No filme Os Delírios de Consumo de Becky Bloom, do cineasta australiano P. J. Hogan (51), a atriz Isla Fisher (37) é uma compradora compulsiva e apresenta de forma cômica vários sintomas do transtorno. Ela carrega na carteira inúmeros cartões de crédito — muitos deles com limite estourado. Não tem a menor noção de seus gastos mensais e, pior, nem sabe o tamanho de sua dívida. Toda vez que se sente aborrecida ou frustrada, corre para uma loja. Nunca adquire só o que deseja; sai com muitas sacolas. Em seu guarda-roupa, lotado, há várias peças não usadas.

Na ficção, após fugir de credores e quase perder amigos e oportunidades profissionais, a protagonista ganha um final feliz. Mas, na vida real, portadores do distúrbio em geral não têm a mesma sorte. Sofrem perdas financeiras graves e até chegam à falência. Os entes queridos se distanciam por não suportarem tantas mentiras e desfalques, podendo haver até divórcios e o rompimento de amizades.

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Numa sociedade que estimula o consumo, ter prazer em frequentar shopping centers e fazer compras é um comportamento normal. Só se torna patológico quando esse ato passa a ser uma preocupação excessiva e sem controle. Outros sinais são o aumento progressivo do volume das peças e objetos adquiridos e a fuga para o consumo nos momentos de crise, ou seja, uma forma de driblar a angústia e outras emoções negativas. Para encobrir o descontrole, o comprador compulsivo mente: esconde sacolas; raspa e suja solas de sapatos para fingir que são usados; e diz que ganhou aquilo que acabou de comprar. Quando os problemas financeiros se tornam insuportáveis, busca reduzir as compras, mas as tentativas, claro, são sempre frustradas.

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O distúrbio ocorre principalmente em mulheres — cinco para cada homem —, sobretudo dos 35 aos 60 anos. A compulsão por compras se manifesta em pessoas com transtorno do controle do impulso e também pode aparecer em pacientes com transtorno afetivo bipolar ou transtorno obsessivo compulsivo (TOC). Nos dois últimos casos, será necessário tratar as outras doenças, além da compra compulsiva. A ajuda de familiares ou amigos é fundamental para que o portador se conscientize de que está doente. Infelizmente, é comum o comprador compulsivo só buscar ajuda após 10 ou até 20 anos do início dos sintomas, quando, muitas vezes, já tem também depressão e ansiedade. Nesse caso, caberá ao psiquiatra medicar e acompanhar o tratamento.

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No Ambulatório dos Transtornos do Impulso, do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, há tratamento gratuito. O paciente passa por triagem e participa de um grupo de no máximo 12 pessoas. A lista de espera, porém, é grande.

No consultório particular, o psicoterapeuta especializado nesse tipo de transtorno trabalha pensamentos, emoções e comportamentos associados à compra. Ajuda o paciente também a montar uma planilha de gastos, já que a maioria não tem controle do orçamento. No primeiro encontro, muitos costumam perguntar: “Nunca mais vou poder fazer compras?” O tratamento é para que a pessoa aprenda a lidar com as emoções. Claro que voltará a fazer compras, um ato necessário e importante, mas desde que consciente.

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