As algemas mostram que o menino é perigoso. Não fosse por elas, as covinhas que dão ao rosto o ar angelical de quem mal deixou a infância, o corpo franzino e os olhos medrosos levariam a pensar que Paulinho (nome fictício), aos 13 anos, é um adolescente inofensivo. Na noite de anteontem, ele e outros três adolescentes praticaram roubos em série contra estudantes na região da Unesp, em Rio Preto.

Apesar de ser o mais novo da turma, mesmo quando os outros desistiram da ação, ele continuou perseguindo um estudante por quarteirões. “Se você não parar de correr, vai morrer”, ameaçava aos gritos, nos relatos de uma das vítimas. Desde pequeno, o menino convive com o crime. Quando tinha oito anos, viu os pais serem presos por tráfico de drogas na cidade onde moravam, Santa Fé do Sul. Por causa disso, precisou se mudar para Rio Preto com o irmão mais novo, que na época tinha 5 anos. Os dois vivem com os avós no bairro Anchieta.

Ontem, após receber do promotor da Infância e Juventude a notícia de que irá responder pelo roubo em liberdade, garantiu à reportagem que não estava com medo da apreensão e ainda brincou. “Medo por quê? Quem fica preso até engorda de tanto que come bem!”, disse enquanto presenciava um dos comparsas no crime, de 15 anos, aos prantos porque teria que voltar à Fundação Casa. O comparsa e o outro jovem de 14 anos envolvido no roubo já têm passagem por tráfico, cumpriram período de internação e, quando foram para a semiliberdade, há poucos meses, fugiram da Fundação Casa. O quarto adolescente envolvido, também de 14 anos, não tinha passagem pela polícia.

Paulinho, o mais novo da turma, com tão pouca idade, já fez carreira no mundo do crime. Além dessa, tem outra passagem por roubo feito no final do ano passado, quando ele havia acabado de completar 12 anos, e uma por ameaça, e é conhecido pela Polícia Militar. “A polícia já foi mais de 15 vezes na nossa casa atrás dele”, relata o avô J. S. O major Luiz Roberto Vicente, comandante da Polícia Militar de Rio Preto, afirma que os três roubos de anteontem não foram os únicos.

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A própria avó conta que é impossível segurar o neto. “Ele é um amor de pessoa, mas não pode ser contrariado que fica agressivo”. Em uma das vezes em que esteve com a mãe, durante uma saidinha em feriado, Paulinho chegou a agredi-la porque a mulher não cedeu ao seus pedidos por dinheiro. A mãe teria amarrado o filho com lençóis e amordaçado a sua boca, antes de acionar a Polícia Militar pedindo ajuda. “Tiveram que levar ele e dar injeção para acalmar”, relembra a vó.

Paulinho admite que usa maconha, mas o promotor Cláudio Santos de Moraes suspeita que tem mais coisa por aí. “Ele tem comportamentos de quem já usa drogas mais fortes”. Ontem, os avós não sabiam o que era o melhor para o neto. “A gente fica na dúvida porque se ele ficar na rua, é problema. Mas se for para a Fundação é capaz de sair pior”.

Os três roubos feitos pelo grupo na tarde de segunda-feira foram na região do Jardim Nazareth. O major Vicente explica que Paulinho é o principal suspeito por outros roubos que estavam acontecendo na região. “As características relatadas pelas vítimas batem com as dele. Nós acreditamos que ele está envolvido em outras ocorrências”, diz.

Paulinho e os outros três jovens atacaram primeiro o estudante A. M., 17 anos. “Eu percebi que eles estavam vindo na minha direção e atravessei a rua, mas não teve jeito”. Com chutes, o grupo derrubou o jovem no chão para roubar um celular. “Quando eu cai, eu consegui correr, mas eles vieram atrás. Os outros ficaram com medo porque eu gritei ajuda, mas ele (Paulinho) não parava. Continuou correndo e me ameaçando. Achei até que ele estava armado”, contou.

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Diogo Gabriel Pereira Albanez de 18 anos, também vítima, contou que, no desespero para conseguir pegar celular ou dinheiro, os adolescentes arrancaram o seu jaleco e o levaram. Só pararam porque a vítima também conseguiu fugir. Ele conta que já havia visto o grupo por ali outras vezes. A terceira vítima é um amigo dele.

Nos três roubos, o grupo conseguiu roubar um celular e R$ 45, recuperados pela Polícia Militar, que, acionada pelas vítimas após os crimes, fez rondas pelo local e conseguiu capturar os quatro. Eles foram reconhecidos pelos três estudantes no plantão policial e levados para a DIG (Delegacia de Investigações Gerais) onde passaram a noite antes de serem apresentados a promotoria.

O promotor Cláudio decidiu internar os jovens de 15 e 14 anos, que estavam evadidos da semiliberdade. Liberou o jovem que não tinha outras passagens, como uma “segunda chance”, e também liberou Paulinho. “Ele é muito novo e, com essa estrutura pequena, não representa muitos perigos sozinho. Além disso, pela lotação da Fundação Casa de Rio Preto os adolescentes precisam ser internados em São Paulo, o que exige maior atenção da nossa parte”, ponderou. Paulinho voltou para casa, sob as ameaças da avó. “Você trate de melhorar porque senão vai para São Paulo. Você ouviu o que o promotor disse?”. Acenando que sim com a cabeça, o menino respondeu. “Pega água pra mim lá vó. Tô com sede”.

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Uma noite, sete menores pegos em flagrante

Além dos quatro adolescentes detidos em flagrante por roubos, outros três meninos passaram a noite na DIG (Delegacia de Investigações Gerais) por tráfico de drogas, no bairro João Paulo 2º, e foram apresentados à Vara da Infância e Juventude na tarde de ontem. Eles têm 17, 14 e 15 anos e fizeram a promotoria se transformar em um desabafo de lágrimas de mães e pais. “Que belo presente de Dia das Mães você me deu, menino”, disse Senhorinha Maria de Jesus quando viu o filho de 15 anos ser escoltados pelo policiais até a sala do promotor. “Não falta nada pra ele. Não sei porque fazer isso!”.

O adolescente mora com a mãe e outros quatro irmãos no bairro João Paulo 2º e desde o começo do ano deixou de frequentar a escola. “Parei de ir porque eu não gosto de escola”, justificou. “Me expulsaram de lá”. Os pais do jovem de 14 anos, repetiam que o filho estuda e faz cursos de computação, mas não esconderam que já é a terceira vez que o menino é deitido pelo mesmo motivo. “Mas dessa vez ele não tem culpa. Das outras tinha, mas dessa não”, tentavam se convencer.

A mãe do jovem de 17 anos esteve na DIG pela manhã. “Ele já rodou quatro vezes, não serve para isso”, expressou. Ela tem cinco filhos e mora com eles no Parque da Cidadania. Trabalha como servente de limpeza e não escondeu que o dinheiro que o filho ganha com o tráfico ajuda em casa. “Mas eu falo que esse dinheiro é ruim”. Os três jovens foram liberados pelo promotor, que afirma não haver elementos que comprovem que os três estavam praticando o tráfico.

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