A dor de cabeça dos produtores de Mato Grosso na atual safra de verão 2013/14 começou com o surto da lagarta helicoverpa, mas não parou por aí. Um evento insólito está gerando uma preocupação a mais: as lavouras de soja estão sendo invadidas por milho em várias regiões do Estado. Esse cereal, chamado de milho guaxo – designação usada para plantas que germinam sem serem cultivadas – é considerado planta daninha e tem afetado os custos de produção e pressionado as margens dos agricultores.

O problema, segundo Nery Ribas, gerente técnico da Aprosoja/MT, associação que representa os produtores de soja e milho do Estado, é que boa parte desse milho que tem nascido espontaneamente tem a tecnologia Roundup Ready (RR), da Monsanto, que o torna resistente ao herbicida glifosato. “Quando o produtor aplica o glifosato na lavoura, mata as ervas daninhas, mas não elimina nem a soja e nem o milho guaxo, já que ambos são RR”, disse. A presença de milho guaxo RR já era notada em meio à soja desde a temporada passada, mas ganhou força nesta safra.

E como o milho foi se misturar à soja dessa maneira? A hipótese mais provável está ligada à “safrinha” do milho: durante a segunda safra do cereal, os grãos que se perdem na colheita (entre maio e setembro) ficam no solo e germinam junto com a soja, favorecidos pelas chuvas do início da safra de verão.

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O uso de colheitadeiras antigas também pode colaborar para o aparecimento do milho guaxo, segundo Milton Rego, vice-presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea). “Uma colheitadeira nova deve apresentar menos de meio por cento de perda mecânica [grãos que não são retirados de campo durante a colheita], enquanto em uma com 12 anos de uso, a perda sobe para até 8%. Desse total, supõe-se que pelo menos 4% dos grãos germinem”, explicou.

A retirada do milho guaxo é necessária porque o vegetal compete com a soja por água, luz e nutrientes. Dados iniciais de uma pesquisa da Embrapa Soja apontam que a presença de duas a quatro plantas de milho por metro quadrado de lavoura de soja pode reduzir em até 50% o rendimento da oleaginosa.

Há ainda um entrave comercial: se permanecer até a colheita, o milho se juntará à soja, o que leva as tradings a aplicarem descontos nos valores pagos pela saca, segundo Ribas, da Aprosoja. Para extirpar o invasor, a solução é investir na aplicação de um graminicida, defensivo capaz de eliminar plantas de folha estreita, caso do milho transgênico ou convencional.

“O controle não é difícil, mas é custoso. Tive que fazer até três aplicações de graminicida, com dosagens bem altas”, relata Elso Pozzobon, produtor da região de Sorriso (MT), que cultivou 2,5 mil hectares de soja nesta temporada. O combate elevou em uma saca (ou cerca de R$ 50) por hectare o custo total de produção do agricultor – atualmente em torno de 45 sacas, ou R$ 2,3 mil por hectare.

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A insatisfação com a tecnologia levou Pozzobon a desistir do milho RR. “Já comprei sementes convencionais para a safrinha deste ano. Há um gasto maior na condução da lavoura, mas como não terei de pagar os royalties pelo uso da RR, acho que compensará”, disse. O milho não transgênico também pode brotar espontaneamente em meio à soja RR, mas é eliminado com a aplicação do glifosato, junto com as demais ervas daninhas.

O caso do produtor Alexandre Schenkel, do município de Campo Verde, é ainda mais curioso. Ele não cultiva milho resistente ao glifosato, mas encontrou diversos exemplares em sua lavoura de soja nesta safra. A estimativa é que ao menos 40% de seus 300 hectares de soja tenham sido contaminados. “Os 200 a 300 metros na borda de cada talhão que faz divisa com outras propriedades foram as áreas que mais sofreram, mas encontrei milho guaxo até no meio dos talhões”, contou. A invasão foi tão intensa que foi preciso até um controle manual, com capina.

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De acordo com Fernando Adegas, pesquisador da Embrapa Soja, a polinização cruzada com fazendas vizinhas pode ter provocado a contaminação. O pólen de um milho RR pode viajar pelo vento e polinizar plantas de milho convencional ou Bt (resistente a lagartas). “O problema de milho guaxo RR tende a aumentar em todo o país, em função da própria ampliação do plantio”, disse.

Para Leonardo Bastos, diretor de marketing da Monsanto, casos como o de Schenkel são pontuais e o uso de graminicida contra o milho guaxo resistente ao glifosato é “inerente ao sistema”. “Desde que o milho RR foi lançado no Brasil, em 2011, destacamos uma equipe para acompanhar 3 mil produtores, porque sabíamos que teria de haver uma mudança no manejo”, afirmou.

O graminicida, acrescenta Bastos, também amplia o espectro de herbicidas usados na lavoura e minimiza a chance de surgirem ervas daninhas resistentes a algum ativo químico. “Entendemos que, apesar do custo com o graminicida, a receita gerada pela maior produtividade do milho RR [quatro a cinco sacas por hectare, em média] compensa para o produtor”, disse Bastos.(Colaborou CF, de São Paulo)

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