FALTA DE ATENÇÃO
Um experimento canadense realizado na Dalhousie University, com 32 voluntários em idade escolar, propôs que eles dormissem uma hora a mais, por quatro noites, e uma a menos, nas quatro seguintes. Após cada uma dessas etapas, os especialistas analisaram o comportamento emocional e cognitivo dos participantes. “Observamos que a restrição do sono, mesmo que por um curto período, afetou negativamente a resposta afetiva, a memória e a atenção deles”, revela, em entrevista à CRESCER, Jennifer Vriend, uma das líderes da pesquisa. Outro estudo finlandês acompanhou 280 crianças do nascimento até os 8 anos e mostrou que os prejuízos decorrentes das noites em claro são semelhantes aos observados em pacientes diagnosticados com déficit de atenção e hiperatividade (TDAH). “O cérebro precisa descansar para reorganizar suas conexões. Além disso, o sono é fundamental para arquivar informações e consolidar a memória”, comenta o neurologista Gustavo Moreira, do Instituto do Sono da Unifesp. De acordo com ele, um descanso fragmentado torna a criança mais desatenta e agitada, desequilibrando o estado mental a ponto de confundir, sim, o diagnóstico com TDAH. E não basta fechar os olhos e sonhar para que a mente trabalhe a pleno vapor. É preciso cumprir todas as fases do sono. “Existem hipóteses de que a etapa 2 do sono NREM (aquele que é mais profundo), especificamente, tenha um papel importante no aprendizado de tarefas motoras”, exemplifica a neurologista Letícia Soster, do Instituto da Criança do Hospital das Clínicas (SP).

Leia também:  Coma fibras para aplacar a artrose

DISTÚRBIO DE HUMOR
No que se refere ao impacto emocional da privação de sono, Jennifer Vriend arrisca uma explicação: “Enquanto dormimos, o cérebro produz endorfinas, substâncias responsáveis pelo bem-estar, minimizando os riscos de distúrbios como ansiedade e depressão”. E a carência de repouso teria efeito reverso, por comprometer a atuação das endorfinas, tornando a criança mais propensa a desvios de humor. Portanto, o recado é claro: fazer as pazes com o travesseiro é imprescindível para o seu filho garantir desde um bom desempenho escolar até equilíbrio emocional.

METABOLISMO DESREGULADO
A obesidade e o diabetes são outras ameaças perigosas da vigília fora de hora. Essa é a constatação de uma pesquisa recente da Universidade de Chicago (EUA), com 300 crianças entre 4 e 10 anos, que foram monitorados ao longo de uma semana. Entre os parâmetros mensuradas estavam o Índice de Massa Corpórea, as características do sono e as taxas do hormônio insulina. O resultado apontou uma probabilidade até quatro vezes menor de desenvolver as disfunções entre os voluntários que mantinham pelo menos nove horas de sono, em comparação com os que dormiam menos tempo ou apresentavam um sono irregular. “Distúrbios como a apneia desregulam a produção de hormônios, reduzindo a secreção de leptina, que promove a saciedade, e aumentando a de grelina, que desperta a vontade de comer”, esclarece a endocrinologista pediátrica Rosângela Réa, do Hospital Pequeno Príncipe (PR). A confusão não para por aí. O estresse induzido pelas noites maldormidas provoca uma fabricação exagerada de hormônio cortisol pela manhã. O excesso estimula a ingestão compulsiva de alimentos e o acúmulo de gordura, principalmente na região abdominal. “Nessa condição, as células não usam a insulina de modo eficiente. Aí, os níveis de glicose no sangue aumentam e o pâncreas precisa trabalhar redobrado para produzir maior quantidade do hormônio. Com o tempo, essa sobrecarga leva ao diabetes”, explica Rosângela.

Leia também:  Como fazer exercício para turbinar (e não sabotar) a imunidade

DOR DE BARRIGA
Outra descoberta recente chama a atenção para o fato de que boas noites de sono talvez possam contribuir com a prevenção de desconfortos gastrointestinais comuns. A boa notícia vem do Children’s Mercy Hospitals and Clinics, no Kansas (EUA), onde pesquisadores acompanharam, durante três anos, o padrão de sono de 283 crianças que apresentavam incômodos como cólica e azia. Eles verificaram que um descanso adequado ajuda a amenizar o mal-estar. “Noites maldormidas levam o organismo a produzir maior quantidade de substâncias inflamatórias, chamadas citocinas. Um sono ideal poupa o sistema gastrointestinal dessa agressão, o que talvez explique sua ação preventiva”, opina a neurologista Letícia.

BAIXA IMUNIDADE
Quando seu filho dorme direito, o sistema imunológico dele fica bem desperto para combater eventuais intrusos. Mas o inverso também é verdadeiro. “Há evidências de que um sono entrecortado atrapalhe a produção de anticorpos em resposta à vacinação contra a gripe, por exemplo”, afirma o neurologista Moreira. Em outras palavras, é sinal de que, nessa condição, os soldados do organismo não exibem sua melhor forma, facilitando a entrada de agentes causadores de doenças. A culpa recairia novamente sobre as tais citocinas, aqueles compostos inflamatórios: “Em excesso, eles prejudicam a ação dos linfócitos, células encarregadas de combater infecções”, acrescenta.

Leia também:  Vegetarianos sabe mesmo o que comer?
Advertisements

Comentários

*Os comentários aqui publicados são de responsabilidade dos usuários e não representam a opinião do site.