Não pretendo redizer aqui o que as redes sociais já alardearam (sensata ou insensatamente) sobre a associação entre a cúpula de Cuiabá (e outros cultores) e a escola de samba Estação Primeira de Mangueira, do Rio de Janeiro. Quero destacar, em poucas palavras, que o conjunto da obra não foi “belo”, segundo concepção aristotélica da palavra; desde seu começo até a etapa final no dia 12 passado. O samba enredo “Cuiabá: um paraíso no centro da América” ocupou o 2º lugar entre as piores notas da Escola, o inventivo recurso das 2 baterias, parece ter frustrado até mesmo Ivo Meireles, que não conseguiu, ao meu ver, disfarçar a sua decepção. A Mangueira só contou mesmo com o suspeito prêmio Estandarte de Ouro 2013, oferecido pela, mais suspeita ainda, Rede Globo.

Além disto, a escola se atrapalhou na evolução e levou ao pé da letra parte do samba que cantava, “eu sou Mangueira a todo vapor”; correu, correu, acabou provando o gosto amargo da penalidade por atraso. No contexto das escolas do Rio, nada contra, nem a favor da verde e rosa, mas cá entre nós, a própria combinação de cores, que atribuem ao nobre Cartola, é de muito mau gosto! E, pior, junto com a Portela, a Mangueira está, há algum tempo, em um espaço de estagnação, onde constantes falhas operacionais, administrativas e políticas impedem a mobilidade dessas tradicionais escolas do Carnaval carioca.

Como o meu foco nesse texto é falar de carnavais, do ponto de vista de uma observadora curiosa de alguns deles, só voltarei ao caso, Carnaval 2013, para finalizá-lo. Nessa trilha, a lembrança de uma discussão antiga sobre a origem do evento, formulada por diferentes explicações, está me distraindo e poderá, espero, distrair também o leitor. Alguns analistas, com convicção, afirmam que o surgimento da festa jaz nas saturnais romanas, em que se celebrava a chegada da primavera, com exuberância e sensualidade acentuadas para os padrões do período. Outros destacam que ele nasceu do engenho entre uma espécie de carro e um navio. Com rodas, a estranha máquina – usual na Antiga Grécia – desfilava lotada de marinheiros entoando músicas obscenas, em saudação às estações do ano. Em alguns países europeus, na Idade Média, monges se permitiam largas liberdades (ócio, gula e festas…), em defesa do fortalecimento do corpo, definhado pelas privações da Quaresma que se aproximava.

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Na Itália denominaram o período de carne! vale!, expressão que remete ao carpem diem, liberador das coações do espírito (Igreja) sobre a carne. Qualquer que seja a gênese, o nome Carnaval permaneceu e se fortaleceu com as permissões, cada vez mais sem culpa, da explosão das boas paixões humanas e, infelizmente, das mais cruéis. Em meio a essas discussões, para mim o berço da festança é o Brasil mesmo. E, não se trata de “puxar a sardinha pro nosso lado”, até porque às vezes ela fede muito; creio que – nem monges e nem marinheiros gregos – a folia nasceu aqui e tem registro de nascimento: a Carta de Pero Vaz de Caminha.

Com a chegada da frota de Cabral, os nativos na praia, corpos nus e pintados, de colares e maracás, já controlados pelo ritmo poderoso dos tambores portugueses, o Carnaval encontrou parte do terreno embrutecido que precisava. A época do descobrimento se celebrava a Páscoa no mundo cristão e a Bahia, ao mesmo tempo em que aprendia, ensinavam ao restante do país os passos permanentes de um inebriante folguedo. Com reflexão semelhante, mais tarde, com a criminosa captura de africanos de várias etnias, esferas sociais e culturas, marcadas por um processo “transcultural” sofrido, o espetáculo se estabeleceu. Vingou. Por tudo isso concordo com aqueles que “defendem” que o Carnaval nasceu na terra do Pau-Brasil.

