A segunda noite de competição do 40º Festival de Gramado teve um concorrente peculiar. “Super Nada”, segundo longa-metragem de Rubens Rewald, mais uma vez em parceria com Rossana Foglia, é uma espécie de primo de “Riscado” , que saiu com cinco prêmios da serra gaúcha no ano passado. O roteiro reflete sobre a profissão de ator, mas também flerta com o suspense e alfineta a televisão.

O sempre excelente Marat Descartes (“Trabalhar Cansa”) interpreta Guto, um ator dedicado de 30 e poucos anos que, apesar dos esforços, luta para sobreviver em São Paulo. Ele ensaia suas esquetes cômicas, faz aulas de interpretação corporal e trabalha concentrado. Toda essa rotina integra um dos núcleos de “Super Nada”, que Rewald, também dramaturgo e diretor teatral, retrata com conhecimento de causa.

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A trama toma um rumo diferente quando Guto é chamado para um teste do programa “Super Nada”, conjunto de esquetes cômicas no estilo de “Zorra Total”. A estrela do show é o veterano Zeca (Jair Rodrigues), humorista que já viu tempos melhores, mas continua no ar pelo carinho do público. Público esse que tem em Guto, apaixonado pela “nobre arte que é a comédia”, um de seus maiores fãs – um pôster de Zeca estampa a parede do apartamento do ator, ao lado de imagens de Golias.

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O encontro dos dois traz consequências inesperadas, que balançam a trajetória e o espírito do filme, ainda povoado pela mãe de Guto (Denise Weinberg) e sua namorada (Clarissa Kiste), também atriz. A mudança de prumo é interessante, mas o grande trunfo de “Super Nada” é Jair Rodrigues.

O comediante Zeca é uma mistura do malandro carioca e o da periferia paulistana. Dono de bordões (“não tá fácil pra ninguém” é um deles), estrela esquetes tão ruins que flertam com o nonsense, uma crítica nada sutil à qualidade do humor na televisão hoje. Nas mãos de Jair, no entanto, Zeca ganha energia surpreendente.

Com espírito de garoto, o ator e cantor de 73 anos – que não foi a Gramado, segundo o diretor, por conta de sua extensa agenda de shows – atua como se estivesse sempre improvisando e confere uma malemolência cativante ao personagem. Quando está em cena, é impossível tirar os olhos dele, que ainda estrela um delírio hilário de Guto. Um trabalho merecedor de prêmios, que o júri não pode ignorar.

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