Quando se fala em câncer de pulmão, a crença comum é de que, uma vez que a doença esteja instalada, não tem mais jeito. O que é um engano, diante da evolução constante da ciência. Descoberto em fase inicial, as chances de sobrevida aumentam muito, até mesmo de cura. Diz o oncologista Carlos Barrios, do Instituto do Câncer do Hospital Mãe de Deus, professor da Universidade Católica do Rio Grande do Sul.

“Nas duas últimas décadas, o tratamento evoluiu, passando para uma terapia personalizada, consequência de um maior conhecimento das alterações moleculares e mutações causadoras da enfermidade”, diz. Para reforçar isso, diferentes laboratórios farmacêuticos estão voltados a novos estudos. Um deles, em fase três, é um inibidor irreversível da tirosina quinase e visa ao tratamento do câncer de pulmão de não pequenas células.

Barrios afirma ainda que, de posse deste novo conhecimento, que identifica e mapeia a célula doente em sua fonte, ocorre uma revolução não apenas na forma como a terapia clínica é aplicada, mas também uma mudança na qualidade de vida do paciente. “As inovações permitem ações preventivas, diagnóstico no estágio inicial, tratamentos específicos para cada caso e a possibilidade de que, em alguns anos, o câncer possa se tornar uma doença crônica, como são hoje o diabetes e a hipertensão”, fala.

Outra oncologista que vê com bons olhos as notícias positivas no combate a este tipo de câncer é Miriam Hatsue Honda Federico, da Rede de Hospitais São Camilo, de São Paulo, que reconhece que, embora altamente letal, o câncer de pulmão é um dos poucos tipos da doença que podem ser prevenidos.

“Para diminuir a chance de adquirir a doença, o mais indicado é que as pessoas não fumem. Aos já adeptos ao vício, recomenda-se consulta com um médico para orientações sobre os possíveis tratamentos. Nunca é tarde para parar de fumar”, alerta.

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Fatores de risco

Embora o fumo seja o fator mais conhecido a causar tumor maligno, várias outras razões podem levar ao aparecimento da doença. Entre as principais, segundo Miriam, estão a exposição a agentes químicos presentes em áreas específicas de atuação profissional, como arsênico, asbesto, berílio, cromo, radônio, urânio, níquel, cádmio, cloreto de vinila, gás de mostarda e éter de clorometil, poluição do ar, deficiência e excesso de vitamina A, doença pulmonar obstrutiva crônica (enfisema pulmonar e bronquite crônica) e, como quase sempre, fatores genéticos.

Diagnóstico diferencial

Além do foco no diagnóstico, tratamento e cura, outro fator que também ganha status de protagonista na luta contra o câncer é a prevenção. De acordo com a OMS, 40,3% dos casos da enfermidade poderiam ser evitados. “O cigarro é a principal causa evitável de mortes pela enfermidade. Cerca de 30% dos casos de câncer são causados pelo cigarro. Estima-se que, nos próximos 10 anos, 100 milhões de pessoas venham a morrer como consequência do ato de fumar.

A adoção de bons hábitos alimentares, o controle do peso, a prática de atividades físicas regulares e a inserção de vacinas preventivas no calendário oficial são fatores imprescindíveis para a redução dos casos”, diz o oncologista Carlos Barrios.

Quem concorda com é o radiologista Arthur Soares Souza Junior, especialista em radiologia torácica, de Rio Preto. Segundo ele, o câncer de pulmão pode ser identificado na fase inicial como uma mancha (opacidade focal) na radiografia de tórax e, como nódulo, na tomografia computadorizada. Já na fase tardia, aparece como uma massa, ou seja, uma mancha muito grande.

A ressonância magnética tem sido usada como método alternativo também. Além de alguns procedimentos novos, como a ressonância magnética e o PET-CT, equipamentos de imagem que têm auxiliado na hora de um diagnóstico diferencial.

