Alvo de investigação da Polícia Federal, o governador de Mato Grosso, Silval Barbosa (PMDB), combinou por telefone uma reunião com o principal delator do suposto esquema de corrupção sob apuração.

Em 17 de janeiro de 2012, o empresário Gércio Mendonça Jr. fez ligações para dois celulares diferentes do governador. Procurava, segundo a suspeita da PF, cobrar por pagamentos atrasados do governo à sua empresa, a Amazônia Petróleo, dona de postos de combustíveis no Estado.

A Amazônia e outras empresas de Gércio Mendonça Jr. sob investigação são apontadas pela PF como uma espécie de “banco clandestino”, que desde a gestão do atual senador pelo PR Blairo Maggi (2003-2010), de quem Barbosa foi vice no governo, recebiam empréstimos privados fraudulentos e recursos desviados de cofres do Executivo, Legislativo e Judiciário de MT, repassando a autoridades do Estado.

Segundo levantamento da Folha, a Amazônia Petróleo recebeu ao menos R$ 12,1 milhões da gestão Barbosa desde 2011, e nos últimos dez anos manteve contratos com Assembleia Legislativa, Tribunal de Justiça e Prefeitura de Cuiabá, entre outros órgãos.

Quebras de sigilos bancários revelaram movimentações financeiras de parentes e empresas ligadas a Mendonça Jr. incompatíveis com a renda ou lucro dos mesmos.

O empresário recentemente acertou delação premiada com PF e Ministério Público Federal e passou a colaborar com as investigações.

Segundo relatórios da operação Ararath obtidos pela reportagem, a primeira ligação do empresário para o governador, na manhã de 17 de janeiro de 2012, foi atendida por um ajudante de ordens de Barbosa, identificado como “major Dorileo”.

“É um caso meio urgente e ele [Barbosa] pediu que eu ligasse para ele quando chegasse nesse ponto e eu ‘tô’ precisando muito falar com ele, ‘tá’?”, diz o empresário. Pouco depois, Mendonça Jr. reclama com um funcionário de sua empresa em outra ligação e sugere que irá romper o contrato de fornecimento com o governo, o que acabou ocorrendo. “Eu daqui a pouco vou é cortar igual cortei daquela outra vez, já que ninguém quer falar comigo”, diz.

Horas depois, o empresário, que tinha o celular monitorado pela PF, consegue falar com o governador, e acertam uma reunião para dois dias depois. “É coisa rápida, só para tomar um café com você aí e te desejar um feliz 2012”, diz Mendonça Jr.

DELAÇÃO

Após entrar em delação premiada, o empresário, como revelou a Folha nesta quinta-feira (22), disse ter emprestado, a pedido de Barbosa, R$ 4 milhões para a campanha à reeleição de 2010 do peemedebista, além de ter pago despesas com pesquisas (R$ 300 mil) e convenção partidária (R$ 150 mil).

Segundo Mendonça Jr., esse empréstimo foi acertado em encontro na casa do governador. Mencionou a existência de um “caderno espiral” onde Barbosa teria registro de “todas as dívidas”.

Aportes de Mendonça Jr. ou de suas empresas não aparecem na prestação de contas de Barbosa à Justiça Eleitoral, que apresentou R$ 21,2 milhões em receitas e o mesmo valor em despesas.

A quinta fase da operação Arareth, desdobramento de investigação iniciada em 2010, prendeu na última terça-feira (20) o deputado estadual José Riva (PSD), presidente afastado da Assembleia Legislativa de MT, e Éder Moraes (PMDB), ex-secretário da Fazenda de Maggi e da Copa no governo Barbosa.

O governador foi alvo de buscas em sua casa –o caderno citado por Mendonça Jr. era um dos objetivos– e chegou a ser detido por posse ilegal de arma. A PF pediu uma busca também na sede do governo, mas o ministro do STF (Supremo Tribunal Federal) Dias Toffoli negou.

A PF também pediu busca contra o senador Blairo Maggi, igualmente negada por Toffoli. Houve buscas na casa e no gabinete do prefeito de Cuiabá, Mauro Mendes (PSB), no Tribunal de Contas do Estado e no Ministério Público Estadual.

A PF investiga suposto esquema de desvio de recursos e lavagem de dinheiro com braços nos três Poderes e no Ministério Público de MT.

OUTRO LADO

Em nota, o governador Silval Barbosa disse ter “convicção” de que “os fatos serão esclarecidos”. Seu advogado não foi localizado nesta quarta (21). Maggi está no exterior e não comentou. A defesa de Moraes diz que ainda colhe informações.

O prefeito de Cuiabá, Mauro Mendes, disse, em nota, ter tomado um empréstimo legal da Amazônia Petróleo em 2012. Posteriormente, em 2013, a empresa foi contratada sem licitação, em caráter emergencial, pela própria prefeitura, com valor semelhante ao do empréstimo (em torno de R$ 3,5 milhões). Mendes nega irregularidade.

O advogado de José Riva, Válber Melo, afirmou, por meio de assessoria de imprensa, que a prisão do deputado foi “injustificada” e que já entrou com um pedido de revogação. Segundo ele, o deputado nunca se recusou a prestar informações à investigação.

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