Giselle (Pérola Faria) sofria de bulimia na novela Páginas da Vida (2006)
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Nem a falta de vontade de comer, a baixa disposição para sair de casa, as roupas largas e o fato de levar o prato para o quarto na hora das refeições serviram de alerta para a mãe de Luciene* desconfiar que havia algo de errado com a filha. Com os pais trabalhando fora desde pequena, a jovem sempre passou bastante tempo sozinha, mas nunca foi uma criança que deu trabalho em casa. Na escola, era vista como uma aluna inteligente. Ultimamente, andava desorganizada, agressiva, passava muito tempo quieta e nem conversar com o irmão conversava. Quando a avó chamava para comer alguma coisa e tomar chimarrão, encontrava a neta com a cara enfiada no travesseiro.

— Não quero vó, já comi — era a resposta que sempre ouvia, sem contestar.

Do alto do seu 1m70cm, a adolescente chegou a pesar 40 quilos. Mas não estava satisfeita: achava que estava gorda e que sua imagem não agradava a ninguém, muito menos a si própria. Mesmo afirmando que nunca sonhou em pisar em uma passarela, foi estimulada, quando criança, a arriscar a carreira de modelo. A altura, os cabelos castanhos lisos e o rosto bonito, de pele clara, eram argumentos de sobra para que a matriarca da família insistisse.

— Mas não levou jeito para a coisa — resume a avó, demostrando certo ar de decepção.

A avó, a mãe e os médicos que Luciene consultou deixaram passar despercebidos que a falta de energia, as tonturas e o desinteresse na escola eram sinalizadores da doença. A comida que dispensava, no lixo ou na privada, também não foi notada. Agora, o acompanhamento clínico rigoroso de uma equipe multidisciplinar tenta ajudá-la a recuperar o amor próprio e deixar de lado a visão distorcida a respeito da própria imagem. Internada há cerca de um mês por causa da anorexia, ela está em um sistema de vigília e tem que se alimentar seis vezes por dia com um cardápio hospitalar apelidado de “grude”.

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— No início, eu tinha nojo e ficava triste por ter que comer — balbucia, fazendo um esforço para se comunicar.

Enquanto isso, a mãe fala pelos cotovelos, como que para justificar uma situação que não consegue entender:

— Esse é o tipo da coisa que, quando acontece, a gente questiona como uma mãe não percebe e deixa acontecer. De repente, está acontecendo debaixo dos nossos olhos.

Distúrbios estão mais precoces

O problema de Luciene, que geralmente costuma afetar adolescentes a partir dos 12 anos, está começando a parecer mais cedo, ainda na infância. De acordo com dados do Serviço de Infância e Adolescência do Hospital de Clínicas, os transtornos alimentares têm sido identificados por volta dos oito a 10 anos. Junto com a anorexia, a bulimia é o distúrbio mais frequente.

Um dos fatores que têm contribuído para que o problema esteja aparecendo mais cedo, segundo o psiquiatra Aneron Canals, é a dificuldade de a criança se alimentar corretamente, fato relacionado aos hábitos da família. Segundo ele, as crianças estão sofrendo por causa da falta de tempo de seus pais. A solução seria uma reestruturação cognitiva, alimentação adequada e planejamento da rotina:

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— É preciso dar-se conta o quanto a atitude intervém no pensamento.

Apesar de ser mais comum em meninas do que meninos, o problema está aumentando no gênero masculino, principalmente entre os 10 e 14 anos. A médica psiquiatra Patrícia Sanchez, cocoordenadora do Programa de Transtornos Alimentares do Hospital de Clínicas, explica que o problema pode levar à morte:

— Quanto antes houver o tratamento, mais chances de evitar sequelas.

O diagnóstico muitas vezes é feito na escola. Professores percebem que os alunos têm baixa no rendimento escolar, e, às vezes, apresentam desmaios. Já a bulimia, por não apresentar emagrecimento repentino, demora mais para ser identificada. Uma forma de alerta é pelos dentistas, que observam impacto do vômito nos dentes. A presidente da Associação Gaúcha de Terapia Familiar Ieda Zamel Dorfman, explica que os fatores são de ordem biopsicossocial, ou seja, somatório de fatores genéticos, sociais e midiáticos:

— É comum também ter obesos na família e não querer repetir a história. Ou o contrário, mães que se exercitam em demasia, e passam o modelo do corpo perfeito.

Blogs ensinam estratégias para não deixar vestígios

Cuidado com a internet! Blogs falando sobre Anas e Mias são espécies de diários virtuais contando como esse distúrbios são enfrentados e podem ser disfarçados em casa. Por carregarem conteúdos como dicas para driblar a suspeita da família ou como livrar-se do prato de comida sem deixar vestígios, alguns chegam a ser bloqueados pelo Google.

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:: Perfil

O perfil dessas crianças e adolescentes costuma ser caracterizado por meninas inteligentes, perfeitas, sem grandes problemas comportamentais. Elas começam a ficar doentes e os pais não notam.

:: Sintomas

Queda de cabelo, amenorreia (interrupção da menstruação), problemas de pele, distorção da própria imagem, agressividade, uso de roupas largas e exercícios exagerados são sinais comuns. A anorexia é mais fácil de identificar, pois há uma emagrecimento repentino e notório. Já a bulimia demora, pois a pessoa alimenta-se normalmente e elimina através do vômito, laxantes e diuréticos.

:: Causas

Uma das queixas principais é a falta de cuidados que as crianças e os adolescentes têm por parte de familiares. O estilo de vida corrido também tem influenciado. Os filhos hoje ficam muito sozinhos, e a carência afetiva acaba abrindo brecha para distúrbios.

:: Tratamento

O envolvimento da família é essencial para a recuperação. Comer em família ajuda a manter os laços afetivos e contribui na observação dos hábitos alimentares. Só há uso de medicação em caso de doenças ou transtornos psiquiátricos associados. O tratamento é multidisciplinar e, em alguns casos, pode levar ao internamento.

*O nome foi substituído

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