Os efeitos na saúde humana do vinho e seus componentes têm sido estudados com atenção nas últimas décadas. Em parte porque muitas populações usam o vinho como componente da refeição diária. O vinho ajuda na digestão, provoca calor e alegria.

Em parte, porque a indústria produtora de vinhos cresce furiosamente e é conveniente ter boas razões para esse marketing. Alheio a esses debates, o vinho subsiste há milênios. Há indícios de vinhas e de produção de vinho a 6.000 anos atrás, na Mesopotâmia.

Hipócrates o recomendava para diarréia, partos difíceis, letargia, como desinfetante, digestivo, diurético e excipiente para outros fármacos. E o vinho branco para hidropisia.

Os Romanos em 1.000 AC fizeram a primeira classificação das variedades de uvas, as preferências por tipo de solo de cada cepa, as técnicas de fertilização e de irrigação. Organizaram o plantio e a produção de uvas viníferas.

Desde os primórdios da ciência médica, com Galeno e Avicena, o vinho foi associado a curas e melhora de sintomas. Nos escritos de Galeno lê-se: “vinhos doces e escuros produzem muito sangue e são apropriados para alimentar o corpo, vinhos leves e brancos produzem pouco sangue e são apropriados para eliminar líquidos pela urina”

Porém no início do século passado, levados pelo exagero dos Puritanos e pelo radicalismo de seitas religiosas, os Estados Unidos da América proibiram a produção e distribuição de qualquer bebida que contivesse álcool, estava em voga a Lei Seca. E o vinho caiu em desgraça e em desuso.

O vinho, como qualquer bebida alcoólica, era associado a acidentes, doenças hepáticas, demência, neuropatias, hipertensão arterial, acidente vascular cerebral, doenças da pele e síndrome alcoólica-fetal, entre outras.

Mesmo depois de revogada aquela lei inútil, o vinho permaneceu no limbo, como se fora um tabu associá-lo a qualquer bom resultado na saúde. Até que um médico francês, neto de um vinhateiro de Bordeaux, observou algo interessante. Embora os habitantes de Quebec, no Canadá, tivessem a mesma origem genética dos franceses, a incidência de infartos e AVCs era muito mais alta lá do que na França.

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O Dr. Serge Renaud que era cardiologista e pesquisador, concluiu após estudos preliminares, que a diferença estava nos hábitos alimentares das duas populações. E espantava-se de os canadenses não usarem vinho nas refeições.

Os franceses, apesar de sua cozinha ser muito rica em gordura animal, tinham incidência muito menor de eventos cardiovasculares (infarto e AVC). O Dr Serge Renaud concluiu que a diferença fundamental estava no consumo diário de vinho, em doses baixas. Seus estudos encontraram respaldo nas análises do estudo de Framingham, feitos pelo Dr. Curtis Ellison, de Harvard, nos Estados Unidos.

Em uma reportagem do programa americano de elevadíssima audiência “60 minutes”, esses resultados foram amplamente divulgados e ganharam o apelido de Paradoxo de Bordeaux. Ou seja, mesmo com uma dieta muito rica em gordura os franceses tinham menos problemas cardiovasculares que os canadenses e americanos e isso se atribuiu ao consumo diário de vinho, pelos franceses.

Em 1992 o periódico inglês Lancet, uma das mais prestigiadas revistas médicas, publicou os estudos do Dr. Renaud, ratificando a credibilidade científica necessária ao tema. A partir de então, milhares de novos estudos surgiram e comprovaram os resultados desses estudos iniciais.

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Qual o mecanismo atribuído a essa proteção?

São basicamente dois: ação antioxidante, se o LDL-colesterol não sofrer oxidação, não se inicia a cascata de eventos que desenvolvem a placa de ateroma; ação antiplaquetária, os componentes do vinho inibem a adesividade plaquetária, evitando a formação de trombos.

Os componentes do vinho mais importantes sãoo Resveratrol e flavonoides (quercitina, catequina, epicatequina, antocianina, activina). Os flavonóides têm essencialmente ação antioxidante. O resveratrol, ação antioxidante potente e diminui a viscosidade do sangue.

Como consequência dos efeitos desses elementos, há elevação das HDLs, lipoproteínas de alto poder antioxidante, ditas protetoras, e redução dos níveis plasmáticos de LDLs, as lipoproteínas aterogênicas. E redução na adesividade das plaquetas, diminuindo a formação de trombos. São descritos igualmente, aumento de prostaglandinas vasodilatadoras e de agentes anti-inflamatórios.

Há estudos relatando que o consumo diário, moderado de vinho, confere proteção contra alguns tipos de câncer, melhora da resistência à insulina, diminuição de quedas em idosos, etc.

Que efeito o vinho tem na pressão arterial?

O efeito na pressão arterial obedece a uma curva denominada curva J, ou curva U. Ou seja, uma dose baixa diminui a incidência do evento analisado, mas à medida que a dose vai aumentando, a incidência desse efeito estudado aumenta em relação ao basal.  Por exemplo, se o evento analisado for a pressão arterial, um pouco diminui a pressão arterial em relação ao inicial, mas à medida que a dose vai aumentando, vai-se perdendo esse efeito diminuidor até que ocorre uma elevação em relação a como era no início.

Essa curva J se aplica a muitos mecanismos do tipo dose-efeito.

No caso do vinho, uma a duas doses (cada dose de vinho equivale a 100 ml) abaixam a pressão arterial. À medida que se aumenta a quantidade de doses ingeridas, a pressão arterial vai aumentando. Com consequências sérias a partir da quarta e quinta dose.

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O mesmo se observa em relação à incidência de infartos e morte cardiovascular. Indivíduos que consomem até três doses por dias, têm incidência menor desses eventos, mas com o aumento de doses, perde-se o efeito protetor. Portanto, o efeito protetor contra infartos fica entre uma e três doses diárias.

E então?  O médico deve recomendar vinho a seu paciente, em doses moderadas, como efeito protetor contra infartos e doenças cardiovasculares? Não. Isso não é ato médico. O lema primordial do ato médico é: “Primum non nocere” ou seja, em primeiro lugar: não provocar danos.

As entidades médicas são unânimes em desaconselhar essa conduta.  Aos indivíduos que fazem uso de vinho como tradição alimentar, ou que o usam moderadamente, não há porque desaconselhá-los de usar. Mas não é ético prescrever uma substância que contém algo tóxico, como o álcool, como medicamento.

O uso abusivo de álcool, onde quer que esteja dissolvido, aumenta o risco de câncer, de doenças do fígado, provoca acidentes, domésticos e de trânsito, e pode ter efeito devastador em indivíduos com histórico familiar de alcoolismo.

Mas consumido com moderação e responsabilidade, traz alegria à alma, traz comunhão entre amigos, traz paixão aos amantes e saúde ao coração.

 

 

 

José Almir Adena

Médico Cardiologeriatra

Um dos fundadores do departamento de Cardiogeriatria da Sociedade Brasileira de Cardiologia(SBC).

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