Falta pelo lado esquerdo do campo, bem próxima da linha lateral. A bola é levantada na área, há o desvio e Túlio empurra para o gol. Botafoguenses eufóricos, mas ao mesmo tempo apreensivos, tentavam fazer o relógio andar o mais rapidamente possível. Afinal, o placar significava mais do que números: era o desenho de um sonho, do primeiro título brasileiro do Botafogo. E para quem já tinha o empate a seu favor, uma bela vantagem logo aos 24 minutos do primeiro tempo. Porém, o lance que elevou o atacante Túlio Maravilha ao posto de um dos principais jogadores que já vestiram a camisa do clube virou motivo para uma discussão eterna – e que abre a série “Apitei”, que resgatará, pela visão dos árbitros, momentos polêmicos do futebol brasileiro.

As câmeras mostravam o artilheiro em posição irregular, o que não impediu o árbitro Márcio Rezende de Freitas de validar o lance. O problema é que a redenção carioca era a derrota de uma geração que fez o torcedor voltar a acreditar no Santos. E um pequeno gesto pode ter influenciado a sequência de equívocos que vem à tona toda vez que os times se encontram: a polêmica de 1995. Ao fim da primeira etapa, em um encontro naquele Pacaembu coberto por santistas, algo aconteceu.

– No intervalo do jogo, o Narciso (zagueiro do Santos) veio me falar que o gol do Botafogo tinha sido impedido. Aí eu vi que meu bandeirinha ficou branco. Eu meio que perdi a confiança nele. Passei a assumir mais os lances. Mas acabou tendo outro gol, do Santos, o de empate, que também foi irregular, e bem próximo do bandeirinha. Mas isso eu não vi, porque não tinha como ver. Depois, fui assumir um monte pra mim e mandei o bandeirinha ir para o fundo. E a TV diz que o único gol legal foi anulado – lembrou o ex-árbitro Márcio Rezende de Freitas, que apitou a partida.

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O assistente citado por Márcio Rezende de Freitas é Evaristo de Souza. Os lances acabaram sendo capitais. No gol de empate do Santos, Marquinhos Capixaba levou com a mão, e a bola sobrou limpa para Marcelo Passos mandar um chute certeiro para o fundo das redes. O outro momento-chave da decisão aconteceu em cobrança de falta. Márcio Rezende foi à linha da pequena área, olhou o lance e anulou o gol de Camanducaia. No entanto, o tira-teima mostrou o meia 59 centímetros atrás de Leandro Ávila no momento em que Marcelo Passos efetuou a cobrança em direção à área. Erro que Márcio Rezende chamou para si.

Questionado sobre o que mais lembrava daquele 17 de dezembro de 1995, o ex-árbitro foi sucinto ao dizer que “ficou marcado por erros” e admitiu os equívocos. Ao apito final, seguiram as cobranças.

– Todo mundo (cobrou após a partida). Eu tinha vencido três troféus Charles Miller (prêmio dado ao melhor árbitro do Brasileiro na época). E mesmo com aquele erro ganhei o troféu.

Passados 17 anos daquela partida no Pacaembu, neste período, Márcio Rezende não apareceu em Santos. Tudo apenas por opção.

– Não vou nem para passear, nem para nada. Nunca fui nem antes, nem depois (do jogo). Antes ia para apitar os jogos apenas.

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Mas não foi escalado para partidas na Vila Belmiro, a casa do Peixe, após aquela decisão. No entanto, poucos anos depois, apitou novamente um Botafogo x Santos (em 12 de novembro de 1998, no Caio Martins, com vitória do time da casa por 2 a 1). Os erros naquela fatídica decisão, segundo Márcio Rezende, não prejudicaram sua carreira.

– A imagem até sim. Mas a credibilidade, de forma nenhuma. Em 1996 quem apitou de novo (a final) fui eu. Teve Grêmio e Portuguesa. A Portuguesa era campeã até o fim do segundo tempo, e o Ailton acertou aquele chute. Meu modus operandi e minha credibilidade continuaram. Continuei apitando da mesma forma, sabendo que o erro faz parte do jogo – disse Márcio, que também comandou duas partidas da Copa do Mundo de 1998, sendo uma delas da anfitriã França.

– Já encontrei com o Camanducaia e com outros jogadores. Às vezes falam: “Aquele dia foi f… hein, Márcio”. Mas eu falo: “Meu amigo, errei como vocês erram também. Não venham me falar que não perderam gol feito no jogo. E perderam.” Mas vai ficar sempre mais fácil apontar os erros dos árbitros. Nunca vi a imprensa, incisivamente, às vezes pegar em cima do jogador. Pega em cima dos árbitros.

Atualmente comentarista, o ex-árbitro admite que, mesmo com recursos tecnológicos, é difícil lidar com as situações de jogo.

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– Como analista de arbitragem, hoje minha vida é muito mais tranquila. Às vezes eu erro também, mesmo com a ferramenta da televisão. E não tem tanta crítica como quando eu apitava. É mais fácil ter como bode expiatório o elo mais fraco da corrente, que é o árbitro, que não tem proteção, não tem nada. E fica por isso mesmo. Muito por culpa da representatividade dos árbitros, desde a minha época. Acaba não tendo representatividade nenhuma. A associação não se fortalece, a CBF não dá uma cobertura como deveria dar. Coisas do gênero.

Mesmo expondo ainda mais os donos do apito, o uso de recursos avançados é necessário na visão de Márcio Rezende.

– Às vezes a tecnologia não vê até o que tem que ver. Não sei se ela é vilã. Até porque às vezes a gente precisa de uma imagem, e você não tem essa imagem. A tecnologia não vê tudo, porque ela é operada por humanos. Humanos falíveis também, que às vezes erram, como o árbitro erra. Só que, se a gente usar essa analogia, a coisa cai mais para o lado do árbitro do que da cobrança da imagem que não tinha.

Nesta quarta-feira, às 19h30, pela 29ª rodada do Campeonato Brasileiro, as duas equipes voltam a se enfrentar, desta vez no Engenhão. Atualmente, elas estão longe da disputa pelo título. O Botafogo é o sétimo colocado, com 40 pontos. Já o Santos ocupa a 14ª posição, com 35.  O GLOBOESPORTE.COM transmite a partida em tempo real.

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