Há nove anos, a convivência é diária. Um na borda da piscina com o cronômetro em punho, outro dentro dela. Não é a toa que uma das maiores queixas de Leonardo Coutinho seja a saudade dos companheiros de treino, do ambiente onde cresceu sob a batuta do técnico Marcelo Tomazini. Desde o fim de dezembro, quando recebeu o diagnóstico de leucemia, o nadador de 19 anos, recordista brasileiro dos 200m costas da categoria júnior e integrante das seleções brasileiras de base, está internado na UTI do Hospital Cruz Azul, em São Paulo. O estado era grave, a notícia causou um baque, mas também uma corrente de solidariedade. O Pinheiros fez campanha numa rede social para doação de sangue e disponibilizou uma van para os funcionários dispostos a ajudar. Nadadores de sua equipe e das outras que defendeu (Espéria e Paulistano) fizeram fila, assim como os pais deles e também pessoas fora do meio da natação, que se sensibilizaram com a situação. Tanto carinho surpreendeu a família e deu força extra para o jovem atleta. As mensagens mandadas por ele aos amigos e o sorriso no rosto que exibe em cada foto postada vêm acalmando o grupo. A atitude positiva que marca sua personalidade está lá e tem animado seu treinador.

– Na primeira visita que fiz ele me viu e chorou. Brinquei que se fosse para ele ficar assim eu não iria entrar. Ele ainda estava muito fraco e sonolento. Nas duas seguintes, nós conversamos. Ele me falou do efeito da quimioterapia, mas que tinha momentos em que não sentia dor e achava que podia sair correndo. Mas que às vezes sentia náuseas. Tudo oscila muito. Logo depois lembrava que pior era saber que podia não estar mais ali. Aí me disse: “Se for só isso eu aguento”. Leonardo é um garoto muito simpático e querido por todos. E na natação é difícil ter isso porque você lida com competitividade o dia inteiro dentro da equipe e com adversários de outros clubes. E mesmo assim ele tem muitos amigos. É um garoto bem dedicado, vem de família muito humilde e isso também contribui para dar valor a determinadas coisas. Costumo dizer que não tem tempo ruim para ele. A família é religiosa e ele sempre vê o lado positivo das coisas – disse Tomazini, ex-integrante da seleção brasileira.

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A comissão técnica do Pinheiros também tenta olhar para a situação pelo mesmo ângulo. Na última segunda-feira, o caso de Leonardo foi pauta da reunião de início de temporada com os atletas. A orientação é que todos estejam mais atentos aos sinais dados pelo corpo.

– Ele tinha indícios de cansaço, mas atleta acha sempre que isso tem a ver com treino e não chega a uma conclusão de que tipo de cansaço é. Todos agora estão mais atentos quanto a isso. Falamos que não adianta ser Super-Homem, sentir um cansaço extremo e achar que não há algo errado. Quando sentirem algo fora do normal devem falar. E precisamos ter o costume de fazer exame de sangue mais do que uma vez por ano. Esse episódio serviu de lição para todos. Estamos tentando tirar a parte positiva dessa situação e instruindo o grupo. No início foi um baque para todo mundo. Ser informado que um companheiro está com câncer no sangue é pesado. Mas ele vem reagindo muito bem. Terminou um ciclo de quimioterapia e depois vai começar outro. Deu uma levantada de ânimo. Eu brinquei que ele não vai ter sossego quando for para o quarto porque todos querem visitá-lo. E isso vai ajudar ainda mais na recuperação emocional.

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De acordo com Tomazini, os médicos ainda aguardam a resposta ao tratamento para definir se será necessário um transplante de medula óssea ou um autotransplante. Enquanto isso, segue recebendo o apoio dos pais, do irmão e da namorada diariamente no hospital.

– O pai dele, um policial militar, está de licença prêmio. A mãe, nutricionista, está de férias este mês. Todos nós estamos mobilizados. O Pinheiros vai continuar pagando a renda mensal dele como se estivesse nadando. O pai dele tem convênio, mas caso a gente comece a perceber que haverá uma necessidade de ajuda financeira para o tratamento, vamos nos mobilizar e usar a natação para isso.

Na quarta-feira, o medalhista olímpico e mundial Thiago Pereira, do Sesi-SP, mandou mensagem de apoio para Leonardo Coutinho.

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– Tenho certeza de que ele sairá dessa, mas a ajuda da comunidade da natação é fundamental para a sua pronta recuperação. Tenho acompanhado pelas redes sociais essa mobilização e me coloco à disposição para ajudar meu companheiro de piscina. As doações já animaram o Leonardo e sua família.

Doar sangue salva vidas e é uma atividade que deve ser feita por todos os brasileiros. Não é preciso motivo. Os estoques de sangue sempre precisam de reposição – disse.

Nos Estados Unidos, Bruno Fratus também acompanha a evolução do quadro de saúde de seu companheiro de clube.

– É uma situação que comove e preocupa todo mundo, não só da natação, mas qualquer ser humano. Não tenho dúvidas de que ele irá se recuperar. Só desejo que isso aconteça o mais rápido possível e que no futuro isso tenha sido apenas mais um percalço no caminho dele.

As doações (qualquer tipo sanguíneo) devem ser feitas em nome de Leonardo, no Banco de Sangue Paulista, que conta com unidades na Rua Alceu de Campos Rodrigues, 46, na Vila Nova Conceição (11 3048-8969), e na Rua Iguatinga, 382, em Santo Amaro (11 5521-4013).

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