Em outro momento, as marchinhas provocativas e dissimuladas (“Mamãe eu quero”, “O Teu Cabelo Não Nega” e outras), além do envolvente aroma do lança-perfume enchiam as ruas e clubes de uma atmosfera, que oscilava entre a ingenuidade e a melancolia. Antes, para mim, essa experiência fazia parte da vida dos meus pais. Bobagem! Hoje sei que pertenço a uma geração que está lá e cá. E do lado de cá, encontro a suntuosidade imagética, os ritmos frenéticos e as danças eróticas, do Carnaval, que observo e que faz parar o país por seis dias e vai até o limite: as cinzas da quarta-feira. Em geral constatamos, quando precisamos, que não são processados pagamentos, cobranças ou ações, afinal é Carnaval e tudo mais, de uma forma ou de outra, será resolvido após o “feriadão”. Tudo para; salvo questões relacionadas à vida, à sexualidade, ao amor e à morte, o país do Carnaval se joga na folia, de forma tão intransitiva, quanto à ideia de que os “trópicos exóticos” se situam mesmo aqui.

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Assim, quando o Carnaval chega, queiramos ou não, chega também uma trégua efêmera em nosso cotidiano, mesmo para aquelas pessoas que não gostam da folia. Esse grupo experimenta o desconforto da algazarra generalizada, mas também curte o descanso do corpo, enquanto os outros, amantes do “trem” se “esfolam” vivos. Não me situo em nenhum dos dois polos: não amo, nem odeio o Carnaval. Entendo-o. Observo-o. Por vezes, gosto do Samba. Miro o espetáculo no Rio e em São Paulo como um evento de cores, imagens e luxo, que o povo quase não experimenta em seu dia-a-dia. Identidade brasileira, que “papo” mais anacrônico! E o Nordeste, como um festival de “pegação” de uma massa humana, que segue “enloubebida” o frevo de Pernambuco e os tecnológicos sons dos trios baianos, inaugurados por Dodô e Osmar há algumas décadas.

Tomada por certo saudosismos e afetividade, hoje, as lembranças que mais me divertem são as dos meus carnavais de menina, no clube do Banco da Lavoura, em Belo Horizonte, onde meu pai trabalhava. Pelos meus registros mentais (fotos quase não tenho) minha mãe me fantasiou de Branca de Neve, índia, Maria Bonita, entre outras figuras, gratas a ela. É verdade que a Branca de Neve me causou desconforto. Vá lá, coisa de mãe! Mas, a índia e a Maria Bonita, adequadas, tiveram seu charme, hein?! E, melhor me protegeram do estrago que a amiguinha dos sete anões havia causado em mim. Atualmente, uma cuiabana adultíssima (detesto as expressões: madura e conservada), digo aos amigos que as falhas humanas (quem não as tem?) são frutos dos “traumas” causados pela Branca de Neve da mamãe.

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Mas, brincadeiras à parte. Com o desfile das escolas campeãs de São Paulo e do Rio de Janeiro neste final de semana, o Carnaval acabou. Claro, ainda não para os baianos e agregados. De todo modo, finalmente, 2013 vai começar… Fico com a alegria dos ritmos e letras medianas dos sambas (enredo?!) das escolas Beija-Flor, Salgueiro e Vila Isabel. Da lembrança viva do malogro de Cuiabá e da Mangueira, em meio às articulações com o objetivo de atrair os “olhares” do país – quem sabe do mundo – para os encantos calientes da “cidade verde”, de Dom Aquino Correia da Costa. E, servindo-me da frase-título de uma obra de Nelson Rodrigues, fico também com “a vida como ela é”; aquela que nos fixa, fisicamente, no tempo e no espaço, com o choque de realidade, trazido pelos sistemas precários de educação, saúde, transporte entre outros. Finalmente, é “hora de darmos as mãos, seguir na missão”, afinal, viver exige muito de nós.

 

Ariagda Moreira

Professora de Literatura Brasileira, Portuguesa e Teoria Literária da Universidade de Cuiabá – UNIC é doutora em Ciências Literárias, pela Universidade de Havana / Cuba (Universidade Federal da Bahia – UFBA / Brasil). Publicou inúmeros artigos em revistas especializadas, é membro do Conselho Científico da Revista LetrasMil e da Revista Cathedral. Além de possuir ampla experiência em cursos de graduação e pós-graduação do Estado.

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