O ano era 2007, e o local em questão era a Penitenciária Moniz Sodré, situada no Complexo de Gericinó, em Bangu, no Rio de Janeiro. O diretor da unidade prisional na época, Gilson Nogueira, leu a ficha de um dos detentos e gostou de saber do envolvimento do mesmo com as artes marciais. Em uma atitude inesperada, resolveu lhe dar uma oportunidade. O então traficante de drogas Fábio Leão, que era gerente geral de uma facção conhecida, estava preso desde 1999 e havia acabado de ser transferido para lá.

– O doutor Gilson falou: “Fábio, você vai dar aula aqui dentro”. E eu falei: “Doutor, para mim não dá. Sou bandido. Tem mais de 15 anos que não boto uma luva na mão. Não consigo nem respirar direito, quanto mais dar aula”. E eu era dependente químico, viciado em cocaína, maconha, cigarro, cachaça, tudo. Eu cuspia e saía igual à bandeira do Flamengo (vermelho e preto). Meus pulmões estavam tomados, eu estava com tuberculose. Era sangue, nicotina, cocaína, tudo de ruim.

A oferta era tentadora. Para cada três dias dando aula, Fábio teria a pena reduzida em um. A condição era fazer uma oração antes e outra depois de cada treino.

– “Eu não sei rezar não, doutor. Minha mãe é macumbeira”, eu disse. E ele: “Fala com Deus do jeito que você sabe que Ele te ouvirá”. Pedi uma Bíblia à minha mãe e comecei a ver os valores da vida. Então eu botei fé. Creio que Jesus Cristo vive entre nós. Agarrei aquela oportunidade. Aí tomei a melhor decisão da minha vida. Cheguei dentro da cela, chamei todas as lideranças do Comando Vermelho e falei que estava largando o crime. Eles não acreditaram. O cara que ganha R$ 20 mil por mês com o tráfico, é dependente químico, tentou arrumar emprego em tudo quanto é lugar e nunca conseguiu… Falei que eu tinha entregue minha vida a Jesus e iria voltar a lutar. Eles riram e falaram: “Você tá drogado. Tu é total flex, pó, maconha, cocaína… Tu vai morrer no ringue”. Ficaram me zoando. E eu larguei – disse Fábio, que hoje faz parte de uma igreja evangélica.

Na época foi montada uma academia de artes marciais no Moniz Sodré, e Fábio Leão seguiu a cartilha à risca. Mudou radicalmente de vida e passou a ganhar a admiração dos funcionários da penitenciária. Era um renascimento. E essa nova fase também teve grande contribuição de outra pessoa além de Gilson Nogueira: a juíza Thelma Fraga, a mesma que o condenou. Ela visitou Fábio em 2007, depois que ele começou a dar aulas, e enxergou grande mudança através do esporte.

– Quando ela me viu batendo no saco de areia e pedra, ela falou que iria me ajudar. Eu falei: “Doutora, a senhora me condenou a 17 anos de prisão. Como a senhora quer me ajudar?”. Ela respondeu: “Fábio, eu não condenei você. Eu sentenciei o seu ato cometido”. E eu colhi tudo o que eu plantei. Ela falou: “Fábio, daqui para a frente é outra história. Eu vou voltar e te ajudar” – contou ele, que na semana seguinte viu a juíza levar Rogério Minotouro ao Moniz Sodré.

Hoje, aos 38 anos, Fábio Leão ainda mora na Vila Kennedy, comunidade onde nasceu e foi criado, ganha a vida dando palestras pelo Brasil ao lado da juíza Thelma Fraga e coordena o projeto “Lutando pela Vida”, onde ensina MMA, kickboxing e muay thai para detentos e detentas. Especialista em trocação, ele já foi tricampeão carioca de muay thai, campeão panamericano, sulamericano e brasileiro de kickboxing, e fez três lutas de artes marciais mistas, com duas vitórias e uma derrota. Por ter “fobia” de ser levado ao chão, casa dos jiu-jiteiros, optou por não seguir no MMA.

– De pano eu não consigo treinar, fico agoniado. Botou um quimono em mim, parece que botou um caixão (risos). Mas sou amante de todas as artes marciais. Não acho que existe a melhor luta. Existe o melhor lutador – disse ele, que se espelha nos irmãos gêmeos lutadores do UFC Rodrigo Minotauro e Rogério Minotouro.

A história de superação vai virar tema do filme “O Campeão”, cujas gravações devem começar em março, e este mês Fábio já treina o ator Thiago Martins, que vai interpretá-lo no cinema.

