Anunciada há pouco menos de uma semana, a recomendação do COI (Comitê Olímpico Internacional) para a retirada da luta do programa olímpico a partir de 2020 causou comoção mundial. Atletas, dirigentes, fãs e até astros do MMA se revoltaram contra a decisão, que ainda pode ser revertida em reunião programada para Buenos Aires em setembro – na ocasião, a modalidade vai disputar contra outros sete esportes o direito de participar do evento.

A força das reações adversas certamente são um trunfo dos lutadores, mas não torna as coisas menos difíceis. Isso porque o COI (que alega ter se baseado em dados como venda de ingressos, audiência na TV, popularidade e países participantes para fazer a indicação) jamais voltou atrás em uma decisão do tipo. Caso a exclusão da luta se confirme, o presidente da CBLA (Confederação Brasileira de Lutas Associadas), Pedro Gama Filho, prevê praticamente o fim da modalidade no país:
Tem países em que a luta é tão enraizada que vai achar forma de sobreviver, mas os casos mais preocupantes são os de países em desenvolvimento como o Brasil, onde obviamente se visa participar das Olimpíadas. Se isso se concretizar, vai ser um baque grande para a modalidade e acho difícil haver um plano B. Realmente, o caminho mais provável dos lutadores seria o da profissionalização.

Leia também:  Estreia de Pelé pela seleção brasileira completa 60 anos

Profissionalização, no caso, significa a transferência para o MMA. Na visão de Gama, porém, isso seria ruim para o próprio esporte de Anderson Silva, José Aldo e Junior Cigano:

– A luta olímpica é uma “modalidade pilar” do MMA. Os americanos, por exemplo, são tão fortes no wrestling (nome em inglês da luta) porque um dia sonharam em estar em uma Olimpíada e treinaram bastante para isso. Excluir a luta dos Jogos influenciaria o nível técnico do MMA porque muitos parariam de treinar o wrestling

Um dos principais representantes da luta olímpica no Brasil, Antoine Jaoude recebeu a notícia na Bulgária, onde se preparava para um torneio. Ele diz que toda a comunidade do wrestling ficou estupefata com a decisão, mas tenta manter o otimismo:

– Estamos sem acreditar que isso é possível (…) Na Bulgária, havia atletas de mais de 20 países diferentes e em todas as mesas de debates, como refeições, as pessoas eram unanimes em acreditar que isso vá acontecer. No Brasil, não se tem ideia, mas em alguns países a economia gira em torno da luta, com escolas, universidades, clubes, etc. É como acabar com o futebol no Brasil

Leia também:  União estreia neste domingo no Brasileirão série D

Gama Filho vai mais além e lembra a tradição de um esporte praticado desde a Grécia antiga e que só esteve ausente dos Jogos Olímpicos modernos na edição de Paris 1900:

– A luta é um esporte que se confunde com a própria história das Olimpíadas. Por isso, eu acho que, com essa decisão, os dirigentes do COI estão apagando a própria história. Olimpíada sem luta olímpica não existe, é dar um “tiro no pé”. O Barão de Pierre de Coubertin (criador dos Jogos) estaria de cabelo em pé

Mudanças já aparecem

As primeiras consequências da exclusão das luta do programa olímpico não demoraram a aparecer: pressionado pelo ocorrido, o presidente da Federação Internacional, Raphaël Martinetti, acabou forçado a abdicar ao cargo. Interinamente, ele está sendo substituído pelo sérvio Nenad Lalovic. Novos nomes também foram chamados para compor o bureau da entidade, entre eles e o de Gama Filho e o do russo Alexander Karelin, tricampeão olímpico e várias vezes campeão mundial.

Leia também:  Richard Gama vence três e cai nas semifinais para líder

Para o dirigente brasileiro, a volta da luta ao programa olímpico deve passar por algumas mudanças no esporte. A mais cotada é a exclusão do estilo greco-romano para a entrada de mais mulheres na disputa livre, atendendo a um movimento de igualdade dos sexos que o COI vem buscando há alguns anos. Em Londres 2012, por exemplo, a luta contou com 14 categorias masculinas e apenas quatro femininas:

– A luta deve aproveitar o susto para se modernizar e trazer características importantes para a manutenção no programa olímpico. No fim das contas, espero que isso seja uma vitória para o esporte, ao invés de uma derrota

Até lá, Gama Filho garante que seus colegas não vão desistir:

– Na luta estão os atletas mais preparados do mundo, que possuem uma cabeça muito forte e não aceitam a derrota. Acho que mexeram com as pessoas erradas. O pessoal vai lutar até o fim.

Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.