Ela é descendente de alemães, ucranianos e argentinos. Seus pais, talentosos no piano, sempre incentivaram sua veia artística. Por este motivo, Eva Wilma já sabia sua vocação aos 9 anos de idade. Começou sua carreira como bailarina clássica aos 14 e chegou a integrar o prestigiado corpo de balé do IV Centenário de São Paulo. Logo teve seus talentos de atuação descobertos e ingressou – simultaneamente – na televisão, no teatro e no cinema. Desde então, foram mais de 80 novelas e teleteatros; 40 espetáculos e 30 filmes. São 60 anos de uma bela carreira e 80 anos de uma vida dedicada à arte, completados no dia de hoje. (Assista abaixo à entrevista da atriz ao Jornal Hoje, sobre seus 60 anos de carreira)

Nascida em 14 de dezembro de 1933, Eva é paulistana de sangue e carioca de coração. No início do ano que vem, é para o Rio de Janeiro que ela traz sua mais nova peça “Azul Resplendor”. Baseada no texto do peruano Eduardo Adrianzén, a montagem narra o encontro entre dois atores decadentes. Neste caso, a vida não imita a arte, pois, enquanto sua personagem está há 30 anos afastada dos palcos, Eva nem sequer pensa em parar. Confira entrevista exclusiva com a atriz:

O início
No meu livro biográfico da Coleção Aplauso (“Eva Wilma – Arte e Vida”, de Edla van Steen), tem uma foto de quando eu tinha 9 anos, vestia o famoso tutu de bailarina e estava na ponta dos pés. Nela, escrevi uma dedicatória um tanto quanto cabotina: “Esperando ser brilhante minha carreira, deixo aqui uma recordação do início desta”. Assinei meu nome todo e coloquei a data. Parece que eu estava tendo alguma premonição (risos)! Desde cedo, já estava convencida de que seguiria a carreira artística. Fiz cursos de piano, violão, canto e dança. Não fiz faculdade porque na época em que comecei meu trabalho de atriz não existiam escolas de arte dramática. Fui à luta já com 18 anos de idade e estou aí até hoje.

O amor pela arte
O que mais me atrai no meio artístico é o bom humor. Sempre fui “exibidinha”. Meu apelido foi dado pelo meu avô materno: Vivinha! Acho que já era assim desde que nasci. O humor é o que me motiva a trabalhar. A peça que faço agora, “Azul Resplendor”, fala justamente sobre isso. Ela brinca com a vida de atores de três gerações diferentes. Faz o público dar muita risada e se emocionar também!

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A família
Meus pais foram meus orientadores e sempre tive total apoio em casa. Tenho dupla nacionalidade, pois meu pai era alemão. Ele era extremamente musical, tocava piano de ouvido e cantava muito bem! Minha mãe, nascida na Argentina, quase se formou pianista também. Ela tocava lendo a partitura e ele de ouvido. Recordo-me da minha adolescência, quando nós três nos revezávamos ao piano e cantávamos juntos as músicas do folclore alemão, argentino e brasileiro – este último, eu aprendia com a Inezita Barroso.

Pequena bailarina
O balé foi meu ingresso no mundo artístico. Minha formação musical é o que mais me ajudou na carreira de atriz. Sempre que estou representando, escuto uma música dentro de mim. Gosto de cantar, dançar e atuar até hoje.

Nasce uma atriz
Minha primeira grande vitória artística foi passar em um exame muito difícil para o balé IV Centenário de São Paulo, em 1953. Lembro de estar aprendendo a coreografia de um clássico do Bach, “Passacaglia”, no palco do Teatro Municipal de São Paulo. Um dos meus “pretendentes” (risos), um rapaz muito charmoso que tinha acabado de sair da faculdade de direito, estava na plateia durante o meu ensaio. Ele era um dos figurantes da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e me procurou durante o intervalo, quando eu estava indo beber água. Fez um convite para que eu fosse assistir às filmagens e, um dia, um daqueles mestres diretores italianos perguntou se eu não queria participar. Pronto! Fiz uma cena, simples figuração, mas tinha até uma fala. Depois fui assistir aos ensaios de Teatro de Arena e o José Renato, que trouxe o Arena para a América Latina, me convidou para experimentar. Deu certo! Até que atuar anda dando certo, por enquanto (risos).

Primeiro espetáculo
Foi um espetáculo de duas peças: uma era um Tennessee Williams, “O Demorado Adeus”; e a outra era Martins Pena, “Judas em Sábado de Aleluia”. Uma era comédia e a outra era drama. Por isso até hoje consigo passear entre estes dois gêneros muito bem. Mas o espetáculo que projetou o Teatro de Arena nacionalmente e inclusive propiciou a oportunidade de construir a sede que se mantém até hoje, o Teatro de Arena de Eugênio Kusnet, foi uma montagem chamada “Uma Mulher e Três Palhaços”. O elenco era composto pelo Sérgio Britto, o José Renato e o John Hebert e eu, que fazia ao papel de uma bailarina. Chegamos até mesmo a nos apresentar para o presidente, no Palácio do Catete.

