Andador infantil é importante, representa risco de acidente ou atrapalha o desenvolvimento do bebê? A resposta divide opiniões e está longe de ser unanimidade. Argumentos favoráveis e contrários tomam conta do debate, potencializado recentemente pela Sociedade Brasileira de Pediatria. A instituição, com 16 mil médicos filiados, lançou campanha nacional para orientar pais a não comprar equipamento que auxilie a criança a caminhar, em nome da segurança e saúde. A medida foi adotada com base em dois critérios.

O primeiro argumento é que atrapalha o desenvolvimento natural. O bebê fica em pé antes da hora e, assim, aprende a andar errado. Também aumenta o risco de acidente doméstico. O carrinho ajuda a alcançar lugares não indicados, como fogão e piscina. Eduardo Vaz, presidente da sociedade, e Aramis Antônio Lopes Neto, presidente do departamento científico de segurança, elaboraram carta para defender seus argumentos.

”Todo pediatra sabe que o andador só traz prejuízos, seja pela sua absoluta inutilidade no processo de aquisição da marcha, mas sobretudo pelos grandes riscos à segurança (que incluem não só os riscos de traumatismos cranianos potencialmente letais, mas também de queimaduras, intoxicações e até afogamentos).”

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O Hospital de Base atendeu 3.526 crianças com traumas nos últimos dois anos – 1.963 em 2011 e 1.563 em 2012. Principalmente queda e acidentes em casa. Só não especifica quantos foram causados pelo andador. Dados da Academia Americana de Pediatria, usados pela sociedade brasileira, estimam que dez a cada mil crianças atendidas nas emergências sofreram acidentes com o aparelho.

A campanha ganhou repercussão porque, há três semanas, um bebê de nove meses, de Jequié (BA), usava o equipamento e caiu de uma escada, com dez degraus. A morte foi instantânea. Em 2009, aconteceu acidente igual, com bebê de dez meses, em Passo Fundo (RS). Caiu quatro degraus, bateu a cabeça e não resistiu.

O Ministério Público gaúcho conseguiu que o aparelho fosse banido em escolas e creches. No Canadá, é proibido desde 2007 vender, fazer propaganda e importar. No Brasil, é popular sobretudo entre bebês de 5 a 15 meses. O pediatra rio-pretense Antônio Carlos Tonelli Gusson, chefe da pediatria do HB, concorda com a recomendação da sociedade. “Faço a mesma orientação faz tempo. Esse aparelho não tem papel adequado. Não ajuda em nada e pode causar acidentes.”

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Gusson classifica como absurdo um bebê, de cinco ou seis meses, ser “forçado” a caminhar. “Essa criança, ao sair do aparelho, quer correr. Não foi estimulada da maneira correta. Assim, pode ficar traumatizada e demorar mais para andar corretamente.” O técnico em eletrônica Marcos César da Silva Filho, 19 anos, não concorda com as orientações médicas e ofereceu, há 60 dias, o aparelho para seu filho, Breno, de 8 meses. “Está sendo bom. Ele fica melhor do que se estivesse engatinhando. É mais seguro. Quando está no chão quer subir no sofá.”

Graças à ajuda, o menino circula com desenvoltura pelos cômodos da casa, no Solo Sagrado, principalmente na sala e quarto. Em dois meses, não aconteceu acidente. Para evitar qualquer risco, Silva afirma que redobra a atenção. “A gente fica junto o tempo inteiro.” Já a dona de casa Larissa Carolina Alves, 20 anos, comprou o andador há dois meses para a filha, Kethelin, 10 meses. Está satisfeita. “Ela gosta bastante. Mas eu sempre fico de olho. Ela engatinha e tenta subir nas coisas. É bom porque me ajuda a descansar os braços.”

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‘É para a criança se divertir’

Para a Associação Brasileira de Produtos Infantis (Abrapur), o andador não interfere no desenvolvimento da criança e não oferece risco de acidentes ou traumas, desde que seja utilizado de forma correta e com supervisão dos pais. Elio Santini Júnior, conselheiro da Abrapur, diz que a função do aparelho é entendida errada. “Foi criado para a criança se divertir. Não ensina ninguém a andar mais cedo.”

Ele chama a atenção para que os responsáveis fiquem sempre junto do filho para evitar problemas. “É necessário supervisar o uso do andador.” Segundo o conselheiro, a Abrapur quer que a Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) crie norma para retirar do mercado os produtos de baixa qualidade. A dona de casa Fabiana de Souza Araújo, 28 anos, usou andador com seus dois filhos. Luís Otávio, hoje com um ano e cinco meses, enfrentou dificuldade ao deixar o equipamento. “Andava na ponta dos pés e queria correr. Mas não teve problema. Tudo se resolveu rápido.”

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