Um fato curioso ocorrido no Jungle Fight 71, disputado no último sábado, no ginásio do Canindé, em São Paulo, passou despercebido pela maioria dos espectadores. Na segunda luta do evento, quando Marcus Nuguete venceu Rene Soldado, o presidente da organização, Wallid Ismail, fez um sinal para o árbitro Douglas Aires interromper o combate, segundos antes do nocaute técnico ser decretado.

Entretanto, Wallid garante que só agiu desta forma após o médico pedir insistentemente para que o duelo não prosseguisse.

– Houve interferência do médico. Ele que interferiu. Eu falo pra caramba mesmo, mas eles (árbitros) nunca me ouvem. Eu realmente me preocupo sempre com a integridade física dos lutadores. Nesse caso, teve interferência do médico. Peço para as pessoas prestarem atenção, porque em todo evento fico de um lado para o outro, pedindo raça e determinação. Eu realmente faço mais do que era para eu fazer. Sempre vou nos treinadores, falo com os juízes para puxarem a luta, movimentarem. Não tenho interesse em ninguém. Ninguém é meu aluno, não sou manager de ninguém que luta. Não sou professor de nenhum cara que está lutando. Então o que quero é o show. Só penso nisso e na integridade física dos lutadores. A pior coisa do mundo é acontecer um acidente grave com um atleta – defendeu-se, em entrevista por telefone ao Combate.com.

Diretor médico do Jungle Fight, o Dr. Gustavo Starling Torres confirmou que pediu o encerramento da luta, visando a integridade física de Rene Soldado. Ele estava sentado à beira do cage e garante que tinha um ângulo de visão melhor que o do árbitro.

– Eu pedi ao Douglas para interromper a luta e ele interrompeu. O Wallid, eu nem prestei atenção, porque ele sempre está gesticulando, pedindo aos atletas para lutarem, porque ele é um entusiasta do esporte. Se por acaso ele pediu para parar, ele deve ter visto que eu pedi, ou o Douglas não deve ter escutado quando pedi, mas quem pediu para parar fui eu mesmo, porque o atleta já estava com reflexo involuntário, devido ao primeiro golpe que levou, e se continuasse a luta, poderia acontecer alguma coisa mais grave. Ele levou o golpe, teve um rebaixamentro do nível de consciência, só que ele movimentava o braço porque estava com um reflexo involuntário. Tomou o segundo, rebaixou de novo, diminuiu o reflexo. Voltou o reflexo involuntário, mas ele já estava vendido e, se tivesse deixado (continuar), ele teria perdido a consciência total na luta e poderia ter acontecido alguma coisa mais grave – afirmou Torres, que também atua como “ringside doctor” (médico à beira do octógono) em eventos de kickboxing da Wako (Associação Mundial de Organizações de Kickboxing), WGP Kickboxing e Confederação Brasileira de Kickboxing.

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Wallid também não acredita que tenha se precipitado ao sinalizar para o árbitro interromper a luta, já que era um pedido do médico.

– Acho que não (me precipitei). Se o médico estava ali encostado na grade, se ele fala, esbraveja, grita, eu vou contra o médico? Eu realmente falei, fui no que ele disse. Mas várias vezes eu já falei com os árbitros e eles nem repararam. Sempre vou me preocupar com a integridade dos lutadores. Uma vez, o cara estava com o braço esticado, quase quebrando, e reclamou que o juiz parou a luta. Perguntei se ele preferia quebrar e ter fratura exposta. É isso que as pessoas preferem? Ou então nesses eventos que o cara apanha, apanha e o juiz não para, aí o cara morre. É isso que você quer? Que mesmo consciente, tenha sequela? Aí as pessoas fazem a análise do que acham melhor. Nesse caso específico, o médico que mandou parar, porque eu mando várias vezes e eles não me escutam – declarou.

Treinador de Rene Soldado, Rodrigo Sama revelou ter conversado com Wallid e o médico após a luta para entender o que aconteceu e, apesar de não ter concordado com a interrupção, preferiu não polemizar sobre a questão.