– A pior cadeia foi lá fora, a cadeia do preconceito, da rejeição, do “não”. Onde eu ia era rejeitado. Hoje sou professor, mentor de projetos sociais nas comunidades e nos presídios, palestrante motivacional, lutador, protagonista de filme, funcionário público… Tenho muitos empregos. Graças a Deus hoje vivo do esporte. Tenho meu carro, minha moto e uma casa de três quartos sem ter que roubar ninguém. Sou feliz porque posso dormir com minha porta aberta, e com minha mulher e minha filha. Antigamente eu dormia nas favelas, nas lajes, nas matas quando a polícia entrava. Antes de Jesus me (re)apresentar às artes marciais, eu era um corpo sem alma.

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Fábio Leão olha para trás com o orgulho de quem venceu uma grande batalha, e ao mesmo tempo com a exata noção do perigo que lhe rondou. Ele se define como um “arquivo vivo”:
– Larguei o crime e permaneci na minha comunidade, sujeito a morrer. Sou um arquivo vivo. Sei de muita coisa desde o lado da Justiça, dos corruptos, até as coisas erradas do tráfico – disse Fábio, que recebeu gentilmente a reportagem do Combate.com na penitenciária feminina Talavera Bruce em um dia de treino para uma entrevista exclusiva.

Início nas artes marciais e no crime

Fábio foi preso pela primeira vez por assalto a mão armada. A segunda foi por tráfico de drogas. A terceira, por clonagem de carros e formação de quadrilha. Como era menor de 21 anos nas primeiras, não ficava muito tempo na cadeia e respondia em liberdade. Mas como ele não parou com a vida sombria, a maioridade chegou junto da prisão definitiva. O início nessa área foi cedo:

– A gente não podia roubar na Vila Kennedy nem em Bangu. Os traficantes matavam quem roubasse na área do crime. A gente ia para Madureira, Campo Grande, e roubava qualquer coisa. No primeiro assalto a gente roubou um caminhão, achando que era de eletrodomésticos. Quando abriu, era um caminhão de biscoito. Só serviu para estragar os dentes de todo mundo na favela (risos). E era biscoito ruim ainda. Eu queria roubar porque queria ostentar fama e poder. A gente via os caras (traficantes) cheios de mulheres, com carro, cordão de ouro, cheios de dinheiro. Naquela época o crime era predominante mesmo. Era o poder paralelo que mandava na comunidade. Não tinha entrada nenhuma do poder público.

E as artes marciais sempre andaram paralelamente ao crime na trajetória de Fábio:

– Comecei vendo os filmes do Bruce Lee. Eu ficava quebrando as coisas em casa. Mas a gente era pobre, não tinha nada dentro de casa. A minha avó mandava eu ir para a rua. Quando eu ia para a rua, a 50 metros da minha casa tinha uma boca de fumo. Eu via os traficantes fazendo papel de governantes, dando cesta básica, gás, tudo. Uma vez minha mãe ficou desempregada, e eles fizeram compra do mês para a gente. Então comecei a idolatrar as artes marciais e os traficantes. Minha vida sempre foi entre o crime e o ringue. Só que as artes marciais não davam dinheiro. Aí com 10 anos comecei a roubar em supermercado. Com 13 para 14 anos eu já tinha uma quadrilha de assalto a mão armada.

Com 17 anos fui baleado numa troca de tiros com a polícia. Tenho uma bala alojada nas costas por causa disso.

Como era procurado pela polícia, Fábio não foi para o hospital nesse dia e teve de se cuidar em casa. Foi quando a família descobriu o envolvimento dele com o crime. Até lá ele dizia para a esposa, que conhece desde os 13 anos, que os relógios de marca e a moto, por exemplo, eram presentes do pai que morava longe. O pai, Gregório, na verdade foi assassinado quando Fábio tinha apenas seis meses de vida – seu filho recém-nascido, por sinal, recebeu o nome de Gregory. Depois de Fábio contar a verdade sobre o que fazia, o pai de Luciana a tirou da Vila Kennedy e a levou para Olaria. E a avó dele entrou em depressão e acabou falecendo.

– Senti muito. Sei que ela morreu por minha causa, de desgosto. Fiquei revoltado e embarquei de vez no crime. Minha mãe chorava muito.

Em 1998, antes de ir para a cadeia, Fábio foi campeão brasileiro de kickboxing e convidado para defender o Brasil no Mundial da modalidade, mas não tinha como arcar com as despesas de R$ 5 mil para viajar até Veneza, na Itália, onde seria disputado o campeonato. Até então ele mantinha uma vida saudável. Depois, começou a se drogar.

