Uma era vista como a mais política do casal e abriu mão da carreira (temporariamente) pelo marido. A outra mudou de religião e dedicou a maior parte de seus dias a cuidar dos cinco filhos, enquanto o pai dos meninos viajava a negócios, como ela gosta de contar em comícios.

Uma se endividou para estudar em faculdades de ponta, filha de uma dona de casa e de um operador de bomba hidráulica. A outra superou um câncer e convive com a esclerose múltipla. A primeira também é LaVaughn. A segunda pode ser Lois.

Michelle LaVaughn Robinson Obama, 48, e Ann Lois Romney, 63, têm poucos dados biográficos em comum, mas a campanha presidencial não poderia ter tornado a menina criada em um bairro negro de Chicago e a garota de um subúrbio afluente de Detroit mais parecidas no palanque.

Convocadas a mostrar o lado humano e suave dos maridos, que se digladiam pela Casa Branca em debates, eventos eleitorais e anúncios de TV de gosto duvidoso, as duas exerceram a tarefa com uma competência apaixonada e um carisma, nos dois casos, que políticos profissionais podem invejar.

“Ann é uma mulher incrível, de uma energia impressionante, e não tem nada da riquinha mimada que tentam pintar”, diz Donna, uma coordenadora da campanha romnista em Massachusetts, base política do candidato, que se apresentou como amiga do casal enquanto se dirigia ao terceiro debate dos presidenciáveis, no último dia 22, na Flórida.

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De fato, quando Ann sobe ao palco –e a Folha a viu em vários comícios do marido–, o público se abre em sorrisos empáticos pouco vistos quando quem discursa é o político profissional do casal.

Com Michelle Obama não é diferente. “O abraço dela, meio maternal e meio bênção papal, virou um pequeno fenômeno de campanha. Muitos eventos da primeira-dama terminam numa maratona de abraços, porque as pessoas querem um”, escreve Jodi Kantor –a repórter que melhor tem descrito a vida na Casa Branca obamista e autora de um livro a respeito– no “New York Times”.

“Esses abraços são uma metáfora de como ela lida com os papéis de primeira-dama e emissária de campanha. Advogada treinada em Harvard, tentando conquistar votos, oferece intimidade sem muito revelar.”

Kantor, em “The Obamas”, descreve uma Michelle inicialmente ressentida com a ideia de o marido concorrer à Presidência pela primeira vez e que demorou a se acostumar a Washington.

Em seu discurso na convenção partidária, Michelle assumiu a resistência em querer mudar a rotina que tinha em Chicago e ofereceu uma fresta para a vida da família que raramente o presidente, focado em sua globalizada biografia de infância e adolescência, deixa entrever.

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Contando sua vida –da família vinda de escravos e de escravagistas a advogada de um dos principais escritórios da cidade (embora mais nova, ela estava acima de Obama quando o conheceu)– deu cara humana a cada projeto do marido no governo.

Foi um dos discursos mais aplaudidos do evento, atrás apenas do ex-presidente Bill Clinton e do homem com quem se casou há 20 anos.

FIGURINO

A antipatia que os detratores nutrem por seus maridos –na atual campanha, às vezes se tem a impressão de que se vota mais contra Obama e Romney do que a favor de um ou de outro– não transpira para as duas mulheres.

Michelle tem a aprovação de 65% do eleitorado, segundo o Gallup, enquanto Ann, menos conhecida, tem de 42% (outros 25% dizem não ter opinião formada).

Como primeira-dama, a advogada abraçou duas causas: o combate à obesidade adolescente, que rendeu o programa de exercícios “Let’s Move” e um livro sobre a horta que recriou na Casa Branca, e o apoio às famílias dos veteranos de guerra.

Mas, como explicou na convenção, seu papel maior é o de “mãe em chefe” –brincadeira com o termo “comandante em chefe” atribuído ao presidente. Ela é o lado rígido do casal, que protege a rotina das duas filhas, Malia, 14, e Sasha, 11, e que obrigou o marido a parar de fumar.

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Ann já foi descrita por Romney como a dona do trabalho mais importante entre os dois –cuidar da família enquanto ele viajava. Casada aos 20 anos e formada em francês pela Brigham Young, a mesma universidade mórmon em Utah onde Romney se formou antes de ir a Harvard, teve o primeiro filho, Tagg, aos 21, ainda estudante.

Nos 11 anos seguintes, teria mais quatro meninos: Matthew, hoje com 41, Josh, 37, Ben, 34 e Craig, 31. Juntos, os cinco lhe deram 18 netos.

Se Romney for eleito na próxima terça, talvez a horta da Casa Branca tenha de abrir espaço para os cavalos, paixão da mulher nascida de um empresário com uma dona de casa. Uma égua sua, Rafalca, competiu nas Olimpíadas.

Talvez o patrimônio no closet aumente (apesar de o estilo retrô ser apreciado por ambas, a primeira-dama é conhecida por unir peças populares às de estilistas em ascensão, enquanto a mulher do candidato republicano se viu na berlinda ao usar uma camiseta de US$ 990).

Mas Ann, tão desenvolta em público, seria uma primeira-dama bem mais parecida com Michelle Obama do que com a calada Laura, mulher do também republicano George W. Bush.

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