Em tempos de assassinatos a torto e a direito, de roubos impunes e corrupção cínica a solidariedade anda em baixa. Está como se diz no mundo fashion: out; ou seja, não estão na moda. Solidariedade todo mundo sabe o que é, ou pelo menos pensa que sabe; solidariedade é o ato de ajudar, de socorrer alguém sem esperar retorno.

Embora em desuso, o povo brasileiro possui o epíteto de solidário: onde a desgraça bate logo o vizinho correr para ajudar.

Engraçado que quando se trata de violência contra a mulher, o que para mim é uma desgraça, não aparece um vizinho “para remédio”, geralmente a desculpa é que “em briga de marido e mulher não se mete a colher”. Pois é, ninguém mete a colher, mas o agressor utiliza qualquer talher ou objeto para agredir as vítimas: faca, martelo, machado, bala (de revólver, não o doce), enfim, o que estiver ao alcance e cumpra o seu objetivo: ferir e/ou matar a vítima.

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Somos solidários de costa a costa brasileira: desde a fome do Nordeste aos desabrigados do Sul, somos ainda solidários com as famílias das vítimas da dengue e de desastres aéreos e terrestres e, ainda bem que somos.

Fazemos passeatas e carreatas pela ética, pela moralidade, fazemos manifestações pelo preço do pão e do leite, e procissões. Ah! Como gostamos de procissões. Rezamos e pedimos a Deus por dias melhores, exaltamos os santos e pagamos promessas, afinal somos um país extremamente religioso e temente.

Em verdade, o brasileiro não fica parado o ano todo e por vários motivos rezamos, reclamamos e reivindicamos. Triste é que em todas as situações citadas não encontramos um gesto, um grito, um apoio ou manifesto pelas mulheres agredidas e assassinadas.

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Os femicídios se tornaram uma constate, não lembramos o nome da última vítima e nem a localização do crime, tudo é muito impessoal e abstrato e, por desencargo de consciência, pensamos: se fosse na minha família seria diferente. Bobagem, toda e qualquer mulher sofre violências diárias, desde o passageiro inconveniente que se aproveita do balançar do ônibus para roçar seu corpo num corpo feminino até os xingamentos proferidos pelos condutores no trânsito: tudo é violência.

Em maior ou menor grau esses atos rotineiros e banalizados vão minando os direitos humanos das mulheres e diluindo sua auto-estima.

Ser solidário é importante, lembra que somos humanos e nos sensibilizamos com o próximo e sua dor. A solidariedade transforma e agrega, está além de ditames culturais e geográficos. Apesar de ser utilizada, hoje em dia, como predicado político e popularesco, ainda encontramos pessoas dispostas a ajudar longe das câmeras fotográficas e das manchetes televisivas.

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A solidariedade é um caleidoscópio de situações e julgamentos. Somos nós que valoramos quem precisa de ajuda e quando, e isso nos dá um enorme poder decisório e de controle da situação. Acreditamos que ajudando uns em detrimento de outros de acordo com nossa subjetividade estamos fazendo a coisa certa. Pode até ser, o brasileiro é solidário e vive numa democracia, com total liberdade de escolha dos seus atos solidários, e já que somos tão religiosos precisamos compreender melhor a máxima de Jesus Cristo: fazer o bem sem olhar a quem; portanto, sejamos solidários com as mulheres vítimas de violência.

Entre quem e quem, todos e todas somos alguém.

 

Sandra Raquel Mendes

Presidente de Honra do CMDM

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