– Para ir, eu tinha de ir para o tráfico. Se eu fosse para o tráfico, perdia noites de sono e não dava para treinar. Então, se eu viajasse, gastaria dinheiro e não sabia se iria ganhar. No tráfico eu sabia que iria arrumar dinheiro, aí acabei ficando no crime. A verdade é que minha vida sempre foi paralela entre o crime e o ringue. O crime era minha profissão, e as artes marciais eram meu hobby, porque eu não tinha patrocínio. O esporte (vale-tudo) na época era meio marginalizado. Hoje não. Hoje o atleta consegue viver do esporte, dando aulas, lutando, de várias maneiras.

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Além da morte da avó, Fábio também perdeu a mãe enquanto esteve na prisão. A família se afastou dele, com exceção da filha, Hillary, e da esposa, Luciana. A filha tinha meses de idade quando Fábio foi preso pela última vez, e durante dez anos o visitou no Complexo de Gericinó. Atualmente Hillary está com 14 anos, e os três moram juntos.

– Elas acreditaram em mim. Graças a Deus hoje posso dar orgulho para minha filha. Ela vê e fala: “Meu pai se transformou através do esporte. E ele não ficou dentro de casa ou se acomodou. Ele se importou com os amigos dele que estavam lá dentro”. Ela diz que eu não quero que os meus amigos passem o que eu passei.

Tentativas de suicídio e vida na prisão

Enquanto a família se afastava, o dinheiro vinha e ia embora num piscar de olhos. Fábio, a princípio, seguiu comandando o tráfico de dentro da prisão e faturava, segundo o próprio, R$ 5 mil por semana. A maior parte ia para a filha e a esposa. O resto ele guardava para benefício próprio:

– Muitas vezes paguei para sair da prisão. Existem muitas pessoas corruptas. Aí estourava o inquérito. Eu tinha uma casa de três quartos, sala, cozinha, banheiros, hidromassagem, piscina, sauna, tudo de luxo, mas não podia ficar dentro dela. Fugia que nem um rato. Eu tinha R$ 10 mil, R$ 20 mil numa bolsa de dinheiro para fazer compras ou uma viagem, mas não podia. Tudo eu queria, mas não podia. Estava sendo procurado, tinha seis mandados de prisão.

Nesse período, o lutador teve duas overdoses de cocaína e viu a morte de perto:

– Eu cheirava cocaína pura. Comecei a clonar carro e a mandar para o Paraguai, e a cocaína vinha pura na minha mão. Depois eu vendia para os traficantes, e eles faziam uma mistura. Quando ela vinha pura, eu quebrava um pedaço para usar. Tive uma overdose, acordei em casa. Os caras me jogaram lá, achando que eu tinha morrido. Minha mulher me ajudou, mas sei que foi um milagre de Deus. Da outra vez acordei e pensei: “Caramba, graças a Deus estou no céu”. Vi todo mundo de branco. Quando olhei para o meu braço, tinha soro na veia. Do lado tinha um “coroa” respirando por aparelho. Aí vi que estava no hospital. Arranquei tudo e fugi, porque eles estavam esperando eu acordar para fazer o boletim de ocorrência. Eu iria ser preso.

A cocaína também fez Fábio querer se matar. E ele guardou na memória uma frase que ouviu de um familiar numa dessas tentativas de suicídio:

– Já tentei me matar várias vezes. “Pancadão” de cocaína, queria acabar logo com aquilo. Várias vezes coloquei a pistola na minha cabeça, mas não consegui. Eu ficava pensando: “Eu que matei minha avó. Para mim não tem mais jeito”. O coração disparado, e aquela voz do “coisa ruim” mandando eu me matar. Uma vez tentei pular do quarto andar, e minha mulher me segurou. Ela ligou para um familiar meu, que já perdoei e não vou falar o nome, e ele falou assim: “Deixa ele pular, que acaba o nosso sofrimento e o da família toda. O perigo que tem é ele ficar aleijado, porque aí vai dar mais trabalho para a gente”. Eu escutei isso no viva voz – contou Fábio, que garante nunca ter matado alguém, mas admite que contribuiu para a morte de muitos por causa do tráfico de drogas.

Chance de ser treinador fora da cadeia e amizade com Glover

Anos se passaram até que Fábio se regenerasse por completo. Quando ganhou a liberdade condicional em 2009 – ficou livre totalmente somente no meio deste ano, com o término da pena -, foi levado pelo amigo Bruno para fazer sparring na academia Delfim, na Tijuca.

