Para se entender a importância da educação na sociedade, é necessário resgatar alguns pontos. Desde as primeiras décadas do século XX o povo brasileiro passou a ser influenciado pelo modo de vida norte-americano e os intelectuais e educadores, pelas teorias educacionais voltadas para o escolanovismo. A educação era vista como um dos fatores essenciais para o desenvolvimento de um povo e, a partir de 30, especificamente 1932, com o Manifesto dos Pioneiros da Escola Nova, a nova educação passou a ser vista como salvadora da humanidade.

Os precursores do movimento da Escola Nova acreditavam que o acesso à escolarização garantiria o desenvolvimento do país, discurso adotado por Vargas. Desta forma, Getúlio incentivava a expansão do ensino e, no caso de Mato Grosso, houve a criação de 100 escolas públicas, segundo Lenine Povoas, nos lugares em que houvesse um número considerável de habitantes. Tudo isso fazia parte do projeto de modernização do país, do seu direcionamento rumo às grandes nações.

Getúlio Vargas, num discurso, em 1933 destacava:

A necessidade de se escolarizar o povo brasileiro. Nesse contexto é possível se entender a preocupação dos pais em relação à instrução de seus filhos e mesmo a crença de que através da educação o Brasil se tornaria um país desenvolvido. É também com esse propósito que D. Vunibaldo Talleur, Bispo da Diocese de Chapada dos Guimarães, da qual Rondonópolis fazia parte, investiu tanto na educação. Segundo Irmã Thereza Marangoni:

“Em Mato Grosso e Rondonópolis foi o D.Vunibaldo aquele que dedicou maior atenção à educação e ao ensino. Em toda comunidade que criava ele se esmerou em construir, ao lado da capela, uma escola. Esse mérito ele teve: de manter a propagação da fé, mas nunca separada da difusão do ensino.”

Sobre o lombo de um cavalo ou de uma mula D. Vunibaldo atravessava o sertão em viagens demoradas e cansativas, levando a instrução religiosa e os sacramentos a todos os cantos da Diocese. Seu propósito maior era promover uma evangelização ativa, envolvendo as crianças, os jovens e os adultos numa catequese contínua. Daí a preocupação em criar escolas junto às igrejas que fundava e implantar cursos que pudessem contribuir para o aprimoramento profissional dos jovens.

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Nos arquivos da Diocese de Rondonópolis constata-se que várias cidades foram beneficiadas com as construções de escolas e igrejas, sob a direção de D. Vunibaldo: São Lourenço de Fátima, Rondonópolis, Itiquira, Jaciara, Chapada dos Guimarães, São Vicente (Gustavo Dutra).

No início de 1949, D. Vunibaldo solicitou duas freiras para a região de Rondonópolis e, em 29 de março do mesmo ano, chegaram às irmãs Maria Romani e Maria Bona para ensinar e catequizar os filhos dos colonos. Nessa época havia no povoado cerca de 1200 crianças em idade escolar, por isso D. Vunibaldo conseguiu a criação da escola e a nomeação da irmã Maria Bona. A escola criada recebeu o nome de Escola Reunida Cândido Rondon; foi instalada numa casa de pau-a-pique, sem janelas, sem portas, sem mesa e sem quadro-negro, o qual só chegou três meses depois. Apesar da falta de conforto, as aulas continuaram a ser ministradas, sendo que no final de 1646 a escola contava com 123 alunos e, no início de 1950, 200 alunos se matricularam.

Quanto aos métodos de ensino, as irmãs usavam os mesmos que aprenderam no Sul. Segundo Ir. Maria Ossemer.

“Primeiro a gente ensinava as vogais, as letras, a soletrá-las; depois a sílaba, a palavra e, finalmente, a frase”. Nós ministrávamos aulas até a admissão ao ginásio, ano em que se aprendia num livro próprio que continha todas as matérias. Em todos os anos o ensino era muito puxado e as crianças aprendiam mesmo. (…) O material escolar era providenciado por D. Vunibaldo que o conseguia em Cuiabá e outros lugares.

“Foi D. Vunibaldo que, sentindo o desenvolvimento de Rondonópolis, decidiu dar apoio às irmãs na criação do Colégio Sagrado Coração de Jesus”. O colégio antes da construção funcionava precariamente, em instalações simples, improvisadas, como em toda frente pioneira.

