“E agora sou eu quem pergunta: onde está o Ronaldo? Onde está o outro amigão do Adriano? Os dois fizeram o contrato com o Corinthians sem mim e estão fazendo o que nesse momento ruim da carreira dele?”

Quem pergunta é Gilmar Luiz Rinaldi, ex-goleiro de São Paulo, Flamengo, seleção brasileira e ex-agente de Adriano. Ele fala de maneira fluente, como sempre foi, e não demonstra raiva ou mágoa. É preocupação mesmo.

“O Adriano é como um filho para mim. Ainda é. Não me interessa quem cuida dos negócios dele. Você pergunta se eu fiquei triste com a reprovação dele no Inter, depois dos exames médicos. Isso não me preocupa, a vida dele como jogador. O que me preocupa é a vida dele. Ponto. Foi isso que falei com o Ronaldo”.

Gilmar explica como foi a negociação com o Corinthians. Há emoção na voz e resignação nas palavras. “Um amigão dele e mais o Ronaldo quiseram fazer o negócio sem mim. Fizeram. Eu falei para o Ronaldo que ele estava jogando o Adriano, que tem problemas psicológicos, dentro da segunda maior torcida do Brasil. Falei que, se ele não cuidasse do Adriano, eu ia cobrar depois. Ia pra cima dele. E ele cuidou?”

O empresário dá a entrevista na sala de seu escritório. Amplo, bem arejado e decorado com troféus e medalhas de sua carreira. Com 54 anos, se prepara para a aposentadoria. Tem cinco clientes – Danilo e Fábio Santos, no Corinthians, Marco Antonio, no Grêmio, André Dias, na Lazio, e Fábio Simplício, no Japão – e não quer mais. Está completando um ciclo. Foi jogador, membro de comissão técnica e dirigente de futebol. “Tenho orgulho de dizer que sempre ganhei dinheiro com futebol. De maneira limpa. Meus filhos podem se orgulhar disso.”

No caso de Adriano, para que tivesse algum respaldo, Gilmar teve de jogar duro. “Nessa cadeira onde você está sentado, sentou o Andrés Sanchez. Eu disse que só liberaria a negociação se ele colocasse no contrato que o Adriano teria acompanhamento psiquiátrico constante. Preto no branco. Nada de dizer que depois iria conseguir um profissional. Tinha de estar no contrato. Ele colocou e não adiantou. Um dia a gente se encontrou e ele disse que eu estava certo”.

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Adriano, Gilmar explica, tem depressão profunda. E não consegue viver com ela. Bebida é uma consequência. O agente faz de tudo para desmistificar algumas verdades que se tornaram absolutas. “Não tem essa história de má companhia. Isso é coisa de pai que coloca a culpa nos outros. A história da morte do pai dele também já deu. Morreu há dois anos. Não é causa de nada. Falam também que a culpa é do morro do Cruzeiro, onde ele vai encontrar os amigos. Não acho. Eu subi lá, conheci o pessoal. É normal que o jogador mantenha suas raízes. A gente sai da favela, mas favela não sai da gente. O que tem no caso do Adriano é uma necessidade de mostrar que não abandonou as raízes. Mas ele exagera. O Zeca Pagodinho, por exemplo, adora Xerém, adora o canto dele, vai sempre lá, mas tem casa na Barra, não é?”

A inadequação no modo de conviver com a depressão poderia levar Adriano ao suicídio? Gilmar pensa por alguns segundos. E mostra que não sabe. Não sabe, não faz ideia do que pode vir a acontecer. “Essa pergunta precisa ser respondida por um especialista. Um psiquiatra. O que eu sei é que ele precisa ter acompanhamento médico sempre. Eu continuo tendo o Adriano como um filho, sempre que precisar de mim eu vou ajudar. Já disse para a mãe dele. Estou torcendo, repito, para a vida dele melhorar. Nem penso em futebol, isso é secundário”.

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Mas não caberia ao empresário orientar os jogadores, cuidar de sua vida financeira? “Eu nunca quis cuidar de aplicações financeiras de jogadores. Acho que seria misturar as coisas. Dava uma orientação ou outra, mas chega um dia em que o cara quer fazer tudo sozinho e não adianta enfrentar. É como filho”.

O grau de interferência máximo foi avisar a um jogador que não deveria se casar. Não deu certo. “Chamei na minha sala e trouxe junto um cara que dormia com a namorada dele. O cara confirmou. A menina era puta mesmo. E o cara quis casar. Não adianta ir além disso”.

Gilmar não gosta quando empresários dizem que não ganham nada de jogador, apenas do clube. Não considera isso factível. E explica: em uma negociação, ganha dos dois lados. Sem culpa.

Peço para que ele exemplifique. Com Danilo, por exemplo. “Se um clube quiser contratar o Danilo, ele me procura. Se eu achar que é bom ele sair, converso com o Corinthians e tocamos o negócio. Eu ganho uma porcentagem do clube que quis contratar e outra do Danilo, quando for fazer o novo contrato dele”.

Ele usa outra metáfora quando fala do atual mercado brasileiro de futebol: uma bolha. “Está tudo uma loucura. Estão pagando muito dinheiro para jogadores e técnicos. O Brasil tem economia forte. Pode ser um oásis em relação à América do Sul, dá para ter grandes jogadores aqui. Mas tem gente aqui pagando mais do que na Europa. Isso não se sustenta. Vai explodir”.

Eu também me arrisco em um metáfora e ele aplaude. “É isso. Perfeito. O mercado pode definir que uma Ferrari valha R$ 2 milhões. Só que eu não tenho dinheiro para pagar e não compro. Os clubes não têm dinheiro e estão pagando. Gente como Careca, Romário e outros sempre vão ganhar muito bem. Mas, no Brasil, tem muita gente ganhando muito bem. E não temos muitos craques desse nível”.

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Para Gilmar, a atuação dos empresários ajudou na profissionalização dos jogadores. Ele acha difícil que aconteça, hoje em dia, um caso como o de Garrincha. Pelo menos com jogadores que atingiram a fama e o status do grande craque da seleção e do Botafogo e que morreu sem conseguir fugir do alcoolismo.

Mas acha que depende muito do próprio jogador. “Morar na Europa, por exemplo, traz consequências. O jogador não está preparado, fica triste e carente. Aí, chega a folga e ele vem para o Brasil. Fica dois dias com a namorada. gasta com avião o que não precisava. Por que não leva a garota para morar com ele? Outros, como o Viola, vão para Valência e sentem falta de feijão. O Valência pagou US$ 5 milhões por ele. Não poderia gastar mais US$ 100 mil com feijão? O jogador precisa se preparar bem”.

Hernanes é o exemplo citado por Gilmar de jogador que faz de tudo para se adaptar. “Chegou na Itália falando italiano. Mostrou que estava respeitando o clube”. O outro exemplo citado pelo empresário Gilmar é o jogador Gilmar.

“Fui para o Japão com 35 anos, em 1995. Era campeão do mundo. Fui fazer meu primeiro treino e pedi para o intérprete ficar atrás do gol e anotar tudo o que eu gritava na orientação da zaga. De noite, fui jantar com ele e pedi para ele traduzir tudo em japonês. Cada comando. Fui para o hotel e fiquei estudando. No dia seguinte, comandei a minha zaga em japonês. Os caras se assustavam. Até erravam a jogada. Mas eu mostrei que queria vencer ali também. Mostrei que estava respeitando o futebol japonês. E eles me respeitaram também”.

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