– Cheguei lá e estavam Glover Teixeira, Rafael dos Anjos, Pedro Rizzo, Zeilton Nenzão, aquele menino que morreu, o (Leandro) Feijão. Ele era novinho e estava lá, e que Deus o tenha. Me senti um pinto no lixo. Na época quem puxava o boxe era o mestre Claudio Coelho, e ele falou: “Oh rapaz, você que veio da prisão? Bota a luva aí, meu filho. Quero ver se você treinou lá mesmo”. Aí fiz sparring com os caras. Tomei vários knockdowns, mas levantava. Fiz com o Glovão, meu amigo. Ele me dava um jab e eu sentava. A gente morou junto na academia, porque era muito longe sair da Vila Kennedy para lá. Pegava ônibus, trem e metrô.

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Gabriel Ribeiro foi outro nome importante na vida de Fábio Leão. Dono da Delfim, ele deu o primeiro emprego de carteira assinada ao lutador. Aos 35 anos, Fábio passou a dar aulas de boxe olímpico, depois também de kickboxing e de muay thai. E a juíza Thelma Fraga voltou a interceder de maneira positiva:

– Chegou lá na academia o juiz Carlos Eduardo Figueiredo, da VEP (Vara de Execuções Penais). Chegou de terno, com dois seguranças armados. Falei: “Pô, meu Deus. Paguei tudo que eu devia, não estou fazendo nada errado. Não morri fazendo coisa errada e vou morrer trabalhando?”. Ele veio da minha direção e perguntou se eu era o Fábio Leão: “A Thelma me contou sua história. Quero ter uma aula particular contigo”. Ele gosta de MMA, de jiu-jítsu. Botei ele para suar. Depois ele me falou: “Se você se recuperou, quantos Fábios não existem lá dentro? Eu vou até o secretário de Estado de Administração Penitenciária, o coronel PM Cesar Rubens Monteiro de Carvalho, e vou conversar com ele. Te garanto que vou trazer notícia boa”, ele disse. Na outra semana o doutor Carlos Eduardo voltou: “É, meu amigo, você queria ir a uma. Agora você vai a dez. Teremos dez academias”.

Mas Fábio não poderia entrar no presídio de novo por ainda constar como presidiário no sistema, já que estava na condicional. O secretário Cesar Rubens, então, nomeou o lutador como funcionário da Secretaria de Administração Penitenciária do Rio de Janeiro, num cargo de confiança para poder tocar o projeto. No começo era só Fábio, agora são dois e, em breve, quatro professores.

– Uma vez fui tirar uma moto na prestação, e o cara falou que meu CPF estava dando problema: “Está falando aqui que você é presidiário”. Mas como eu era presidiário se eu estava lá? É constrangedor, né? Eu tinha um entradinha boa para ir de moto trabalhar. Fiquei triste com aquilo.

O projeto “Lutando pela Vida” vai completar dois anos, e 17 ex-detentos já saíram de lá. Sete deles estão empregados na academia Delfim. O atleta Rafael Correa, que hoje é sparring de Glover Teixeira, está perto do UFC, garante Fábio Leão. O projeto também está na Vila Kennedy, com cidadãos que largaram o tráfico, ex-dependentes químicos, entre outros, e também com a missão de evitar que crianças sigam o mau caminho.

Os presos, para fazer parte das aulas, têm de preencher um questionário com 20 perguntas, como por exemplo o motivo de quererem praticar artes marciais. Os de mau comportamento são descartados. O segundo corte é pelo questionário. Depois há exames psicológico, psiquiátrico e médico.

Respeitado na comunidade e exemplo de superação

A última luta de Fábio Leão foi em 2011, quando foi derrotado no Campeonato Brasileiro de Kickboxing. Mas a maior exposição é mesmo por conta do trabalho realizado nos presídios. Na Vila Kennedy, ganhou status de popstar, principalmente com as crianças:

– Hoje eu ando na comunidade e sou que nem toco de enchente: paro num lugar, paro em outro (risos). Minha mulher diz que eu não posso ir nem à padaria. As senhoras que antes fugiam de mim agora levam os netinhos delas para treinar comigo. Elas apontavam para mim e falavam:

“Esse não passa dos 18”. E os garotos que estão hoje no tráfico são os que eu via pequenininhos. Eles me respeitam muito. Quando eu estava armado na boca de fumo, dava dinheiro para eles comprarem pipa, para ir no fliperama. Eles me respeitam e dizem que vão sair dessa, mas que não conseguem por causa da droga.

Assim como acontece com as crianças da comunidade, a filha Hillary também vê em Fábio Leão um exemplo de superação. O caso dele foi tão emblemático que ela se espelhou na juíza Thelma Fraga e quer seguir carreira no Direito. E é justamente uma frase de Thelma que o lutador e treinador de artes marciais usa como lema de vida:

– O homem sem trabalho não tem honra. E, sem honra, se mata e se morre.

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