Durante toda minha infância convivi com a produção agropecuária. São memórias positivas da fauna e flora presentes nas propriedades rurais dos meus pais e avós que ensinaram para mim e meu irmão, Emerson, a importância da terra e da preservação dos seus recursos naturais. Naquele tempo a região Centro-Oeste era desprezada, o Cerrado era considerado um ecossistema pobre por causa dos solos ácidos que praticamente inviabilizavam a atividade agrícola.

Em 1970 o cenário mudou. O lançamento do Plano de Integração Nacional, cujo lema era “Integrar para não entregar”, estimulou a colonização da região de forma mais efetiva. O governo federal concedeu incentivos para que empresários investissem nessas áreas. Dentre as contrapartidas, os colonos foram obrigados a desmatar sob pena de perderem suas terras. Os empreendedores da época foram chamados para abrir a floresta, enfrentaram a malária e todas as dificuldades decorrentes da ausência de infraestrutura. Com o desenvolvimento da ciência e da tecnologia – que coincide com a criação da Embrapa na mesma década – alcançamos a posição de destaque mundial na produção de grãos, fibras e carne. Para se ter uma ideia, Mato Grosso hoje é responsável por 9% da produção de soja no mundo, mesmo exportando apenas 47% de sua produção.

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De vitrine passamos a vidraça. De soldados da integração passamos a vilões do meio ambiente. Mas o que será que aconteceu neste intervalo para mudarmos de posição tão rapidamente?

Antes que os nossos críticos reforcem o movimento de nos atacar, queremos resgatar as conquistas deste período: a entrada de três cidades mato-grossenses (Lucas do Rio Verde, Sorriso e Primavera do Leste) entre as 100 melhores em qualidade de vida no Brasil, o surgimento de novas cidades, o crescimento do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) em municípios com forte vocação agrícola, a melhoria em serviços como educação, saúde e transporte. Seguramente avançamos muito.

É importante ressaltar que os produtores rurais não têm nenhuma intenção de conseguir aval da opinião pública para diminuir as restrições ambientais. Não queremos isso, pois já assimilamos que o mundo mudou. Queremos que os brasileiros valorizem suas histórias e vitórias, desfazendo a imagem de que temos memória curta e baixa auto-estima. Precisamos dizer em alto e bom som que o nosso modelo de produção agrícola é, atualmente, um exemplo para o mundo. Utilizamos a mesma área para produzir até três safras, alcançando ano a ano aumento nos índices de produtividade por meio de técnicas sustentáveis como o plantio direto e a criação de gado e plantio de floresta na mesma área.

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Estamos na vanguarda desse processo. Nenhum outro país do mundo com destaque na agropecuária pode afirmar que preserva o meio ambiente como nós. A área considerada produtiva em Mato Grosso equivale a 38% do território estadual, sendo 32,41 milhões de hectares com produção agropecuária e 1,89 milhão de hectares destinados a outras ocupações, segundo informações do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (Imea). Em nosso Estado, 62% do território (56,02 milhões de hectares) está preservado, sendo que deste total 2/3 estão nas propriedades rurais (36,97 milhões de ha) e 1/3 (19,05 milhões de ha) em áreas protegidas, como Unidades de Conservação e Terras Indígenas. Em outras palavras, os produtores rurais têm feito mais do que a União, porque boa parte das áreas preservadas estão em nossas mãos. Será que não houve uma inversão de valores?

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Estes números merecem reflexão, especialmente nesta semana quando se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente e da Ecologia, em 05 de junho. Continuaremos nesta rixa histórica entre ambientalistas e produtores rurais? Nessa conversa de surdo-mudo, maniqueísta do bem contra o mal? O mundo não é mais dicotômico e ficou muito mais complexo. Não seria melhor se nos uníssemos, abandonando esses rótulos, para propor regras ambientais para o Planeta cumprir? De nada adianta sermos sustentáveis se nossos vizinhos não forem, porque o meio ambiente não respeita fronteiras.

Poderíamos aproveitar nosso conhecimento e liderar a criação de um Código Florestal Mundial que alie produção sustentável e preservação ambiental. Esta é nossa oportunidade. Permaneceremos acomodados nos discursos fáceis e nas conversas rasas, sem embasamentos científicos, tentando convencer a sociedade a “torcer” para um time (produtores x ambientalistas) em detrimento de outro? Ou assumiremos uma posição inédita de liderar o debate das questões ambientais? As futuras gerações dependem dessa mudança de posicionamento.

Rui Prado

Produtor rural e

Presidente da Federação da Agricultura e Pecuária de Mato Grosso (Famato)

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