Mas o radiologista Soares Junior reconhece que o diagnóstico definitivo, só quem pode dar, é o exame feito pela histopatologia. “Este material é obtido por diferentes tipos de biópsia, escarro e/ou lavado brônquico, dentre outros”, explica.
DEPOIMENTO:
A profissional autônoma Simone da Silva Nunes, 35 anos, de Rio Preto, conta que passou pela pior experiência de sua vida há cerca de 8 anos, quando teve o diagnóstico de um câncer no pulmão. “Era jovem, não fumava, não tinha histórico familiar e, mesmo assim, tive um tumor no pulmão esquerdo que quase me matou”, diz. Simone relembra que tudo começou com a falta de ar, e o cansaço que surgia ao simples ato de caminhar dentro de casa. “Depois foi surgindo a dificuldade para abrir os braços e só quando já estava com suspeita de pneumonia foi que, através de uma consulta particular, obtive a orientação para realizar uma série de exames, que saíram antes do previsto. O médico me internou imediatamente. Fiquei um mês perambulando em postos de saúde, só me mandavam para casa, com um remédio qualquer, sem pedir sequer um exame. E eu continuava a passar mal. Após o resultado da biópsia, fui encaminhada a fazer quimioterapia e radioterapia. Passei oito meses de maus bocados, mas, graças a Deus, sobrevivi. Inclusive tive pneumonia no percurso, e o médico até me desenganou. Me recomendou vacinas que foram a salvação. Agora, faço um acompanhamento anual, e a única recomendação é que tenho de reduzir o estresse”, diz.

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NÚMEROS ENVOLVENDO A CIRURGIA:
– Em 90% dos casos, a cirurgia não é possível, devido à proximidade com outros órgãos
– 50% dos casos são cirúrgicos, porque os pacientes estão em estágio avançado
– Sobrevida em 67,9% é superior a cinco anos
– Em 8,2% dos casos é inferior ou igual a um ano

Fonte: Aldemir Bilaqui, cirurgião cardiotoráxico

Cirurgia é opção de ‘último caso’

A oncologista Miriam Hatsue explica que o objetivo da cirurgia é retirar as células cancerígenas. Mas só um cirurgião pode avaliar se é possível apenas a remoção do tumor ou se é necessária a retirada de uma parte do pulmão ou do órgão inteiro. Ela afirma que, em 90% dos casos, a cirurgia não é possível devido à extensão da doença e à proximidade do tumor a outros órgãos, como coração, ou risco do paciente.

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Por isso, a quimioterapia tem sido a mais indicada para destruir as células cancerígenas, reduzir o crescimento do tumor ou amenizar os sintomas da doença. A radioterapia também tem sido utilizada antes ou após a cirurgia e é uma aliada da quimioterapia na destruição das células cancerígenas.

Como a doença ainda hoje tem sido diagnosticada de forma tardia, muitos pacientes acabam sendo levados para a mesa cirúrgica. Segundo o cirurgião cardiotorácico Aldemir Bilaqui, do Instituto de Moléstias Cardiovasculares (IMC), aproximadamente 50% dos casos em que o câncer de pulmão está envolvido são cirúrgicos. E isso só ocorre porque os pacientes já chegam com a doença em estágio avançado.

“Quanto mais cedo o diagnóstico, mais possibilidade cirúrgica e maior a sobrevida. O paciente praticamente volta à vida normal. Após a cirurgia de tumores com menos de dois centímetros não há necessidade de complementa-ção com quimio ou radioterapia. O sucesso da cirurgia é pleno”, diz.

Bilachi explica que, em casos em que o diagnóstico é feito precocemente, aumenta-se a sobrevida do paciente. Bem como quando, ao retirar tumores de dois centímetros ou nódulos isolados, há grande margem de sucesso no sentido de cura total. “Quando tumores têm avanço localizado, é recomendado tratamento com quimioterapia e até radioterapia, antes da cirurgia. Quando não há metástase, a sobrevida após a cirurgia, segundo o Instituto Nacional do Câncer, é superior a cinco anos em 67,9% dos casos, e inferior ou igual a um ano em 8,2% dos casos”, explica.

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