Por enquanto, não há ronco de motores. As únicas máquinas a movimentarem o futuro grid de largada são tratores e escavadeiras. Nas demais partes do traçado, o barulho é oriundo de torcedores – muitos deles alheios ao fato de que pisam em curvas e retas onde, dali a oito meses, carros de Fórmula 1 serão as grandes estrelas. Integrado ao Parque Olímpico costeiro e, na teoria, com mais de 90% das obras concluídas, o circuito de Sochi aproveita os holofotes dos Jogos de Inverno para ganhar forma e publicidade, já colhendo os frutos como o primeiro evento do legado russo.

A primeira proposta da Rússia para sediar um GP surgiu no início dos anos 1980, ainda sob a bandeira da União Soviética. Os planos da prova em Moscou chegaram a ser incluídos no calendário de 1983, mas foram retirados “por questões burocráticas”. Três anos mais tarde, a Hungria tornou-se o primeiro país a leste da chamada “Cortina de Ferro” – que separava o bloco socialista dos países capitalistas europeus – a receber uma corrida da modalidade mais nobre do automobilismo.

Após sucessivas tentativas infrutíferas, o sonho ficou adormecido. Ele foi resgatado por Vladimir Putin, que apoiou pessoalmente dois projetos em seu primeiro mandato como presidente do país. Em 2001, a proposta era organizar um GP nos arredores do aeroporto de Pulkovo, próximo a São Petersburgo. A segunda ideia, lançada dois anos mais tarde, envolvia Molzhaninovsky, um distrito a nordeste de Moscou. Desta vez, disputas comerciais foram apontadas como os vilões. O último veto foi a Fedyukino, em 2008.

Com Sochi já eleita sede dos Jogos de Inverno de 2014, o governo russo montou um projeto para transformar a região de Krasdonar em um polo de negócios e eventos esportivos. E colocou a Fórmula 1 novamente em pauta. Em 2010, Vitaly Petrov estreou como primeiro piloto do país na categoria, e o desejo russo finalmente tornou-se realidade. O contrato assinado começa a valer neste ano, com a prova de estreia no dia 12 de outubro, e vai até 2020.

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De acordo com o vice-diretor da equipe de organização do GP, Sergey Vorobyev, o acordo inicial previa um investimento de pouco mais de 10 bilhões de Rublos (mais de R$ 670 milhões) por parte do governo do país. Entre 75% e 80% deste valor teria sido investido diretamente na construção do circuito de rua, desenhado pelo designer Hermann Tilke.

Com 5.853,7 metros, ele é o terceiro mais longo do calendário, atrás apenas de Spa e Silverstone – há possibilidade de adaptação para um circuito mais curto para receber outros eventos automobilísticos. Com traçado no sentido horário, possui 12 curvas para a direita e sete para a esquerda. A velocidade média que um carro de F-1 alcançará nas curvas é de 215 km/h, enquanto o ponto mais rápido será a reta entre a primeira e a segunda curva, que permite aos carros alcançarem 320 km/h.

– Eu posso falar pelo que os pilotos que já estiveram aqui, Sebastian Vettel e Vitaly Petrov, comentaram. Os dois andaram pelo circuito, e a opinião que eles compartilharam é que é uma pista muito técnica e rápida para um circuito de rua. Acredito que vamos ter uma prova interessante e com bastante ação no circuito – disse Vorobyev.

Integração com o Parque Olímpico

A ideia de integrar a pista ao Parque Olímpico vem desde a assinatura do contrato da Fórmula 1, em 2010. A esta altura, porém as obras de construção das venues olímpicas já estavam em andamento. A intenção dos responsáveis pelo evento de motor era que o traçado passasse por dentro do Estádio Olímpico Fisht. Mas, devido a outros acordos para a realização de eventos de outras modalidades (este será um dos palcos da Copa do Mundo Fifa de 2018, por exemplo), não seria possível.

