Em um célebre artigo datado de 1973, intitulado: “Eleições: armadilha para otários”, Jean-Paul Sartre, traça todo um panorama histórico da instituição do sufrágio universal na França a partir dos desdobramentos da Revolução Francesa de 1789. Os avanços conseguidos à duras penas através da pressão popular em diferentes contextos históricos deram origem, no século XX, a um sistema político deliberadamente arquitetado a não responder às demandas prementes da sociedade civil. O que Sartre denomina como “atomização” dos homens face à imposição de forças maiores, como por exemplo, as condições de trabalho no regime capitalista, as instituições e a propriedade privada, resultaria em uma espécie de permuta forçada entre a possibilidade do exercício do que chama de “poder legítimo” (aquele que emanaria do povo e deveria ser colocado a favor do povo) e do “poder legal” (o ato do voto, pura e simplesmente). O filósofo chega a afirmar que votar ou não votar dá no mesmo, já que quando me abstenho, apenas corroboro a vitória da maioria, e, votando, nada me garante que o representante do partido por mim escolhido, se eleito, siga realmente aquilo que julgo importante em termos de ideais e ação política. Em suma, o ato de votar apenas institucionaliza a impotência do cidadão comum frente ao sistema. Obviamente, Sartre faz sua análise à luz da conjuntura político-eleitoral francesa de então, mostrando-se crítico e desgostoso com a ineficácia do voto na democracia formal-representativa adotada por seu país e pelo Ocidente de maneira geral.

Faço essa breve menção à apreciação do pensador francês, para refletir sobre o cenário eleitoral que se apresenta à sociedade rondonopolitana às vésperas de mais uma eleição municipal. Em tempos como esses, constructos ideológicos como “desenvolvimento”, “gestão pública”, “crescimento”, “sustentabilidade”, “geração de renda e emprego”, ganham forma e força de verdade, quando, de fato, não raras vezes, compõem um arsenal retórico da mais profunda dissimulação e desconhecimento da realidade local. Ainda, o status e o poderio econômico adquirido por Rondonópolis em função das chamadas atividades que permeiam o agronegócio servem como balizador de como um candidato deve se comportar de maneira a não se contrapor aos interesses dos ruralistas, que, também não raras vezes em nosso município, acreditam piamente serem os porta–vozes da maioria da população; como se os interesses materializados pelos mesmos fossem os interesses de todos – mas isso é outra discussão.

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Enfim, é certo que quando votamos em um candidato não estamos somente prestando apoio formal a “fulano” ou “beltrano”, mas sim, compactuando direta e indiretamente com todo um aparato político-partidário expresso em alianças, coligações e grupos políticos nem sempre tão republicanos assim, que lhes dão sustentação. Diria até que o maior dos problemas não é o candidato em si, mas “quem” ou “o quê” ele representa.

Detendo-se pormenorizadamente às três candidaturas lançadas no atual pleito, fica patente o nivelamento “por baixo” dos candidatos em questão e de suas respectivas “propostas” contidas em seus programas de governo. É perceptível também que muitas pessoas não conseguem visualizar sequer o chamado “voto de protesto” nessa eleição, tamanha é a descrença em relação aos postulantes a prefeito. De minha parte, acho difícil até estabelecer vínculos de empatia, que dirá então afiançar apoio a candidatos que não representam absolutamente nada de novo em termos do fazer político, e, principalmente, de execução de projetos verdadeiramente indispensáveis à população.

O candidato que segundo as pesquisas, encontra-se em primeiro lugar na intenção de votos, e isto é público e notório, possui contra si vários processos de improbidade administrativa em trâmite na comarca de Rondonópolis quando ainda de sua outra gestão; é um velho conhecido dos rondonopolitanos, e, convenhamos, pertence a um partido político que de popular e socialista não tem nada. Um pequeno exemplo que indica sua pouca pré-disposição a práticas políticas transparentes está registrado no livro “O Partido da Terra: como os políticos conquistam o território brasileiro” do jornalista Alceu Luís Castilho. Através da análise de milhares de certidões entregues à justiça eleitoral o jornalista demonstra de maneira cabal que o aspirante ao mais alto posto do paço municipal, é mais um dentre centenas de políticos espalhados pelo país que omitem o tamanho de suas propriedades rurais, no caso, uma fazenda localizada em São José do Xingú (PA). Isso pode parecer um fato menor, mas é um indício de como as coisas acontecem na política real em relação ao acúmulo de patrimônio de muitos políticos.  A obra em questão é extremamente elucidativa de como os políticos, independentemente da matiz partidária (o autor identifica até uma “esquerda latifundiária”), estão abocanhando parte considerável do território nacional através de manobras jurídicas, ora “dentro” da lei, ora ao seu arrepio. Em síntese, o candidato do PPS, não obstante possua o discurso mais bem articulado e a maior experiência no que tange ao funcionamento da máquina pública entre os três concorrentes, só engana mesmo os apedeutas de plantão e os puxa-sacos de sempre.

