É assustador o aumento deficiente das cidades. Prédios antigos, com estruturas abaladas, instalações elétricas comprometidas, meios de segurança defasados e em muitas vezes ausentes, fazem parte deste cenário precário e decepcionante. Dentro de um contexto tão amplo e pouco valorizado, uma peça nunca antes foi tão menosprezada quanto nos tempos de agora. A vida humana deveria ser o nosso maior patrimônio, mas está nítida a indiferença com que ela é tratada. Arrisco até dizer, manipulada.

O que move o ser humano é a esperança. Espera-se que o amanhã seja melhor do que o hoje e para se chegar ao amanhã, deve-se indubitavelmente estar vivo.  E com essa linha destaco a Segurança Contra Incêndio e Pânico das edificações de todos os lugares do nosso mundo.

Um tema de relevante importância e de grande aplicabilidade. Porém, de pouco interesse para a população em geral, infelizmente. Pois bem, se o assunto, aos olhos da sociedade é praticamente uma inutilidade, pergunto: Por que os Estados Unidos o estudam desde 1911 e o Brasil só começou a sua pesquisa na década de 70? A resposta é clara. As ações de pesquisa envolvendo a prevenção só se concretizam após o acontecimento de fatos dolorosos. No caso dos Estados Unidos, o que motivou a busca pela segurança foi um incêndio na fábrica da Triangle Shirtwaist, Nova Iorque, em 25 de Março de 1911, que vitimou 146 trabalhadores. No Brasil, precisou ocorrer duas situações dantescas para que a cultura de prevenção contra incêndio e pânico iniciasse a sua lenta caminhada. A primeira foi o episódio (1972) do Edifício Andraus em que houve 16 mortos e 330 feridos. A segunda foi a fatídica morte de 179 pessoas e 320 feridos no incêndio do Edifício Joelma (1974). É só assistir a um vídeo desses dois incêndios que rapidamente identificaremos erros grotescos, como: falta de sinalização, público desorientado, meios ineficazes de combate a incêndio. Erros esses que não mais são admitidos. Pois, com erros perderam-se vidas e com erros perderemos vidas.

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Só a partir daí foi que as autoridades voltaram os olhos para um assunto que até hoje não aparece o quanto deveria na mídia. Que até hoje perde para os assuntos de estética. Que até hoje é motivo de gargalhadas em assuntos de segurança pública.

Não precisamos ir muito longe para constatarmos a nossa negligência com a vida de todos. Lembremos agora o dia 11 de Setembro de 2001, o desespero, o pânico e todos os sentimentos negativos tomam conta de quem presencia e vive as cenas horrendas das torres gêmeas do World Trade Center. Especialistas afirmam que a estrutura dos prédios, a resistência ao fogo, as escadas de emergência, o treinamento de pessoal para situações de pânico e outros itens se mostraram totalmente ineficazes.

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Perante a isso, não resta dúvidas de que a cultura prevencionista deve estar entranhada no berço da população. Extintores, placas de sinalização, hidrantes e outros meios úteis devem ser vistos como aliados de uma possível emergência e não um item custoso e antiestético.

Somente, e infelizmente, de forma obrigatória as normas e legislações são aplicadas, e mesmo assim, a uma parcela ínfima das cidades. A vida humana carece de segurança em todos os aspectos.

Frequentar recintos fechados, lugares altos e onde haja aglomeração de pessoas é um direito do cidadão e não podemos privá-lo. Porém, é dever nosso oferecer o máximo de proteção para que ele entre e saia com segurança, ocorrendo ou não uma situação calamitosa.

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Será que teremos que enfrentar mais uma catástrofe para novamente valorizar a vida?

 

Ednaldo Fernando Rodrigues

Tenente Bombeiro Militar

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