“Maguila Cubatense”, é assim que o sergipano João Batista dos Santos, 62 anos, se denomina. Segundo ele, que é ex-árbitro de boxe, o apelido surgiu muito antes do lutador brasileiro José Adilson Maguila – com quem já esteve no ringue – ser batizado com o codinome.

Antes de se tornar árbitro, Maguila já lutou boxe e até se arriscou no futebol. Mas foi na arbitragem que cresceu.
Quando criança, o sergipano perdeu os pais: essa foi sua primeira luta. Criado pelos irmãos mais velhos, em Cubatão (SP), aos 12 anos ele encontrou no boxe paixão e refúgio.

– O boxe é minha vida. Perdi meus pais muito cedo, fiquei sem direção e foi no esporte que encontrei uma razão para viver. Valeu a pena. Eu tenho orgulho do que consegui, o boxe não me deixou optar pelo crime.

Ainda adolescente e sem o apelido Maguila, o menino conhecido apenas por João Batista teve a oportunidade de ser treinado com Kid Jofre, pai do pugilista Éder Jofre.

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– Para mim foi um sonho, meu treinador era o pai de um dos principais lutadores de boxe do país.

Sergipano de nascimento, mas criado em Cubatão, João Batista disputava apenas como amador e, por falta de incentivo, deixou o esporte.

– Deixei o boxe pela falta de incentivo e principalmente por conta de pessoas que se aproximavam de mim para se aproveitar do meu talento, ganhar algo em cima do meu esforço e depois me deixar sem nada.

Para não deixar o esporte, o ex-árbitro conta que se refugiou no futebol e até tentou ser técnico, mas foi no boxe que voltou a encontrar a sua identidade.

Maguila com Maguila

Após um curso de arbitragem, João Batista começou a arbitrar lutas e ensinar o esporte nas escolinhas da baixada santista. Ele se orgulha em dizer que foi o primeiro Maguila do boxe, inclusive conta entusiasmado como foi promover uma luta do campeão sul-americano dos pesos-pesados, Adilson Maguila.

– Sou Maguila antes do Maguila e de repente me vejo promevendo uma luta dele contra o norte-americano Francis Harris no meu ringue. Tive o privilégio de realizar aquele embate vencido pelo Maguila. Foi um momento único.

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Com a doença, a ida ao interior

Em 2005, Maguila foi surpreendido com um Acidente Vascular Cerebral (AVC). Foram 22 dias de internação, oito meses se locomovendo através de uma cadeira de rodas e praticamente impedido de fazer o que mais gostava.

Um ano e meio depois, o árbitro decidiu deixar a baixada santista para morar com uma de suas filhas em Regente Feijó, cidade localizada no interior do Estado de São Paulo.

– É muito difícil para um ex-atleta perder os movimentos. Vim para cá para morrer, mas foi aqui que comecei a viver. Esta cidade me trouxe uma vida nova e até me casei de novo – brinca.

Praticamente recuperado, Maguila voltou a procurar o boxe. Começou ensinando em academias particulares, até conseguir uma parceria com cidades da região para ensinar o esporte.

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Hoje, os municípios de Regente Feijó, Anhumas e Caiubu oferecem as instalações e custeiam suas despesas. Em contrapartida, mais de 800 jovens e adolescentes aprendem o esporte gratuitamente.

Recentemente, nos Jogos Abertos do Interior, realizados em Mogi das Cruzes, Maguila teve a oportunidade de levar seus atletas para a competição de boxe, esporte que fez a estreia no evento. Além da oportunidade, uma das atletas treinada pelo ex-árbitro conquistou uma medalha de prata na categoria feminina.

– É como se eu tivesse ganhado essa medalha, eu me senti um meninão quando a vi no pódio. Estou aqui na região há pouco tempo, e todos já conhecem o meu trabalho. É impagável.

Mesmo sem a visibilidade de antes e com pouco incentivo por parte do Governo Federal, Maguila acredita que o boxe é um esporte para ser ensinado gratuitamente e que deve ser incentivado na infância, para que não fique no esquecimento.

– É um esporte único. Jamais morrerá – finaliza.

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