Wallace foi o melhor jogador brasileiro em quadra, com 27 pontos contra os russos (Foto: Reuters)

“Será que eu errei tudo?” O tombo feio diante dos cubanos na Liga Mundial, em julho, fez a pergunta martelar na cabeça de Bernardinho pela primeira vez. No dia seguinte, a derrota para a Polônia tirou o Brasil do torneio e enfiou uma dose extra de angústia na bagagem que a seleção masculina de vôlei carregou para Londres. Mas será que ele tinha errado tudo? Ao longo do caminho na Inglaterra, o time cresceu, derrubou adversários de peso e, sem americanos e poloneses pela frente, avançou feroz até a disputa do ouro. Neste domingo, a equipe se agigantou nos dois primeiros sets contra a Rússia. E quando a coroa parecia estar de volta, tudo mudou de novo, com os europeus arrancando um empate heroico, forçando o tie-break e sacramentando uma virada que parecia impossível. Com suados 3 a 2 (19/25, 20/25, 29/27, 25/22, 15/9), a Rússia é campeã olímpica pela primeira vez desde o fim da União Soviética. E a seleção de Bernardinho, prata pela segunda vez seguida, carrega suas dúvidas na volta para casa.

No jogo que marcou a aposentadoria de Giba da seleção e provavelmente a última participação olímpica de craques como Serginho, Ricardinho e Rodrigão, o Brasil viu o ouro na mão. No terceiro set, abriu 21/18 diante de uma Rússia mortinha e precisava de mais quatro pontos para iniciar a festa. Giba ainda entrou pela primeira vez, para sentir o gosto da conquista, e o Brasil teve dois match points. Mas o último sabor foi amargo. Veio a virada, e a seleção verde-amarela foi se afundando nos próprios erros. Melhor para o gigante Dmitriy Muserskiy, de 2,18m. O técnico Vladimir Alekno ousou e o lançou como oposto. Deu certo. Muserskiy fez 31 pontos – 26 depois da mudança – e conduziu seu país numa reação antológica.

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A exemplo de Pequim, o Brasil encerra a campanha londrina com a prata. É o sexto pódio olímpico de Bernardinho: prata como jogador em 1984, bronze à frente da seleção feminina em 1996 e 2000, ouro com a masculina em 2004, e os dois vice-campeonatos em 2008 e 2012. A diferença é que, desta vez, a conquista estava próxima, por um triz. E a derrota ofuscou a grande atuação do caçula Wallace, com 27 pontos, seguido pelos 18 de Murilo. O badalado oposto Maxim Mikhaylov fez “apenas” 17, mas vai voltar para casa com o que mais importa: o ouro no peito.

Início arrasador

Quando a bola subiu para o primeiro saque, ainda dava para encontrar um bocado de cadeiras vazias na Arena de Vôlei, mas foi por pouco tempo. Logo o ginásio estava lotado e, como de hábito, com as arquibancadas tomadas pelo amarelo. A torcida russa fazia barulho, mas logo era abafada pela brasileira, que desde o início do torneio apoiou as seleções masculina e feminina.

Havia uma expectativa de que a Rússia da final não seria a mesma presa frágil da primeira fase, mas o Brasil não quis nem saber. Abriu logo 3/0 como se estivesse treinando em Saquarema e, na primeira parada técnica, já vencia por 8/5, com três pontos de Murilo. Wallace também conseguia virar com facilidade, ao contrário do temido Mikhaylov, que não conseguia se encontrar. Sem sustos, a seleção de Bernardinho fechou o primeiro set em 25/19.

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No segundo, opa, os russos se engraçaram e abriram 2/0. Mas foi só um blefe. Na parada técnica, já era o Brasil que vencia por 8/4, com o pé nas costas. O placar não chegou a deslanchar, mas Wallace cresceu na hora certa e manteve a vantagem. Com um bloqueio simples de Lucão, o placar chegou a 19/15 e deu à equipe verde-amarela o conforto necessário para se manter à frente. Bastou controlar o ritmo para fechar a tampa da parcial em 25/20.

Na história do vôlei nas Olimpíadas, nunca tinha acontecido de um país abrir 2 a 0 na final e sair derrotado. Mas a história está aí para ser refeita. No terceiro set, a Rússia acordou e pareceu disposta a quebrar o tabu. Vencia por 8/7 na primeira parada, mas já perdia por 16/15 na segunda. A vantagem se ampliou para 21/18, e a torcida brasileira não parava de cantar. Dante e Murilo se abraçaram e sorriram, sentindo que a conquista estava próxima.

A Rússia não se entregou e, no 23/22, Giba tirou o agasalho e, com seu cavanhaque da sorte, foi à quadra pela primeira vez para sentir o gosto de mais um ouro. A torcida veio abaixo, mas o atacante jogou apenas um ponto, viu o rival empatar e voltou para o banco com um sorriso amarelo, porque a festa virou preocupação. Os russos salvaram um match point, arrancaram uma reação inesperada e calaram a torcida brasileira. Venceram o terceiro set por 29/27 e jogaram a tensão para o outro lado da rede.

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Muserskiy decide

Bernardinho voltou com Giba para a quarta parcial. O sistema de Bernardinho já parecia não funcionar tão bem, e os russos venciam na primeira parada técnica por 8/7. Mikhaylov, que dormia desde o primeiro set, estava de volta ao jogo, mas era o gigante Muserskiy que continuava puxando o ataque. Giba virou alvo na defesa e não conseguia virar uma bola sequer no ataque. Assim, a diferença chegou a 18/13 e, quando o brasileiro voltou para o banco, o estrago já estava feito. A Rússia abriu meia dúzia de pontos e só precisou controlar até o fim: 25/22. Tudo igual na arena, e um ouro que parecia certo foi para a disputa do tie-break.

Abatido, foi o Brasil que virou presa fácil no set decisivo. Com os russos soltando o braço, a diferença foi subindo até chegar a 9/4. Bernardinho parou o jogo, conversou com o time, mas não adiantou. O momento era todo russo. Com Muserskiy martelando uma atrás da outra, o jogo voltou a parecer um treino em Saquarema, mas um treino ruim, daqueles em que nada dá certo. O líbero Obmochaev já pulava pela quadra quando o placar estava em 12/6. Terminou em 15/9. E a alegria de sábado com as meninas virou uma tristeza sem fim no domingo com os rapazes.

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