Final feliz para José Roberto Guimarães: superstição funcionou mais uma vez em Londres (Foto: Reuters)

Até colocar os pés pela primeira vez na Vila Olímpica foi preciso paciência. Um probleminha na credencial ia fazer José Roberto Guimarães perder uns bons minutos ali na porta. Enquanto aguardava pela solução e antes mesmo de reclamar, o técnico resolveu olhar para o lado. Não acreditou no que viu. Aquele homem corcunda, que trabalhava vestido como um voluntário, era um sinal de muita, mas muita sorte. Há 20 anos, o que apareceu na sua frente usava uniforme de garçom e não sabia que o tapinha nas costas que recebeu na saída do restaurante tinha um significado muito maior do que parecia. Zé Roberto havia feito naquele momento um pedido, que saiu melhor do que a encomenda com o ouro nos Jogos de Barcelona. Em Londres, foi preciso uma estratégia melhor.

– Quando você vê um corcunda tem que colocar a mão nas costas dele e fazer um desejo. Fiquei pensando no que ia fazer para conseguir isso. Fiquei arquitetando um plano, afinal não custava porque tinha dado certo na primeira vez. Pedi ajuda, consegui um pin do Brasil e fui atrás dele. Fiquei alucinado porque ele tinha ido embora. Mas aí ele voltou, fui lá e disse. “Tem um pin aqui para você”. E bati nas costas dele – ri.

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Supersticioso convicto, Zé Roberto fez das manias dele as de toda a família. Em dia de jogo ninguém usa preto. Carregar imagens de santo e terços, pode e deve. Fazer promessas também. Na tentativa de encurtar o caminho até o bicampeonato, Alcione, a esposa, fez várias delas. E o marido terá que pagar todas, direitinho.

– Eu tenho que agradecer a ela porque ficou três horas e meia na igreja antes da final. Ela faz promessa para eu pagar, mas também fica sem comer chocolate que é uma coisa que adora. Eu vou fazer uma parte do caminho de Santiago de Compostela (fez após o título de 2008) e pedir a liberação do pessoal do Campinas para isso. Eu aqui rezei muito como nunca tinha feito na minha vida. Tenho que pagar muita promessa.

Início de jogo ruim

Fiquei apreensivo no primeiro set porque tomamos um couro. Quando saímos para o segundo, fizemos tudo o que tínhamos que fazer. Tínhamos que ir pelo nosso lado forte e não ficar pensando no que elas eram fortes. Não podíamos mudar nossa característica de atacar e o sistema defensivo. Aí, no segundo set os Estados Unidos eram o Brasil do primeiro.

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Primeira fase

Tive um momento extremamente crítico aqui. Pensei quando perdemos: “O que vou falar para o pessoal (jornalistas) lá fora? Falei o que o meu coração mandou. O time estava bem treinado, mas estava jogando mal, chamando responsabilidade sem dividir como devia. A gente se reuniu, sentou para conversar e as coisas começaram a fluir. Passaram uma dificuldade enorme e saíram como uma fênix das cinzas e começaram a acreditar. Aquele jogo contra a Rússia foi um marco na nossa história.

Dar a mão

Senti que o momento não era de crítica e de cobrança, de dizer vocês são isso ou aquilo. Senti que elas precisavam de carinho e resgate de autoestima, que elas eram boas e capazes. Foi importante a reação que partiu delas. Fico mais maduro a cada dia, apesar de toda a tempestade. Consegui parar e pensar com sabedoria. E rezei muito como nunca tinha feito na minha vida. Tenho que pagar muita promessa.

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Música

Eu não sou de escutar música no ipod porque fico concentrado, mas depois do jogo contra a Coreia eu ouvi. Gosto muito de música italiana e tinha uma do Antonello Venditti (“Che fantastica storia è la vita”), que diz que quando as coisas estão complicadas você tem que acreditar que pode começar uma subida, pode encontrar uma saída. A nossa aqui foi uma história linda. É uma história bonita de vida.

Tricampeão

Não sei… Acho que é alguma coisa que vem lá de cima. Acho que foi um feito legal. Sei a história do Adhemar (o bicampeão olímpico Adhemar Ferreira da Silva). Mas sei lá, só tenho a agradecer a todos, técnicos, professores que trabalham com vôlei e CBV por ter dado a oportunidade de continuar. Sobre ir até 2016? Não sei ainda.

Palavra que marca a carreira

Perseverança. Essa palavra traduz muita coisa. Não ter desistido depois de 2004, o pior ano da minha vida. De carregar a missão de ser professor e gostar de ensinar. E isso foi fundamental. Carrego essa missão e vou morrer com ela.

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