Neste texto, quero traduzir todo meu repúdio por Rondonópolis – em pleno século XXI – ainda ter em seu mapa territorial uma avenida denominada de Presidente Médici. Há muito tenho questionado alguns, para que através de lei municipal mudem o nome dessa importante e bonita avenida de nossa cidade substituindo-o por outro, que realmente tenha contribuído para a paz e o engrandecimento de nossa Nação. Como para Ayrton Senna da Silva, por exemplo.

No dia 16 deste mês, me comovi ao ver a presidente Dilma Rousseff interromper seu discurso por conta da emoção pelo qual foi tomada, quando da instauração da Comissão da Verdade – que vai investigar, sobretudo, o destino dado aos chamados desaparecidos políticos do período da ditadura militar (1964-1985). Naquele instante, brasileiros como eu, que escaparam por pouco das garras dos algozes, devem ter relembrado todo o sofrimento por que passaram os ativistas políticos, que foram presos pelos aparatos do regime opressor, principalmente pelos DOI-CODI e DOPS, e então representados todos eles naquele momento, pela figura da presidente que sofreu, ela também, na carne, a tortura, a opressão, a prepotência e o mais alto grau de desrespeito para com a dignidade humana.

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Em foto-montagem, a mídia nacional reproduziu a presidente – no ato do lançamento – interrompendo sua fala em razão das lágrimas furtivas, e detida pelo regime de exceção – durante um interrogatório por um tribunal militar, cujos protagonistas, numa clara demonstração de covardia, escondem seus rostos com as mãos.

Para os que desconhecem essa parte a história do País, sobretudo os das gerações posteriores ao Golpe de 64, aquele momento de Dilma Rousseff, nada representou. Para mim e com certeza para muitos outros, remontou a um passado turvo e obtuso, em que o Brasil passou a vivenciar um estado de selvageria; de extrema violência, praticado nos sombrios porões dos aparatos policiais citados acima, que detinham o poder de decidir quem vivia e quem morria e que seqüestravam e torturavam pessoas, em sua maioria por somente não concordar com o terror instalado (vide histórico do deputado paulista Rubens Paiva, até hoje desaparecido).  Em artigo publicado no site R7, no dia 18, o professor universitário Sinval Medina (USP/SP), afirma: “As famílias, os amigos e o Estado, têm direito de saber isso. No Brasil, não houve nem há pena de morte. Portanto, o Estado [na época da ditadura militar] não tinha o direito de matar. Tinha de permitir o julgamento correto e justo.”

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Em breve conversa ocasional que tive com um ex-torturador por volta de 1983/84, em Cascavel (PR), ele me relatou, aos prantos, que se arrependia de coisas que havia feito, mas que durante seu “trabalho”, cumpria ordens superiores. Eu, quase no início de minhas funções jornalísticas, tive nojo, desprezo e até hoje quando me lembro, tenho a mesma sensação. E por todas as ações praticadas por esse nefasto período e em nome da dignidade humana, eu conclamo os rondonopolitanos a apoiarem a minha iniciativa, para que seja mudado o nome da referida avenida. As despesas que as empresas terão, para mudar o endereço de suas sedes, certamente serão insignificantes, quando o fato representará banir da sociedade todo e qualquer resquício da brutalidade e da sordidez, que a ditadura militar proporcionou ao País, mais arrefecida no período de 1969 a 1974, sob o comando do então presidente o General – de – Exército Emílio Garrastazu Médici. Cujos desmandos determinados e permitidos durante seu governo, ainda envergonham o bom e hospitaleiro povo sul-riograndense, do qual ele, infelizmente, era filho, assim como eu, orgulhosamente, sou.

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Maria Estela Boranga,

reside em Rondonópolis há 25 anos e

Jornalista Profissional e Técnologa em Gestão Ambiental.

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