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Quanto ao segundo candidato mais bem colocado nas pesquisas e atual prefeito, o que mais causa apreensão é perceber de quais figuras o mesmo se cercou para essa jornada política: a dobradinha sinistra de dois grandes caciques do PR e do PMDB do estado, os quais têm sua base eleitoral em Rondonópolis; todos sabem muito bem de quem se trata e que estão a comandar toda a campanha nos bastidores. Alguém dúvida que caso consigam eleger seu candidato deixarão de cobrar o seu quinhão futuramente? Eu não.  A simples presença de figuras dessa estirpe já é suficiente para acabar com qualquer ilusão de uma administração pautada na ética, honestidade e compromisso com Rondonópolis. Votar no candidato do PR é dar margem à perpetuação de práticas políticas arcaicas, clientelistas e patrimonialistas. O surrado ditado: “me diga com quem andas que te direi quem és” permanece atualíssimo. Além disso, o fato do postulante do PR ter assumido a prefeitura em condições atípicas, em uma situação que, embora contasse com o parecer favorável da justiça eleitoral, não externava o sentimento de boa parte da população local, indica a que ponto um grupo político é capaz para chegar ao poder. A picada da mosca azul fez efeito mais uma vez. A população pressentiu de alguma maneira que ninguém é inocente nesse imbróglio todo, nem quem saiu, nem quem entrou, nem quem deu o parecer favorável à troca de comando …

E o que dizer da candidatura do Partido dos Trabalhadores? O que mais me intriga é a inércia de um partido que historicamente sempre contou com bons quadros intelectuais em seu meio e que, em Rondonópolis, nunca teve a ousadia e coragem para fugir à condição de mero apêndice de outros partidos em outras eleições majoritárias. Quando o vento outrora soprava mais favoravelmente, sempre ficaram à sombra de grupos conservadores que nunca tiveram qualquer afinidade ideológica com o partido. E isso em uma época em que o PT era realmente um partido de esquerda e não essa coisa mal resolvida do centro à direita que aderiu ao pragmatismo político a qualquer custo em nome da governabilidade, jogando pelo ralo ideais tão caros à sua formatação partidária. Será que desta vez, em um momento de inflexão de sua força partidária em nível nacional, o PT realmente tem condições efetivas de, em nível local, conquistar a prefeitura. Provavelmente não. O candidato local sofreu – muitas vezes injustamente, diga-se de passagem – uma espécie de “folclorização” ao longo dos anos devido ao seu histórico de combates que produziram poucos efeitos políticos tangíveis. É quase uma lenda urbana …

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Partindo dessas considerações, e é claro que expresso minha opinião enquanto eleitor rondonopolitano, creio que o voto nulo no primeiro domingo de Outubro em Rondonópolis se constitui, sim, como a alternativa mais viável, posto que é a  “menos ruim”; é preferível anular o voto do que compactuar com candidatos, grupos e projetos aos quais não consigo aderir por questões de cunho ético e  ideológicos divergentes. Não se trata de passividade e nem de falta de cidadania; se trata de externar o inconformismo perante a falta de predicados suficientes das candidaturas em questão. Acho que muitos pensam assim. As campanhas ditas de “conscientização” do voto pregam justamente que o eleitor analise cuidadosamente os candidatos e que não anule o voto sob circunstância nenhuma; sempre tentam nos inculcar a ideia de que não devemos nos desgarrar do rebanho. Infelizmente o cenário que se apresenta nesta eleição à sociedade de Rondonópolis é intragável sob todos os aspectos. Como dizem por aí: é sair do fogo para cair na frigideira …

 

 

Angelo Carlos Carlini de Moraes

Bacharel em Administração pelo CESUR/FACJAR

Graduado em História pela UFMT/CUR; Mestre em História pela UFMT/Cuiabá

Acadêmico de Filosofia pela UFMT/Cuiabá

Historiador do Arquivo Público de Mato Grosso

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