Está em curso uma tentativa disciplinada do PT, em todos os cantos do país, de desacreditar a imprensa brasileira que retomou às primeiras páginas, notícias e o histórico do Mensalão. Para quem se esqueceu, o Mensalão foi uma irresponsabilidade política de quadros superiores do partido, em situação de exercício do poder no primeiro mandato do Presidente Lula que, com dinheiro público ou de origem suspeita, compravam votos e apoio às decisões partidárias junto a parlamentares e operadores políticos em Brasília e outras capitais. A imprensa brasileira, com competência e independência, denunciou a pilantragem, caíram ministros, deputados e lideranças do PT e, o processo, depois de anos na gaveta dos tribunais, chega à alça de mira dos ministros do STF, em julgamento que promete sacudir os alicerces políticos da nação brasileira.

Esta negativa reiterada do PT de não reconhecer a existência do Mensalão, tentar proteger os implicados no processo junto ao STF e negar a autoria e responsabilidade pelo erro cometido, junto à sociedade e à imprensa, é de uma irresponsabilidade política grosseira. Lembra muito o regime nazista alemão, que tinha Goebells como ministro da informação e propaganda, defendendo uma tese, na época inusitada: “uma mentira repetida muitas vezes com convicção acaba se transformando uma verdade absoluta”. O regime nazista consolidou-se e cometeu os piores crimes do século XX a partir disto. O PT não precisa deste expediente.

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Entendo que esconder e negar o Mensalão, por parte do PT, é o mesmo que a dona de casa, sem tempo, tendo que buscar filho na escola e, preparar o jantar da família, não consegue botar o lixo varrido para fora de casa e decide escondê-lo debaixo do tapete da sala. A casa fica bonita, a mulher recebe elogios por ser uma boa dona de casa, mas o lixo está lá. A família não vê, mas o lixo continua lá, até que ela consegue colocá-lo para fora de casa. Afinal é apenas um lixo, nada importante.

O PT tem uma obrigação histórica com a sociedade brasileira, que é de reconhecer os erros e equívocos políticos que geraram o Mensalão e iniciar um processo de desculpas à nação, que acreditou, apostou e apoiou, em inúmeras eleições, grandes nomes do partido, como o próprio Lula e a Presidenta Dilma Roussef. Se tiver necessidade de colocar o lixo para fora e expor meia dúzia de canalhas e irresponsáveis, que seja!. Um mea culpa, por conta do Mensalão, não será o fim do PT, mas um honroso reencontro com a ética, com a história do partido e, com sua tradição de luta democrática. Personagens como a professora Marilena Chauí, o promotor Hélio Bicudo, Florestan Fernandes e o próprio Lula, que estão na gênese do PT, merecem este gesto de humildade política.

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O que, definitivamente, compromete o Partido dos Trabalhadores é subestimar a inteligência da sociedade brasileira, na tentativa surrealista de achar um bode expiatório para o Mensalão, denunciando a imprensa como instrumento de perseguição política ao partido. Seria grosseiro se não fosse trágico. A imprensa brasileira é uma das mais sérias e decentes no cenário internacional. Em qualquer lugar do mundo, se jornalistas responsáveis fizessem uma denúncia de tal magnitude, este pessoal já estaria na cadeia. Por muito menos um presidente americano perdeu o mandato e, um deputado, por vergonha, atirou na própria boca.

Há que se considerar, por oportuno, que imprensa se faz com jornalistas e, estes, dificilmente se arvoram em pais da verdade e do poder. Não são estrelas ou ídolos de mídia, mas tão somente trabalhadores da notícia, que suam atrás de seus micros na confecção das notícias que estarão nos jornais, televisões, rádios e sites, no dia seguinte, tendo como propósito apenas o de informar a sociedade com responsabilidade e ética. E, por fim, sempre é bom lembrar que a grande maioria dos jornalistas brasileiros tem formação humanista, postura política progressista, se não de esquerda mesmo e, sempre tiveram pelo PT um enorme respeito, desde sua fundação. Este respeito tem origem na própria origem do partido e na envergadura dos intelectuais, pensadores e lideranças que o criaram como alternativa para o autoritarismo da ditadura de 64 e o resgate das liberdades políticas da nação brasileira. Respeito à história é bom e a sociedade, com certeza, gosta.

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Paulo Mello

Jornalista e publicitário em Rondonópolis

 

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