O peso-leve Tiago “Trator” dos Santos e Silva estreia no UFC no próximo sábado, em San Jose (EUA), carregando as esperanças de um estado inteiro nas costas. O lutador de 27 anos será apenas o segundo representante do Amapá a lutar pela organização – o primeiro foi John “Macapá” Teixeira, em 2012, após participação no TUF Brasil. Tiago não esteve no reality show do UFC; entrou na companhia após anos batalhando por reconhecimento. Natural de Laranjal do Jari, cidade no sul do estado, o peso-leve tem 25 lutas registradas, e mais algumas não contabilizadas em seu cartel oficial.

A maior parte desses combates foi feito sem treinamento adequado, a começar pela própria estreia nas lutas. Não havia academias de artes marciais em Laranjal, e Tiago jogava futebol pela seleção da cidade, como goleiro. Mesmo sem jamais haver lutado na vida, foi convidado a participar de um evento local por causa de seu tamanho.

– Recebi o convite pelo fato de ser grande, por ter 98kg, era um evento amador. Só corria, não sabia nada. Foi briga de rua mesmo. Fui lutar sem saber nada, mas ganhei e gostei do esporte, gostei muito mesmo. A partir daí comecei a treinar várias artes marciais. Sonhava em ser jogador de futebol, joguei na seleção de Laranjal, fiz vários jogos como profissional por ela, mas vi que o futebol lá não trazia nenhum retorno. Não tinha futuro lá na minha cidade. Gostei muito do MMA, porque, no final, você tinha a recompensa, que era a bolsa, um dinheirinho, dava pelo menos uma coisa. No futebol, era sem futuro – lembra Trator em entrevista por telefone ao Combate.com.

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A partir dali, o lutador faria uma dúzia de lutas antes de sofrer sua primeira derrota, justamente sua primeira luta registrada em seu cartel, no evento Amazônia Combat. Sem treinamento adequado em Laranjal, Tiago arrumou as malas e partiu para a capital Macapá, a 270km de distância. A viagem de ônibus dura até 12 horas devido à má qualidade das estradas, e o lutador precisou se mudar. Ficou por lá por cerca de dois anos.

– Eu trabalhava na noite, como segurança, ganhava 50 reais. Trabalhava de quinta-feira a domingo, um amigo conseguiu para mim. Mesmo me alimentando mal, eu ia levando a vida assim. Mas teve uma época em que não estava mais conseguindo, estava numa situação muito ruim financeiramente, e precisava ajudar minha família, aí voltei para minha cidade. Mas nunca parei de treinar, sempre treinando. Quando surgia uma luta, eu ia, lutava, e ganhava meu dinheirinho. Nunca desisti não, sempre estive focado – conta.
“Treinar” talvez seja uma palavra forte. Sem academias de artes marciais na sua cidade, Tiago corria e nadava para manter a forma entre as lutas. Usava o batalhão de polícia local para treinar.

Foi nessas condições que Trator estreou no Jungle Fight, levado pelo empresário Yuri Pelaes, em maio de 2012. Com apenas nove dias de antecedência, ele aceitou enfrentar Silvio Pantera no Jungle 39, no Rio de Janeiro. Lutador da forte equipe XGym, mesma de Anderson Silva, Erick Silva, Ronaldo Jacaré e Rafael Feijão, Pantera era considerado o favorito, e o combate aconteceu na categoria peso-meio-médio (até 77kg). Mesmo assim, o laranjalense venceu por finalização no terceiro round e deu início a uma série de sete vitórias seguidas na organização, que culminou com a conquista do cinturão dos pesos-leves.
O título abriu novas perspectivas para Trator. Conforme foi crescendo no Jungle, ganhou mais patrocínios – inclusive da firma de segurança na qual trabalhava em Macapá – e voltou à capital, desta vez junto à família. Neste ano, deixou a esposa e os três filhos (dois dele, um da mulher) para virar parte da Team Nogueira no Rio de Janeiro. Pouco depois da mudança, foi contratado pelo UFC, algo que, admitiu, ainda não esperava.

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– O Tiago é ultra humilde. Ele dizia que não estava preparado, era uma coisa tão inatingível o UFC, uma coisa tão dificil para brasileiros de lugar mais remoto, que parecia inacreditável. Sair de onde ele saiu e chegar ao UFC é um fenômeno. A gente acredita que foi algo de Deus, porque o Tiago tem um brilho diferenciado – afirma Yuri Pelaes.

A estreia será contra o mexicano Akbarh Arreola, veterano da cena centro-americana de MMA e especialista no solo, com 16 de suas 22 vitórias através de finalização. Tiago acredita que o treinamento na Team Nogueira fará a diferença a seu favor.

– Evoluí muito mesmo, estou me sentindo super bem. Estou mais soltinho no meu jogo. Tem muita diferença (em relação aos treinos no Amapá). Lá, a gente não tem estrutura como tem aqui no Rio. O ensinamento é outro, aqui é outro nível. Lá, era um tatame e sacos na academia. Aqui não, tem octógono, tem fisioterapia, tem vários tatames, tem vários treinadores de boxe, de wrestling, de jiu-jítsu, tem toda uma estrutura que lá não tem – explica.

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Outro investimento de sua equipe para a estreia é em acompanhamento psicológico, para garantir que Tiago Trator não sinta a pressão da estreia e das expectativas de sua cidade e seu estado. Yuri Pelaes fala até em colocar um psicólogo dentro do córner.

– Não é apenas a parte tecnica, mas os estrangeiros hoje estão superando os brasileiros com o tratamento psicológico, que é fundamental também. Nós temos que ter o psicológico forte também. Ele tem que estar preparado para reverter isso. Hoje ele tem um acompanhamento e estamos tentando fazer essa pessoa acompanhar dentro do córner. Laranjal do Jari tem uma expectativa grande, porque ele é o único representante da cidade. Uma cidade com 50, 60 mil pessoas, ele é sem dúvida um herói daquela cidade – frisa Pelaes.

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