A CPMI do Cachoeira seria uma excelente oportunidade para o senador mato-grossense Pedro Taques (PDT) mostrar ao que realmente veio. Pelo menos sendo coerente com seu discurso de paladino da moralidade.

Taques atua no Senado como um procurador da República, pura e simplesmente, discursando em defesa da Constituição e cobrando das instituições o cumprimento da Carta Magna. Isto tem um lado positivo. Mas é pouco.

Para um senador da República, Taques, com o histórico de combatente que tem da moralidade, atua de forma muito tímida. Fica no varejinho, quando tem competência para ir muito além do atacado.

A CPMI traz questões importantes que podem orientar para mudanças profundas na República brasileira se não terminar em pizza. Pode apontar mudanças, por exemplo, a cultura política nacional, como a relação dos entes públicos com as empreiteiras e destas com os agentes políticos a serviço delas.

Pode direcionar e aperfeiçoar pontos da reforma política em tramitação no Congresso Nacional, sendo Taques um de seus mais assíduos colaboradores. O financiamento público de campanha é um deles. Pode indicar mudanças na relação da mídia com a sociedade.

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Enfim, poderá muita coisa a CPMI do Cachoeira se pessoas como Pedro Taques souberem atuar de forma a defender os interesses da sociedade no plano real. É lamentável que Taques se conduza por uma abstração que não leva a nada senão a reduzi-lo em pouco tempo a uma figura folclórica no Congresso Nacional.

Sim, porque não apenas os mato-grossenses que o elegeram apostam muito em sua presença aqui em Brasília. Taques chegou saudado como um nome que iria injetar sangue novo na política nacional. Mas ele começou tudo de forma errada.

Para início, um de seus aliados dentro do Senado era ninguém menos que o próprio Demóstenes Torres. Taques, Torres e o colega do PSOL amapaense Randolfe Rodrigues formavam o trio de “paladinos da moralidade”, atuando em conjunto em diversas iniciativas de combate, sobretudo, ao governo federal.

Estranhamente, as baterias do trio pouco miravam quando as denúncias de corrupção atingiam governos tucanos e democratas pelo Brasil afora.

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Impossível negar a influência de Demóstenes sobre Pedro Taques e Randolfe Rodrigues dentro do Plenário do Senado. O trio parecia um grupo de jogadores em campo com suas jogadas ensaiadas.

Desmoralizado Demóstenes, envolvido até as tampas com os esquemas criminosos do bicheiro Carlinhos Cachoeira, Taques e Randolfe, num primeiro momento, se sentiram órfãos dentro e fora do Plenário do Senado.

Pedro Taques ainda amargou o vexame de ver seu melhor aliado em Brasília, também procurador da República, Demóstenes, ser revelado com o braço político do crime organizado em Goiás. O mesmo tipo de braço político de João Arcanjo Ribeiro em Mato Grosso, que tanto Taques combateu.

Como o mundo dá muitas voltas…

Talvez tudo isso explique o fato de Pedro Taques se mostrar meio que perdido na CPMI do Cachoeira. Ele ainda está se refazendo do baque. A sua chance está necessária compreensão que acontecerá, tenho certeza, de que política não se faz em linha reta.

Se quiser de fato ser um grande senador e não se perder na pequenez da abstração, Pedro Taques vai ter que descartar o seu discurso (e prática) de que não é situação nem oposição e, sim, Constituição. Pois, se assim continuar a trilhar, não será apenas uma peça folclórica, mas percorrerá os caminhos da leviandade política.

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A meu ver, Taques precisa sair desse muro “constitucional” que ele insiste em ficar, pois não passará de objeto de curiosidade efêmera. Ele tem que escolher seu lado.

Só há dois caminhos para Taques se salvar politicamente e dizer ao que de fato veio: assuma-se como pedetista e atue de forma orgânica (mesmo que de forma crítica como costuma fazer), ou se assuma de vez como oposição.

Eu, por exemplo, por enquanto não vejo nenhuma diferença entre o discurso de Taques e de um tucano de alta plumagem como Álvaro Dias. Assim como não via pouquíssimas divergências entre as falas dele e as de Demóstenes Torres.

JOÃO NEGRÃO é jornalista em Brasília

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