Quando Cesar Cielo chegou a Auburn, as referências eram poucas. Os companheiros de equipe sabiam que se tratava de um velocista, “caipira, magrinho, vindo do Brasil”. Quem estava mais próximo a ele, porém, começou a mudar o olhar. Scott Goodrich foi um deles. O americano, com quem Cielo dividia quarto nos tempos de universidade, se surpreendeu com a evolução dentro e fora da piscina. Não podia imaginar que o adversário das provas curtas se transformaria em um dos grandes nomes dos campeonatos universitários. Muito menos que seria dono dos recordes mundiais dos 50m e 100m livre, campeão olímpico e o primeiro tricampeão mundial da história dos 50m livre. Surpresa e orgulho maiores foi tê-lo ajudado na última façanha. Aos 27 anos, apenas 10 meses mais velho do que o pupilo, Scott assumiu a condição de seu treinador no início de 2013. No fim dele, comemora o sucesso da parceria. O último compromisso do ano será no sábado, no Torneio Open, que está sendo disputado esta semana no Grêmio Náutico União, em Porto Alegre.

A responsabilidade era grande, ele não nega. Mas não poderia desperdiçar a chance de trabalhar com aquele nadador tão talentoso que tinha como desafio na temporada voltar ao topo do pódio, mesmo que as dúvidas a respeito da recuperação das cirurgias nos joelhos o atormentassem.

– Quando Cesar foi para Auburn, obviamente não sabíamos o quão bom ele seria quando chegou lá. Mas sabíamos que ele iria ajudar nossa equipe. Eu me espantei com a velocidade com que ele pegou o inglês e como se encaixou bem na equipe. Quando Cesar e eu decidimos trabalhar juntos, eu sabia que isso ia ser uma grande oportunidade, com expectativas elevadas. A pressão de treinar um atleta tão bem-sucedido como ele é o maior desafio. Na verdade, trabalhar com Cesar não é um desafio, ele é um atleta de elite e com isso você tem um atleta focado e motivado. O que preciso fazer é encontrar caminhos para manter seu treinamento elevado. Ele entende suas responsabilidades e mostra todos os dias estar pronto para trabalhar duro – disse.

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Mas nos momentos em que o cansaço bate ou o humor muda, Scott encontrou na ironia a arma para mexer com os brios do pupilo, que treina sem ninguém na raia ao lado. A rotina solitária foi opção de Cesar. Decisão que o técnico respeita. É por isso que, nas horas vagas, cada um vai para o seu lado. Na próxima temporada, Cielo passará períodos maiores treinando nos Estados Unidos, mais precisamente no Arizona. Scott assumirá a equipe do Sun Devil Aquatics, mas seguirá a rotina de “não deixar uma braçada passar em branco”, como o nadador gosta de dizer. Estarão na piscina em horário diferente. Convívio intenso que requer uma condição: que cada um more em sua casa.

– Se não a gente se mata! (risos) A gente conversa bastante, tem idade parecida, o papo é o mesmo. Temos sintonia. Mas ele sabe que quando o convido para algo é por educação. O contato é profissional. Às vezes vamos almoçar juntos, mas ele tem amigos lá e não quer me ver na frente. É meu técnico (risos). O “timing” da relação acabou sendo perfeito. Se questiono o treino, não tem aquela coisa chata de achar que é pelo lado ruim. Quero saber para que serve aquilo. Não faço corpo mole e nem ele é chato. Mas não adianta querer me matar porque não acredito em treino que você tem que terminar acabado. Tem que me apertar, me levar ao limite, mas não vai achando que pode me matar (risos). Vou ficar mais p… ainda se der um treinamento mais forte do que posso fazer. Ele sabe que não lida com um cara de 15 anos ou com o esquentado de seis anos atrás. Se eu fosse mais novo, acho que não daria certo. Ele mexe com a minha cabeça o tempo inteiro. Mas quando quer mexer comigo fala: “Achava que estava treinando o melhor do mundo” – ri Cielo.

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A mensagem é entendida na hora e tem efeito imediato. Foi assim que fizeram progressos que consideraram significativos. É assim que querem voltar a conquistar mais títulos mundiais e outro ouro olímpico nos Jogos do Rio em 2016. O temperamento forte e o perfeccionismo que pontuaram os trabalhos com Brett Hawke e Alberto Silva ainda estão lá, para felicidade de Scott.

– Ele tem um temperamento forte, e ser um perfeccionista pode ser a melhor descrição de como Cesar é apaixonado e focado. Essas são as características que separam bons de grandes atletas. Não é lidar com esses atributos, mas usá-los para ajudá-lo a ter sucesso. Se alguma coisa faz meu trabalho como treinador mais fácil é o fato de não ter que lembrá-lo dez vezes que é preciso fazer algo. Ele faz isso bem a primeira vez. Para trabalhar com alguém tão talentoso como ele eu precisava manter um equilíbrio ao longo da temporada. Não importava o quanto ele nadasse, eu tinha que continuar o empurrando para melhorias. Agora que já trabalharmos juntos por uma temporada é mais fácil, pois ele conhece o meu estilo de treino, e eu entendo como ele se adapta ao trabalho.

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Mesmo que o pupilo já tenha no currículo mais títulos e recordes que imaginou um dia, o técnico garante que não precisa fazer nenhum esforço para mantê-lo motivado.

– Cesar motiva a si mesmo. Ele me diz o que quer realizar e tentamos encontrar a melhor maneira possível para atingir seus objetivos. Meu trabalho é na concepção do programa de treinamento e dar-lhe o conhecimento de que precisa para nadar com sucesso. Ele permanece motivado pelo progresso que faz nos treinos e sempre querendo nadar mais rápido do que fez antes.

Scott não gosta de falar sobre os planos para a próxima temporada. Antes de olhar para a frente tem uma ainda a ser terminada, e espera que seja em grande estilo, com Cesar baixando ainda mais a melhor marca da era pós-trajes dos 50m livre. No Mundial de Barcelona, alcançou a façanha ao vencer a prova com 21s32. Sem a pressão e com a evolução que veio fazendo nos treinos, os dois acreditam que há fôlego para mais.

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