Seleção da Costa do Marfim: equipe é favorita ao título da Copa Africana de Nações (Foto: Getty Images)
Seleção da Costa do Marfim: equipe é favorita ao título da Copa Africana de Nações (Foto: Getty Images)

Com nomes como Didier Drogba e Yaya Touré, a Costa do Marfim é tida como a maior favorita ao título da Copa Africana de Nações de 2013, competição que começa no próximo sábado, com transmissão dos jogos pelo SporTV. Caso confirmem as previsões e levantem a taça, os Elefantes vão coroar a maior geração de jogadores do país e o trabalho de um francês que, no início dos anos 1990, resolveu ir para a África colocar em prática seu plano de desenvolvimento de futebolistas: Jean-Marc Guillou.

Nada menos do que 12 jogadores do elenco que vai disputar a CAN neste ano foram formados na Academia de Sol Beni, formada por Guillou em parceria com o ASEC Mimosas, principal time marfinense, em 1994. Entre eles estão estrelas como Yaya Touré e seu irmão, Kolo, Gervinho e Salomon Kalou. Curiosamente, o principal nome do time, Didier Drogba, não teve o talento moldado pelo francês.

– Eu me sinto muito orgulhoso quando vejo que muitos dos jogadores desenvolvidos na minha academia estão na seleção. Entretanto, fico frustrado porque os atletas estão em um time mal estruturado, com poucos meias qualificados para aproveitar os bons atacantes – disse Guillou, em entrevista por e-mail ao GLOBOESPORTE.COM.

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O foco em jogadores africanos começou quando Guillou, um ex-jogador da seleção francesa, era treinador do modesto Cannes – Arsène Wenger, atual comandante do Arsenal, era seu assistente. Em 1984, Guillou contratou o atacante Youssouf Fofana, do ASEC Mimosas, que fez relativo sucesso na Europa.

Dez anos depois, Guillou decidiu ir para a África procurar mais talentos como Fofana. Ajudado pelo amigo Wenger, então no Monaco, financiou sua primeira academia na Costa do Marfim, em parceria com o ASEC Mimosas.

– Eu decidi ir para a África por dois motivos: havia um monte de bons jogadores, e ninguém tinha ido para lá na época. Atualmente, os jovens europeus não jogam nas ruas. O africano, sim. Isto explica um pouco por que os jovens africanos são globalmente melhores que os europeus – explicou Guillou.

Times descalços e sem goleiro

O sucesso, porém, não foi apenas por conta do material humano disponível. Guillou empregou uma série de métodos pouco ortodoxos para desenvolver seus atletas. Os principais são a proibição de os times usarem goleiros – fazendo com que joguem mais avançados no gramado e tenham mais concentração – e a determinação para os jogadores atuarem descalços, o que, segundo o técnico, tem uma série de vantagens.

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– Os fabricantes de chuteiras sempre procuram fazê-las mais leves. Nós achamos que, para ter a chuteira mais leve possível, é só não usá-la. Assim, os jogadores desenvolvem maior sensibilidade com a bola e conseguem fazer jogadas mais técnicas. Além de tudo, é mais barato. A verdadeira pergunta deveria ser: por que treinar jovens jogadores com chuteiras?

Os métodos de Guillou logo deram resultado. O ASEC Mimosas ganhou cinco títulos nacionais de seis possíveis nos anos em que o francês esteve no clube. De quebra, a equipe conquistou o título da Liga dos Campeões da África em 1998, após ser vice-campeã em 1995.

Mas o maior feito viria na Supercopa da África em 1999. Sem chegar a um acordo financeiro com boa parte do elenco, o ASEC Mimosas escalou um time repleto de jovens, todos provenientes da academia do francês, entre eles Kolo Touré, Boubacar Barry e Didier Zokora, presentes na atual seleção marfinense. Diante da experiente equipe do Esperance, da Tunísia, os garotos de Guillou surpreenderam: 3 a 1 e mais um título para a coleção.Filiais pelo mundo

Guillou deixou o ASEC Mimosas em 2000, mas não parou de trabalhar com jovens. Ele criou a Academia JMG e instalou filiais em outros lugares. Atualmente, estes centros de formação existem em Mali, Gana, Marrocos, no Vietnã e na Tailândia (estas duas em parceria com o Arsenal, de Wenger) e na Bélgica. Além disso, há uma parceria com o Paradou, clube da Argélia, cujo time sub-17 impressionou olheiros espanhóis ao empatar com o Barcelona em 0 a 0 e jogar de igual para igual contra a equipe sub-19 do Villarreal em 2011 – o Submarino Amarelo venceu por 3 a 2.

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A seleção de Mali, aliás, foi a terceira colocada na última Copa Africana de Nações. Coincidência? Guillou acredita que a melhor geração do país ainda está por vir.

– No momento, os jovens de Mali ainda não estão prontos. Acredito que daqui a quatro ou cinco anos Mali terá a oportunidade de contar com um time muito bom – afirmou Guillou, que não se deixa intimidar pelos tradicionais problemas de falta de estrutura do futebol africano. – Estabelecer estas academias na África não é difícil. O complicado é colher os frutos de seu trabalho.

Pelo menos na Costa do Marfim, o esforço de Guillou já teve êxito.

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