O Brasil tem experimentado significativa mobilidade social da base para o centro da pirâmide do rendimento. Mas, no topo, as coisas andam meio estagnadas. Tomemos o caso de Mato Grosso. A renda média dos trabalhadores situados entre os 20% mais “pobres” aumentou 50,2% em uma década (2001 a 2011); para aqueles situados entre os 20% mais “ricos” (classe média sociológica?) o aumento foi de, apenas, 9,7%. Obviamente, caiu a desigualdade de renda no mercado de trabalho. E é justamente aí que ela precisa cair, para ter significado estrutural. Pelo índice de Gini, a queda foi de 11,8% (de 0,5392 para 0,4756). Em 2001, aqueles situados entre os 10% com maiores salários apropriavam de 45,75% da massa salarial; em 2011 essa fatia caiu para 39,43%. Em contraste, os 40% mais pobres na estrutura salarial ampliaram sua participação de 11,94% para 14,45%.

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Esse pano de fundo “econômico” pode ter imensas projeções sobre o plano político e social, incluindo a configuração do voto.

Primeiro, há razões materiais para a sensação de melhoria do bem-estar por parte da grande maioria da população; e há razões materiais para desconfortos e protestos em outra parte. Para quem vê travada sua ascensão social, são maiores os custos percebidos dos vícios do sistema político e eleitoral. Por outro lado, a estagnação dos rendimentos mais elevados pode levar parcela da população a uma demanda crescente por serviços públicos de saúde, educação e transporte, cuja má qualidade enfrentará contestações crescentes. O crescimento da renda/consumo entre os mais pobres – por obra de trabalho e transferências – pode também projetar insatisfações crescentes com tais serviços, pois a percepção de melhoria material contrasta com certa estagnação no desempenho das políticas públicas desenvolvidas em diferentes esferas de governo, algo como “estou melhorando de vida, mas a saúde continua uma m…”. De fato, aposto como a inserção no mundo do trabalho/consumo tem efeito “civilizador”, empoderador, para essa parcela mais vulnerável da população.

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Segundo, há que se ter em conta os riscos de crescente insatisfação social caso o Brasil não destrave os nós para um crescimento econômico posto em outro patamar de quantidade e qualidade. Temos uma estrutura econômica de baixo valor agregado (qualidade), agravada por baixas taxas de crescimento (quantidade), uma combinação explosiva no médio e longo prazo, pois limita fortemente a mobilidade social. O mercado de trabalho melhorou expressivamente na última década, mas a continuidade desse processo não está assegurada. Seremos desafiados a gerar postos de trabalho coreanos numa base econômica e educacional que mal chegou ao século XX (salvo algumas ilhas).

As chaves desse desafio são: ciência, tecnologia, inovação, educação, competitividade. A esperança é o Pré-sal e nossa capacidade de utilizá-lo para fazer essa transição. Estamos falando do velho e bom “desenvolvimento”, um assunto meio esquecido.

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