– Conversamos depois com o Wallid e o médico, porque não achamos certo o que eles fizeram. Só que a gente não quer entrar em polêmica, até porque somos uma equipe pequena, poderia até prejudicar a nossa equipe. Bola pra frente. Ele prometeu colocar o Soldado no próximo evento. Tínhamos certeza que ele ia se recuperar, como já estava se recuperando. Se ele para a luta antes, não iríamos reclamar, mas como deixou seguir, deu tempo do Soldado respirar, então temos certeza de que ele ia se recuperar, como se recuperou no primeiro round, quando ganhou em uma reviravolta. O médico e ele pediram para encerrar a luta. O médico sabe o que está acontecendo lá e é isso aí. Para a gente, ele (Wallid) admitiu que errou, que não era para ele ter feito aquilo. Disse que ficou assustado porque ele estava cambaleando, poderia causar um dano maior – disse Sama.

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O próximo evento do Jungle em que Soldado vai lutar, todavia, depende de o que os exames médicos pós-luta apontarem. Segundo o Dr. Starling Torres, foram pedidos uma angioressonância magnética sem contraste e uma ressonância magnética do crânio ao lutador, e ele precisa se consultar com um neurologista depois disso. A previsão de tempo para ele ser liberado a lutar é de 30 a 60 dias, dependendo dos resultados dos exames.

“A gente quer lutar até cair”

Rene Soldado lamentou a interrupção do combate, pois, de acordo com ele, ainda estava vivo na luta, que poderia ter se desenrolado por mais tempo.

– Eu estava vivo no combate, não tinha visto que o Wallid mandou interromper, estava me recuperando porque tomei um golpe que realmente entrou limpo e, na hora que clinchei, ele interrompeu a luta. Na hora me manifestei, achei estranho ter acabado, mas também não contestei nada. Depois, vi no vídeo que o Wallid mandou acabar. Ele disse que foi para preservar a integridade porque eu estava entregue, mas eu estava vivo, respondendo às ações. A gente quer lutar até cair. Se estou em pé ainda, é porque aguentava mais. Treino todo dia, é porrada na cara, mas a vontade do juiz é soberana. Se ele quiser acabar, não tem o que contestar mais. Mas eu aguentava. Dava para segurar mais um pouco – analisou.

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Já o árbitro Douglas Aires seguiu o discurso de Wallid e negou que tenha percebido os sinais do presidente do Jungle Fight, atendendo apenas às manifestações do médico do evento.

– Isso de interromper, nunca fazemos esse tipo de procedimento de alguém sinalizar do lado de fora. Quem nos baliza sobre isso é o médico e nem sempre a gente atende. Eu controlo a luta de maneira clara, olho para o médico e companheiros de arbitragem. Pode ter coincidido dele fazer sinal, o que eu sempre ignoro. O Wallid é muito agitado, mas a gente ignora. É uma coisa que a gente combina antes. Ele mesmo cansa de repetir para não dar atenção para ele. O que acontece é que o médico estava gritando para eu parar. Eu fui ignorando o médico até o quanto eu achava que dava para fazer isso. Mas o médico estava insistentemente do lado gritando para eu parar a luta. Ele viu algo que eu não estava vendo. Realmente, até me senti um pouco culpado pelo resultado, apesar de estar na iminência de parar. Como o médico está no mesmo intuito que eu, que é de preservar a integridade física do atleta, parei a luta. Não teve questionamento do atleta ou da equipe – afirmou.

Douglas ainda disse que, se pudesse voltar no tempo, teria parado antes a luta, mas que seu perfil de arbitragem é de deixar o duelo acontecer pelo máximo de tempo possível.

– Eu teria parado antes, na hora que ele deu uma semi-apagada. Realmente tenho o perfil de segurar mais a luta para o lutador se recuperar, mas ele estava tomando muitos golpes, tomou duas joelhadas muito fortes. Vendo o vídeo, eu teria parado um pouco antes – acrescentou.

 

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