Em 2014, Alan Fonteles tirou um peso das costas. Descansou bastante, aproveitou a família, esqueceu um pouco do esporte e ficou seis meses praticamente sem treinar. O peso foi para a barriga e o três vezes campeão mundial chegou aos 74 quilos, seis a mais que o ideal. Mas o atleta garante que tudo foi por uma boa causa: conquistar, daqui a exatamente dois anos, quatro medalhas nas Paralimpíadas de 2016:

– Eu precisava descansar. Foram dois anos treinando muito, muito, muito forte mesmo. Esse ano que passou eu aprendi que atleta tem que descansar também. Eu tinha que desestressar, ficar com a família, foi importante. Coloquei a cabeça no lugar e já voltei a treinar com o objetivo em 2016 e quero conquistar lá quatro medalhas, três individuais e o revezamento – explicou o atleta.

O paraense é, atualmente, a maior referência do esporte paralímpico brasileiro. No Mundial do ano passado, foram três medalhas de ouro: 100m, 200 e 400m rasos. Mas foi em 2012 que ele fez brilhar os olhos dos torcedores. Diante de um estádio olímpico lotado, ele venceu Oscar Pistourius e foi campeão paralímpico dos 200m rasos. De lá até hoje, sua vida viveu uma montanha russa:

-Tudo mudou. Hoje sou um atleta que chego para competir e todos ficam olhando. Muitas coisas aconteceram desde então. Na teoria, eu era um cara para brilhar em 2016, mas eu estourei em 2012 e, principalmente, em 2013. Há alguns meses, estava pesando 74kg, estou com 72kg e o meu ideal é 68kg – comentou o atleta, que está fazendo um trabalho com uma nutricionista.
Por todo esse sucesso nos últimos anos, Alan tem tudo para ser o grande nome dos Jogos Paralímpicos de 2016, no Rio de Janeiro. Os olhos do mundo estarão voltados para o atleta, que competirá em casa, com cobrança do público e do Comitê Paralímpico Brasileiro (CPB). A entidade tem como objetivo colocar o Brasil no grupo dos cinco primeiros colocados no quadro de medalhas e, para isso, conta com a ajuda de Alan. Ele sabe da pressão que está sobre seus ombros:
– O tempo passa muito rápido, faltam só dois anos. Eu sei da minha responsabilidade. Saber que posso ser a cara dos Jogos de 2016 me alegra muito, mas também sei da pressão que eu terei. Vou ter que fazer um trabalho psicológico para me preocupar só com a competição – disse Alan, que faz sessões com psicólogos desde 2012.

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Em Londres, Alan ouviu o hino brasileiro ser tocado em um estádio com o público inglês. O que ele sonha todos os dias é ver o estádio João Havelange, local de disputas do atletismo em 2016, lotado cantando o hino do Brasil:

– Na Inglaterra, eu gostava muito de ver eles cantando o hino depois de cada medalha. Todos cantavam, era emocionante. Eu fico imaginando como será no meu país, todo mundo cantando, vai ser uma sensação única – disse o paraense.
Alan tem duas competições nos próximos meses, uma dentro de duas semanas, e outra em novembro, ambas válidas pelo circuito nacional. Os dois eventos já fazem parte do planejamento para o ano de 2015, que terá os Jogos Parapan-Americanos, em agosto, e o Campeonato Mundial, ainda sem data definida, mas previamente marcado para novembro.

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Outro desafio do ano que vem é participar do Troféu Brasil para atletas regulares. O objetivo estava marcado para essa temporada, mas foi postergado:

– Eu conversei com meu treinador e a gente achou melhor não fazer o pico de treinos agora para o Troféu Brasil. Vou correr ano que vem, na preparação para as grandes competições – disse.

O Troféu Brasil seria o primeiro passo para sonhar em disputar as Olimpíadas de 2016, repetindo o feito de Oscar Pistourius. O atleta ainda é reticente quanto a uma vaga no evento regular. Alan garante que o foco está nas Paralimpíadas:

– Muita gente me pergunta se eu quero disputar as Olimpíadas. Eu sou um atleta paralímpico, mas gostaria sim. Mas em primeiro lugar, estão as paralimpíadas. Mas, antes de pensar nas Olimpíadas, tenho que pensar no Troféu Brasil. Aí, as coisas podem acontecer naturalmente. Mas para sonhar com as Olimpíadas, eu preciso me classificar, o que é muito difícil. Vamos começar com o Troféu Brasil, depois pensamos no futuro – disse o atleta, que tem a marca de 22s66 nos 200m rasos, que o colocaria em quarto lugarã do ranking nacional deste ano.

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PISTORIUS: “UM MITO DESMASCARADO DUAS VEZES”

Alan Fonteles surpreendeu ao mundo ao vencer os 200m rasos nas Paralimpíadas de Londres, derrotando Oscar Pistorius. Naquele momento, um fã vencendo um ídolo. Minutos depois, o mito caiu por terra. O sul-africano reclamou do tamanho da prótese que o brasileiro usou e contestou a vitória de Alan.

-Ele chegou a ser um ídolo, mas depois do que aconteceu em Londres, tudo veio abaixo. Quando ele reclamou da minha prótese, tudo que eu admirava nele desmoronou- disse Alan.

Meses depois das Paralimpíadas, Pistorius foi acusado de ter assassinado sua namorada. O julgamento está sendo realizado até hoje, e já foi provado que o atleta que fez os disparos contra a modelo, restando saber o tamanho da pena que ele irá pegar. Alan Fonteles acompanha, de longe, o andamento do processo:

– Se eu te disser que não acompanho, estou mentindo. É difícil ver um cara que correu comigo sofrendo processo penal. É um caso a se lamentar, mas agora é deixar que a justiça seja feita – disse Alan.

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