PRESENTE DE NATAL

O espírito natalino já tinha tomado conta de todos os meus amigos que estavam envolvidos no evento de Natal de 2010. Eu era um dos coordenadores da praça de eventos. Tinha meus 33 anos, que me remetiam à idade do filho mais lembrado naquele período, e daí ao meu garotinho de nove anos, que insistia para eu comprar um brinquedo que se chamava bakugan, de presente de fim de ano. Meus cabelos, encaracolados e negros não me faziam parecer com o ícone maior do mundo, mas pelo menos tinha um nome de um de seus apóstolos: Mateus.

No terceiro dia, pela manhã, visitamos a casa de Papai Noel montada na praça. Iríamos fazer uma vistoria técnica para ver se a chuva não havia estragado alguma coisa. Era rústica e me lembrava muito a tapera do meu avô, quando eu o visitava, lá no interior de Minas Gerais.

Em companhia de três amigos entramos na moradia simbólica, que era apenas uma pequena parte de todo o evento. O Joaquim, moreno alto que parecia ter uns 50 anos, o Tito, que era mais extrovertido, branco e de uns 30 anos. Além deles, a Dina, também branca, de uns 40 anos.

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Tudo me fazia crer que estava no sítio mesmo. A casinha de sapé, com sua varanda, fogão a lenha e o mobiliário que me fez voltar a uma viagem de sonhos, quando criança. A cumeeira onde se guardava os facões nas palhas da cobertura da casa, o poleiro, o chiqueiro, enfim, parecia que o tempo dera um belo retrocesso.

Ah! Se eu pudesse ouvir novamente as estórias da vovó! Galopar nos cavalos pelas pradarias, colher goiabas e canapus e, tomar garapa especial de cana caiana produzida no engenho do vô, entre tantas outras coisas.

Dina, a amiga que nos acompanhava na visita, leu em voz alta e embargada uma carta que achou na entrada. O papel foi aberto com muito zelo, pois estava molhado. Era uma mãe que dizia ter ido ao evento no dia anterior, encantado-se, e por isso resolveu escrever uma carta ao Papai Noel para ver se ele atendia aos pedidos dos seus três filhos, que queriam presentes e ela não tinha condições financeiras, no momento, para comprar. O primeiro queria um carrinho, o segundo uma bola Jabulani, e a menina, uma boneca que falasse.

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Olhei nos olhos dos outros dois colegas e vi que um rio invadia o globo ocular como se fosse um tsunami. Alguém falou:
– Vamos cotizar e comprar os presentes. Veja se tem o endereço.

Tinha o endereço. Era noutra cidade. Compramos os presentes e fomos fazer a entrega. Faltavam dois dias para o Natal. O GPS nos levou a um lugar ermo. Relutamos em voltar, desistindo da ação. Foi proposto entrarmos novamente na cidade e nos certificarmos do endereço. Havia dois bairros com o mesmo nome, mas não desistimos.

Achamos a casa, no segundo bairro, mas a pessoa que procurávamos não foi encontrada. Sentimos por parte de quem nos atendeu certo receio. Só aí percebemos que nosso carro era preto, tinha os vidros escuros e fechados e éramos quatro, num bairro afastado, numa cidade do interior do estado, a 100 quilômetros da capital.

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Resolvemos nos identificar e falar da carta, quando o próprio senhor nos informou que era o pai da senhora que procurávamos e, obviamente, avô das crianças. Ele nos informou sobre a mudança de endereço da filha, naquele dia anterior para outra rua no próprio bairro e nos acompanhou até o local, exigindo que ele ficasse no carro quando do contato com sua filha, para não constrangê-la.

Às palmas, ela nos atendeu, mas estava ao celular. Apresentamo-nos como assessores de Papai Noel, por brincadeira, e ela repetiu para alguém com quem falava ao fone.
Rimos da ingenuidade ou nervosismo da senhora.

Conhecemos as crianças, entregamos os presentes e, quando notamos, havia uma cesta básica no porta-malas do carro que era para doação pela minha esposa à igreja, mas não me impediu de entregar à dona daquela casa. Outra seria adquirida e doada.

O brilho nos olhos das crianças e da mãe não era tão intenso como os nossos naquele momento.

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