Há duas décadas, a MT-407, mais conhecida como Rodovia dos Imigrantes, oferece 29 quilômetros de percurso exaustivo e perigoso aos usuários, principalmente caminhões que precisam transitar entre o norte e sudeste/ sul do país. Por dia cerca de 16 mil veículos são obrigados a se aventurar na travessia do Rio Cuiabá por uma ponte visivelmente abandonada. Segundo o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia de Mato Grosso (Crea) os sinais de desgaste no piso com a exposição da armadura da ponte são sinais da ausência de manutenção, serviço essencial para garantia do fluxo cada vez maior de caminhões. Andar por cima da conhecida Ponte Alta, erguida a 50 metros do rio que divide a Capital com Várzea Grande, é uma experiência de aventura. De início é preciso aguardar com paciência no meio do comboio de caminhões a passagem lenta de cada veículo. O congestionamento chega a 3 quilômetros no sentido de Várzea Grande para Cuiabá.

Ao chegar à travessia, a sensação é de insegurança com o balanço da estrutura e a trepidação provocada pelos buracos. O asfalto apresenta descolamento com exposição visível das ferragens que deveriam estar sob a pista. No trecho destinado a pedestres, os blocos de concreto se deslocam com o balanço provocado com a passagem dos caminhões, que podem chegar a 74 toneladas no caso de 9 eixos. Quando foi projetada, a ponte atendia caminhões truck com até 15 toneladas.

A pedido do jornal A Gazeta o Crea realizou vistoria na Ponte Alta. Segundo o engenheiro civil do Crea e presidente da Associação Brasileira de Engenheiros Civis (Abenc), André Shuring vários sinais levam à conclusão de que a estrutura precisa de intervenção urgente. A exposição da armadura, a oxidação do guarda-corpo, a condição das cabeceiras e descolamento de blocos laterais de concreto por fadiga foram notadas pelo especialista, que enviará um relatório ao Ministério Público com a recomendação de uma recuperação estrutural. “O governo precisa tomar providência, o desenvolvimento da região Norte passa por aquela ponte”. Em relação ao balanço, André diz que não e possível afirmar que seja sinal de excesso de carga, pois depende do projeto da ponte. Os riscos de queda também não podem ser previstos.

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Agricultor José Guimarães, 75, acha que a ponte possa estar com a estrutura ameaçada. Mas a necessidade de pescar o faz atravessá-la todos os dias. “A gente anda para laborar a vida tem gente que fala eu não passo nessa ponte, mas eu não nasci para ter medo”. A coragem de José sobrepõe-se à ausência de proteção lateral do corredor para pedestres e aos balanços que facilmente poderiam lhe provocar um queda.

Coragem que é acompanhada com indignação pelos motoristas de várias partes do país que precisam utilizar a Imigrantes para escoar a produção agrícola. O catarinense Guilherme Eduardo, 31, acha que a ponte precisa cair para que uma solução seja tomada. Na direção de um caminhão de 6 eixos com 48,5 toneladas, o catarinense sente medo. “Quando dá encontro de carreta em cima a gente sente chacoalhar”.

Entre os condutores de veículos de passeio a insegurança parece ser maior. O gerente administrativo Eder de Arruda Felfili, 30, confessa não saber o que fazer quando se depara com ultrapassagem entre caminhões. “Ou cai dentro do buraco ou bate de frente com a carreta”. O morador do São Mateus em Várzea Grande utiliza a rodovia para chegar à loja onde trabalha no 15 de Maio. Os 8 quilômetros chegam a ser percorridos em 30 minutos por causa das péssimas condições. Iniciando o trajeto pela MT-407 em Cuiabá no Distrito Industrial, a reportagem não encontra nenhuma sinalização. O mato está alto nas margens e os buracos e adensamentos fazem parte da viagem. A ausência de acostamento é outro agravante à pista simples. No trevo que dá acesso a Santo Antônio do Leverger (34 km ao sul da Capital) e ao bairro Parque Cuiabá, as condições da rodovia são ainda piores, causando trânsito lento.

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Ao ser perguntado sobre o que acha da condição da rodovia, o paranaense Rafael Auler, 23, devolve outro questionamento. “Que rodovia?”. Semanalmente ele leva soja da região norte do Estado para Cuiabá e precisa utilizar a pista simples, esburacada e sem sinalização. O trecho entre Jangada (80 km ao norte da Capital) e Nova Mutum (264 km ao norte da Capital) é considerada a mais crítica.

Projeto caduco – A Rodovia dos Imigrantes foi construída em 1985 com objetivo de oferecer o Contorno Viário ao Sul da Capital. Mas 8 anos depois já apresentava a necessidade de duplicação segundo o próprio governo, que iniciou as pressões pela federalização da rodovia.

Em 2002 a Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT) realizou contagem de tráfego que detectou fluxo de 10 mil veículos ao dia na Imigrantes. O valor superava qualquer indicador de capacidade, tornando-se urgente a duplicação. O engenheiro civil e professor Luiz Miguel Miranda afirma que metade dos problemas gerados hoje no trânsito urbano da Capital surgem das condições precárias da MT-407.

A oferta de uma mesma estrutura há 28 anos diante de uma demanda crescente de veículos pelo contorno viário é crítica. Luiz analisa que enquanto o governo aguarda pela federalização da Imigrantes e o repasse de recursos para construção do projeto antigo de Rodoanel, ao norte da Capital, a população não vislumbra melhorias. Para o engenheiro é emergente que as 3 esferas de governo discutam a situação viária no Estado.

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Presidente do Sindicato dos Caminhoneiro Autônomos de Sorriso e Região Walter Joner Pereira de Sousa classifica a Imigrantes como um “corredor de boi”. Recentes manifestações levaram ao bloqueio da Ponte Nova com objetivo de cobrar por manutenção. Para o representante da categoria a condição deplorável da MT-407 promove vergonha entre os motoristas que viajam pelo local.

Outro lado
Diagnóstico emergente da Imigrantes foi decretado recentemente pelo próprio governo estadual, que busca recursos junto ao governo federal para execução de melhorias. O projeto de pavimentação de 2004 prevê a utilização de concreto no piso. O valor por este material é maior do que o asfalto e por isso, o superintendente de obras de transporte da Secretaria de Estado de Transporte e Pavimentação Urbana (Setpu), Tércio de Lacerda, diz que o caminho é buscar verba da União.

Emergencialmente a rodovia irá receber serviço de tapa buraco, sinalização e limpeza das margens. O processo licitatório está em andamento. Sobre a ponte, Tércio confirma que a estrutura precisa de ajustes no piso, mas garante não haver risco iminente de queda, pois o projeto comporta 45 toneladas de carga. Sobre a movimentação em demasia provocada pelo aumento do fluxo nos últimos anos por cima da ponte o engenheiro afirma que não implica em perigo.

“Hoje compensa mais fazer os remendos, porque está em escoamento da produção”, diz o engenheiro sobre a necessidade de intervenção na estrutura. O projeto de reforma da Imigrantes prevê a construção de uma nova ponte.

 

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