Ainda assim, o trabalho dos engenheiros viabilizou a volta pelo Parque como um dos principais atrativos do GP. Como mostra o simulador testado pelo GloboEsporte.com

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os pilotos vão contornar a Arena Bolshoi, a Arena Adler e a Praça das Medalhas, além do Palácio Iceberg de Patinação. Em alguns momentos, terão ainda visão do Mar Negro, que margeia a região.

– Graças ao contato próximo que tivemos com a empresa responsável pela construção do Parque Olímpico nós conseguimos tornar este sonho possível. Esta integração não foi um processo fácil, mas ocorreu com sucesso. O resultado vemos agora, com a construção 92, 93% completa. Funcionou muito bem, apesar de no começo parecer algo muito difícil. (..) É difícil julgar se o Rio de Janeiro poderia ter feito igual porque não tenho informações suficientes sobre o caso brasileiro, mas no geral posso falar que nosso conceito funcionou muito bem.

Poderia ter sido feito de outra forma? Talvez sim, talvez não. O bom é que as circunstâncias permitiram que tivéssemos essa integração total. Todos saíram ganhando – disse Vorobyev ao comentar a demolição do Autódromo de Jacarepaguá, no início de 2013, para a construção do Parque Olímpico de 2016.

Para aproveitar a presença da mídia e de torcedores do mundo todo, os promotores do GP da Rússia organizaram algumas ações de divulgação da Fórmula 1 durante os Jogos de Inverno. Em shoppings da região estão espalhados alguns protótipos dos carros da categoria. No Centro de Mídia ao lado do porto de Sochi, uma grande maquete ilustra cada ponto do circuito, e um simulador permite que o fã simule uma volta pelo asfalto. No dia 16 de fevereiro, o presidente Vladimir Putin visitou um destes estandes, mas preferiu não se arriscar no simulador.

De acordo com os promotores do evento, cerca de 600 funcionários trabalharam diariamente nos últimos três anos. Com o período olímpico as atividades foram reduzidas para que a voluntários e outros funcionários usassem a estrutura da Fórmula 1 como base. Eles ocupam os prédios das equipes e o centro médico, únicas dependências 100% prontas. Os boxes das equipes e outras áreas do Paddock, assim como a área VIP e arquibancadas ainda precisam de acabamento. A terceira e última camada de asfalto só será colocada após o fim das Paralimpíadas, mas a organização garante que toda a parte estrutural será concluída até 90 dias antes do GP, e que os detalhes serão finalizados em setembro, até um mês antes da corrida, para um evento inaugural.

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Ingressos mais baratos do que os do GP do Brasil

O site oficial do GP de Sochi só entrará no ar em 4 de março, mesma data em que será iniciada a venda dos ingressos. Os organizadores do evento russo adiantaram apenas o preço da entrada mais barata. Para os três dias de treino e corrida no autódromo, o bilhete mais em conta sai por 7 mil Rublos, o equivalente a R$ 470. Os promotores do GP do Brasil ainda não revelaram a tabela de preços da corrida deste ano mas, em comparação com o do evento de 2013, o pacote brasileiro foi mais salgado. O setor mais barato em Interlagos custou R$ 525.

– Só venderemos os pacotes para os três dias. Acreditamos que haverá uma demanda grande e interessada em acompanhar o fim de semana inteiro. Como você vê, Sochi oferece muitas formas de entretenimento, belas paisagens com montanha e com o mar, muitas atividades de recreação. Certamente teremos muitas ações com patrocinadores, e as pessoas ficarão felizes de passar o fim de semana aqui – disse Vorobyev.

A expectativa é que sejam vendidos 55 mil pacotes. O GP de Sochi será o 16º em 19 corridas da temporada 2014. Depois dele, restarão apenas os GPs dos Estados Unidos, do Brasil e de Abu Dhabi para a conclusão do calendário. O GloboEsporte.com acompanha todas as corridas em Tempo Real.

 

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