Há exatos 30 anos, Ayrton Senna estreava na Fórmula 1 a bordo de um Toleman-Hart no GP do Brasil, em Jacarepaguá. Então com 24 anos, Senna chegava com status de revelação após ter sido campeão, nos anos anteriores, das categorias 1600 e 2000 da F-Ford e também da F-3 Inglesa.

Do outro lado dos boxes da Toleman estava o venezuelano Johnny Cecotto, de 28 anos, o primeiro sul-americano a conquistar um título no Mundial de Motovelocidade – foi campeão da extinta categoria 350cc em 1975. Cecotto havia migrado das motos para os carros no início da década de 1980 e faria sua segunda (e última) temporada na F1.

Segundo Cecotto, Senna já chegou à Toleman assinando como primeiro piloto. O venezuelano foi contratado pela equipe depois do brasileiro, após ter conquistado um ponto em seu ano de estreia na F1, em 1983, pela pequena Theodore. De acordo com o ex-piloto, a relação esfriou bastante durante o ano, por um motivo que ele diz não saber ao certo.

“A princípio a relação era boa, próxima, andávamos juntos. Depois, testamos o mesmo carro uma vez, em Donington, e eu fui um pouco mais rápido. Ele não ficou contente e, mesmo sendo o primeiro piloto, a partir deste dia a relação ficou mais difícil”, conta Cecotto ao UOL Esporte.

O venezuelano recorda que Senna, como primeiro piloto, contava com equipamento atualizado, ao contrário do carro guiado por Cecotto. O ex-piloto ri ao lembrar da dedicação de Senna em contar com o melhor equipamento possível – o que era natural dos competidores que sonhavam com o título da F1, de acordo com Cecotto.

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“Ele queria todas as melhores condições para ele [risos]. Ele tinha o motor novo, do ano, com injeção eletrônica – a minha era mecânica, do ano anterior. Ele fazia todos os testes, eu nunca testava. Havia diferença de potência e velocidade, que eram menores no meu carro. Tudo girava em torno dele. Era sua forma de ser, queria a equipe para ele. Mas creio que, para um piloto que quer ser campeão, é [um comportamento] bastante normal.”

Mesmo incomodado na época, Cecotto diz que a Toleman não tinha condições financeiras de fornecer carros rápidos para os dois pilotos. E enquanto Senna conquistou três pódios e 13 pontos para a equipe em 1984, Cecotto terminou apenas duas das nove corridas que largou naquele ano – foram ao menos cinco abandonos por problemas mecânicos.

A relação entre os dois, que já era distante, terminou definitivamente após um acidente de Cecotto nos treinos do GP da Inglaterra de 1984, em Brands Hatch. Ele quebrou as pernas na batida, que encerrou sua carreira na F1, e nunca mais teve contato com o brasileiro.

“Não me visitou, não mandou mensagem. Eu creio que meu acidente o impressionou um pouco e não entendo… pelo menos uma saudação ele poderia ter enviado.”

“Mas não importa. Depois de alguns anos, ele declarou em uma entrevista que eu fui o companheiro mais difícil que ele enfrentou. Fiquei surpreso e senti isso como uma prova de respeito comigo. Pode ser que essa rivalidade tenha tornado ele mais distante.”

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Diferentemente da relação fria com Ayrton Senna, Johnny Cecotto ficou amigo do outro tricampeão mundial brasileiro, Nelson Piquet. Com um McLaren GTR, Cecotto, Piquet e o britânico Steve Soper venceram as Mil Milhas Brasileiras, em Interlagos, em 1997. “Sempre tive uma boa amizade com Nelson, desde os tempos de F1”, diz o venezuelano, que não quis fazer comparações entre os dois brasileiros.

O ex-piloto segue no automobilismo, agora trabalhando na carreira do filho, Johnny Cecotto Jr., que disputa a GP2, categoria de acesso à F1. Ele informa que a falta de patrocinadores dificulta o ingresso do filho à principal categoria do automobilismo.

“A Venezuela enfrenta um momento difícil politicamente. Com Hugo Chávez havia maior apoio aos esportistas locais, mas agora estamos tendo grande dificuldade para obter apoio para o desenvolvimento da carreira na GP2”, afirmou.

QUEM É JOHNNY CECOTTO

O venezuelano Alberto “Johnny” Cecotto começou na velocidade em cima das motos, fazendo várias provas no Brasil no início dos anos 70. Em 1975, já no Mundial de Motovelocidade, sagrou-se campeão da 350cc com apenas 19 anos e quebrou a sequência de sete títulos consecutivos do italiano Giacomo Agostini nessa categoria. Primeiro sul-americano a conquistar um título no Mundial de Motovelocidade, Cecotto também foi o primeiro da região a vencer a tradicional prova americana das 200 Milhas de Daytona, em 1976. No começo dos anos 80, migrou para os carros e foi vice-campeão da F2 em 1982. Depois da passagem sem sucesso pela F1, disputou categorias de turismo em países como Inglaterra e na Alemanha. Cecotto também se destacou em corridas de longa duração, ganhando provas como as 24 Horas de Daytona de 1990 e as Mil Milhas Brasileiras de 1997, onde correu ao lado de Nelson Piquet.

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ESTREIA DE SENNA NA F1 COMPLETA 30 ANOS

Durou apenas oito voltas a estreia de Ayrton Senna na Fórmula 1, no GP do Brasil de 1984. Com um problema mecânico, o jovem brasileiro de 24 anos abandonou a prova disputada em Jacarepaguá. “Parece que o turbo quebrou. Eu não estou decepcionado. Quebrou, quebrou, fica para a próxima”, disse Senna à TV Globo ainda durante a corrida. Na “próxima”, em Kyalami (África do Sul), veio o primeiro ponto, com um sexto lugar. Seriam outros 12 naquela temporada, que teve como principal destaque a segunda posição no GP de Mônaco (foto), debaixo de um temporal. A corrida foi interrompida com 31 voltas, quando Senna se aproximava do então líder Alain Prost. O brasileiro ainda foi terceiro colocado nos GPs da Inglaterra e de Portugal no ano de estreia, terminando em nono no Mundial de Pilotos, com 13 pontos. Em 1985, Senna seguiu para a Lotus, onde conquistaria suas primeiras seis vitórias na F1. Em 1988, estreou na McLaren e venceu o primeiro de seus três títulos mundiais.

 

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