MC Garden - Foto: reprodução
MC Garden – Foto: reprodução

Esqueça letras que exaltam violência, drogas, mulheres, dinheiro, carrões. O funk agora trata de questões como aborto e protestos.

Os temas são tratados por jovens como o MC Garden, 19, criado na zona sul de São Paulo. “O que eu faço é funk com conteúdo”, disse o cantor ao iG .

Ele é um dos principais nomes do funk consciente, vertente que se concentra em letras ácidas de protesto – bem diferentes das composições de proibidões e do funk ostentação.

“Crianças de 12, 13 anos escutam funk. Esse negócio de bunda, dinheiro e essa ilusão (refere-se às letras do funk ostentação) não são uma realidade que uma criança tem que escutar”, diz o MC, que surpreende o ouvinte com letras que tratam de temas polêmicos, como o caso Amarildo , e questões internacionais, como o conflito na Síria .

Uma das principais faixas de MC Garden é “Isso É Brasil”, cuja letra diz: “Pensadores tentaram avisar, mas você fingiu que não viu/ aqui a bunda vale mais que a mente, infelizmente esse é o Brasil”.

As rimas engajadas têm sido observadas por artistas como Gabriel, O Pensador e Emicida. Ambos já convidaram Garden para fazer participações recentes em seus shows.

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Líderes políticos, religiosos e a polícia estão no alvo das rimas diretas de MC Garden, que também não economiza nas críticas em seus clipes. O canal do cantor no YouTube chegou a ser removido – MC Garden não sabe por quê. “O Rafinha Bastos tinha contatos (no YouTube) e conseguiu recuperar o canal”, conta.

“Quando tive meu DVD censurado e retirado das lojas, passei por algo muito parecido. O trabalho do Garden é sensacional e precisa chegar ao público”, disse ao iG o humorista Rafinha Bastos.

Muitos dos funkeiros que hoje são conhecidos por cantar funk ostentação – subgênero que exalta carros, dinheiro, baladas, bebidas e mulheres – já foram adeptos do funk consciente (também conhecido como funk de protesto ou realidade). Esse é o caso do MC paulistano Dimenor DR, de 19 anos.

“Me identifiquei com o ostentação e faço o estilo que o povo gosta. Mas se você usar a criatividade e um tema legal, mesmo que seja de protesto, o negócio ‘bate'”, conta. Uma das faixas que mostram Dimenor cantando funk consciente é “Pensamentos Trancados”, que ele gravou com o MC Daleste , morto durante um show em julho deste ano.

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Compor letras engajadas não se encaixa no perfil de muitos funkeiros, que não gostam de “falar de problemas”. Dono do hit “Daquele Jeito”, o paulistano MC Danado, 32, prefere a temática do funk ostentação. “O povo está cansado de falar de pobreza, e (funk de protesto) é hipocrisia. Prefiro falar de coisas boas, positivas. Quem tem de cuidar (da pobreza) é o governo”, declara. “Meu negócio é ostentação e valorização da mulher.”

“Seria uma simplificação colocar de um lado a ostentação e do outro o protesto, até porque há muito de protesto na ostentação, de querer consumir agora aquilo que sempre foi privilégio dos ricos”, avalia o antropólogo Hermano Vianna, autor dos livros “O Mundo Funk Carioca” e “O Mistério do Samba”.

Para Renato Barreiros, um dos diretores do documentário “Funk Ostentação – O Filme” , “o funk é um gênero musical que fala dos problemas sociais, das alegrias, das coisas que se vê na rua. Não se pode ter preconceito com o funk, que é uma expressão da periferia e tem que falar sobre tudo mesmo”.

Barreiros ressalta que seja ostentação, proibidão ou consciente, o funk não tem a presença das grandes gravadoras, algo que poderia tirar a independência das letras. “O MC não se preocupa se (a música) vai ou não para a rádio ou se a gravadora vai aprovar. É uma expressão, tem a ver com poesia.”

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ORIGEM FUNK

Apesar de usar o mesmo nome que o funk norte-americano, o funk brasileiro é harmonicamente diferente e carrega influências de ritmos diversos, como rap, MPB, electro e música eletrônica.

Suas primeiras manifestações aconteceram no Rio de Janeiro na década de 1980. A partir de então, deu origem a subgêneros como o proibidão e o funk melody. O DJ Marlboro é tido como um dos responsáveis pela criação do funk carioca.

Fora do Rio, o gênero ganhou uma outra vertente na Baixada Santista, com letras de cunho social conhecidas como funk realidade (ou consciente, de protesto).

Nos anos 1990, os bailes funks se popularizaram e nomes como Claudinho e Buchecha levaram o funk para fora das periferias, atigindo grande sucesso na mídia.

Na cidade de São Paulo, a manifestação mais popular de funk é o ostentação, que troca os temas sociais pelas letras de festas, noitadas com os amigos, mulheres e artigos de luxo.

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