Durante toda a década de 1950, o ensino em Rondonópolis ficou restrito ao nível primário: funcionavam as escolas Sagrado Coração de Jesus, Adventista, algumas escolas municipais e o curso particular Nossa Senhora das Graças, da professora Arolda Duetti Silva. Somente na década de 1960 foram criados os cursos ginasiais: ginásio La Salle, ginásio Estadual e ginásio Treze de Junho. Daí até o ano de 1997 as escolas funcionavam com o regime de escolas seriadas, ou seja, se o aluno não conseguisse uma nota considerada boa ou não apresentasse rendimento satisfatório reprovaria ou em outras situações desistiriam das escolas. Como conseqüência dessa cultura escolar fragmentada, instituída ao longo de décadas, o estado de Mato Grosso apresentou alto índice de repetência, alcançando em 1997, um total de 34,4% de fracasso escolar. Esses índices mostraram a necessidade de assumirmos novos compromissos, a ser conquistados com mudanças profundas ligadas a renúncia de paradigmas orientados pelo tecnicismo, linearidade, padronização e controle, até então predominantes no sistema seriado.

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Em 1998 a SEDUC iniciou uma reestruturação do Ensino Fundamental, com a Proposta de Implantação do Ciclo Básico de Aprendizagem – CBA. Implantado na rede estadual de ensino, o CBA constituiu-se numa importante iniciativa que inaugurou uma estratégia político-pedagógica de caráter democrático para o enfrentamento do fracasso escolar, eliminando a reprovação no primeiro ano de escolaridade e contribuindo para a permanência de crianças em idade escolar no sistema de ensino, garantindo assim, inicialmente, o direito à alfabetização. Dando continuidade à implementação de uma política educacional de inclusão social, no final de 1999, a Secretaria de Estado de Educação propôs a implantação de Ciclos de Formação para todo o Ensino Fundamental, visando a permitir aos alunos que concluíam o CBA continuarem seus estudos no mesmo ritmo da proposta do Ciclo Básico de Aprendizagem.

O objetivo maior na ampliação do sistema de Ciclos é garantir aos educandos o direito constitucional à continuidade e terminalidade dos estudos escolares. Assim, dando continuidade à sua política de reorganização do sistema de ensino, a SEDUC passa a orientar as escolas públicas na implantação gradativa de Ciclos de Formação e, consequentemente, na extinção do sistema seriado.

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Desta forma, no ano de 2000 o município de Rondonópolis adere o sistema de Ciclo de Formação Humana com quatro (4) escolas da rede municipal de ensino e a partir do ano de 2001 todas as escolas automaticamente passam do sistema seriado para o sistema de Ciclo de Formação Humana.

A Rede Municipal de Ensino entende-se que a organização do ensino em Ciclos de Formação Humana possibilita um atendimento mais adequado e atencioso aos educandos, considerando não apenas os aspectos cognitivos – tradicionalmente considerados na organização do currículo escolar -, mas também os aspectos sociais, morais, éticos e afetivos, constitutivos da natureza humana, num tempo escolar demarcado por critérios diferentes dos estabelecidos numa escola seriada, embasada teórico-metodologicamente no paradigma positivista e funcionalista que, pela sua natureza, ignora a flexibilidade, a mobilidade a possibilidade diferenciada de avanços na apropriação do conhecimento e na constituição da cidadania.

Nas escolas da rede municipal de ensino, respeita-se a organização das turmas por idade, como decorrência da concepção de que o aluno, na convivência com seus pares da mesma idade, tem maior oportunidade de vivenciar um processo de interação riquíssimo que facilita, mediante as trocas socializantes, a construção de sua identidade e auto-imagem próprios de sua faixa etária. O fato de permanecer no mesmo grupo de idade (ou pelo menos no grupo mais próximo à sua idade) permite ao aluno maior intercâmbio e interação, levando a uma socialização mais equilibrada. Obviamente, o agrupamento por si só não garante a interação nem a maior integração dos alunos, como não garante também a apropriação do conhecimento. A presença do professor, nesse caso, torna-se relevante. Mais do que nunca, torna-se fundamental a intervenção do professor – sujeito mais experiente culturalmente – como mediador do processo de ensino-aprendizagem, exercendo sua importante função de planejar, organizar, orientar e articular as atividades relativas a esse processo.

Marly Souza Brito Farias – Professora, atualmente coordenadora pedagógica da Rede Municipal de Educação de Rondonópolis.

 

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