Os alemães levaram sua criação aos Estados Unidos, no século 19. Mesmo assim, demorou até que ela perdesse sua conotação pagã entre os norte-americanos. Foi só quando a rainha Vitória, da Inglaterra, e seu marido, o alemão Príncipe Albert, estamparam o informativo Illustrated London News posando com os filhos ao redor de uma árvore decorada para o Natal, em 1846, que a população passou a aceitar melhor o costume. A rainha era bastante popular e a corte era referência de moda já na época – mesmo entre os norte-americanos, já antenados às tendências da ex-metrópole.

Curiosidades
# Nos Estados Unidos, o comércio de árvores de Natal existe desde 1850.
# Pinheiros de Natal demoram cerca de sete anos para amadurecer.
# A indústria das árvores natalinas emprega mais de 100 mil pessoas nos Estados Unidos.

A FOLIA DE REIS
A bagunça da Folia de Reis, em 6 de janeiro, não tem origem brasileira, mas ganhou status de festa folclórica por aqui. A farra popular, na data fixada pela Igreja como o dia em que os três reis magos -Melchior, Baltasar e Gaspar – teriam visitado Jesus após seu nascimento, foi, na verdade, importada de Portugal provavelmente ainda nos nossos tempos de colônia. E se aqui é o dia de começar a despedir-se dos enfeites natalinos, em muitos países essa é a hora de trocar presentes – em alusão a mirra, ouro e incenso que teriam sido presenteados pelos reis ao menino recém-nascido. Embora a folia tenha origens populares, com gente nas ruas de casa em casa festejando a visita dos três reis, na maioria dos países europeus ela é bem menos ruidosa do que a versão brasileira.

Antes de ser uma festa do povo – em algumas cidades ela se estende por dias ou semanas -, ela foi um poderoso instrumento da metrópole para levar o catolicismo a negros e índios. “Foi bastante conveniente para os jesuítas e missionários, já que era uma festa religiosa que peregrinava de casa em casa levando a mensagem do nascimento de Jesus”, resume o historiador da UnB Jaime de Almeida.

Fontes: Gerry Bowler, professor da Universidade de Manitoba e autor de Santa Claus: A Biography, os historiadores Pedro Funari, da Unicamp, e Jaime Almeida, da UnB, o site History.com, e Mary Beard, professora da Universidade de Cambridge e autora de Religions of Rome: A History

Correio Braziliense

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