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Uma lembrança
O Sérgio Britto adorava contar essa história. Com este espetáculo, nos apresentamos em São José dos Campos, no até então Instituto Técnico de Aeronáutica – hoje, Espacial. Pegamos um aviãozinho da FAB que nos levou de São Paulo até lá para que fizéssemos a montagem para todos os estudantes. Os três atores entravam em cena antes de mim. Eu chegava por último dizendo a frase: “Bom dia, patrão! Quer representar comigo?”. Neste momento, achamos que tinha um avião descendo para o hangar de tanto barulho que começou. Era a moçada assoviando para a bailarina! Tivemos que esperar a bagunça acabar para continuarmos o espetáculo (risos) .

As diferentes mídias
Sou atriz e ponto. Tive o privilégio de começar em 1953 na televisão, no cinema e no teatro. Fiz as três mídias ao mesmo tempo e, desde então, venho equilibrando o trabalho em cada um delas. Gosto de todos os veículos. Porém, aprendi o ofício nos palcos, onde me apresentava ao vivo e de corpo inteiro. Descobri o que era ser atriz com o Teatro de Arena. Representávamos em todo tipo de lugar. Adoro representar na TV e no cinema, mas, de vez em quando, preciso de um tempo para voltar ao que chamo de escola. É o trabalho de corpo inteiro, ao vivo: cantar, dançar e representar. Jamais esqueci o único musical que fiz, chamado “Ó, que Delícia de Guerra”, em 1966. A temporada aconteceu no Teatro Ginástico, para onde volto agora com “Azul Resplendor”, a partir do dia 8 de janeiro.

Ponte aérea
Gosto de dizer que sou paulistoca ou cariolista – o que você preferir. Comecei a viajar em 1954, na época da TV ao Vivo. Por três ou quatro vezes morei no Rio de Janeiro, mas sempre acabava voltando para São Paulo por questões de raízes familiares. Primeiro, para cuidar dos meus filhos; depois, dos meus pais. Meu amor pelo Rio não precisa de explicações. Caramba, é a cidade maravilhosa! Mas hoje, nessa altura da minha vida, prefiro fugir dela nos meses de muito calor. Apesar de que, no ano que vem, estarei fazendo temporada no pior do verão carioca!

Trabalhos marcantes
Se você fizer uma pesquisa por público, independentemente da faixa etária, eles sabem dizer tanto quanto eu – talvez até melhor! Muita gente vai citar o seriado “Mulher”, a primeira versão de “Mulheres de Areia” (1973) ou “A Indomada” (2000). Quem vai decidir quais são meus papeis mais marcantes é o público. Claro que o grande público, apesar de gostar dos palcos, não frequenta tanto o teatro por conta do poder aquisitivo. Então, em relação às artes cênicas, sou julgada por um grupo mais restrito. Da mesma forma, acontece com o cinema, onde atuei em mais de 20 filmes – incluindo clássicos como “São Paulo, Sociedade Anônima” (1965) e “Cidade Ameaçada” (1960). Acho injusto citar um ou outro trabalho porque faço todos com a mesma intensidade e mesma vontade de acertar.

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‘Azul Resplendor’
Tenho uma fala na peça que mostra como as coisas se cruzam ao longo da nossa vida. Minha personagem, a Blanca Estela Ramírez, ouve pessoas comentando sobre como ela era uma estrela. Ao que ela rebate: “Mas eu não era só bonita, era também uma boa atriz” (risos). Percebe como tudo se cruza? Interpreto uma atriz! Nossa diferença é que a personagem largou a cena no auge da carreira e está parada há 30 anos. Peças que falam sobre o ofício de ator são sempre atraentes. E uma curiosidade: o autor é também professor de teledramaturgia e conhecia toda a minha carreira na televisão.

Nervosismo
Sempre sinto o frio na barriga, felizmente. Quando deixar de sentir, vou ter deixado de gostar do que estou fazendo. Representar é, apesar de toda a preparação, sempre um salto no escuro sem rede de segurança. É um mergulho bem profundo mesmo.

Planos
Existem mil autores que tenho vontade de interpretar. Principalmente brasileiros, felizmente. O que me motiva a aceitar um papel é, acima de tudo, a qualidade do texto. Depois, vêm outros fatores como a direção e o elenco. Não consigo pensar em um personagem que tenho vontade de interpretar porque, ao longo destes 60 anos de carreira, fiz todos os tipos possíveis. Mesmo assim, cada um deles ainda é novo pra mim.

Lições
Não costumo dar conselhos. Sou mais do tipo de bate-papo e troca muita ideia. Mas a lição que tirei ao longo deste tempo como atriz é que tudo vale a pena. Apesar de ter que ralar bastante, vale a pena até hoje. Aquela menina de 9 anos estava certa. Foi realmente um cabotinismo com certa premonição!

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