Pelo terceiro ano consecutivo, a Dinamarca ocupa o primeiro lugar no ranking dos países menos corruptos do mundo. Desde que o Índice de Percepção da Corrupção foi criado pela organização alemã Transparência Internacional, em 1995, o país nórdico figura ora em primeiro, ora em segundo lugar, disputando posição com a Nova Zelândia. No relatório deste ano, divulgado ontem (3), a Dinamarca alcançou nota 92 em uma escala de 0 a 100, em que 0 significa muito corrupto e 100, livre de corrupção.

No documento, a Dinamarca é citada como uma nação que tem um forte Estado de Direito, apoio à sociedade civil e regras claras de conduta para as pessoas que ocupam cargos públicos. O relatório menciona o exemplo dado pelo país nórdico ao anunciar, no último dia 7 de novembro, que vai criar um registro público com informações sobre os proprietários de todas as companhias dinamarquesas. Com o anúncio, a Dinamarca é o segundo país (depois do Reino Unido) a se integrar a um movimento mundial liderado pela organização não governamental (ONG) norte-americana Global Financial Integrity (GFI) pelo combate à lavagem de dinheiro, à sonegação de impostos e à corrupção.

Em entrevista à Agência Brasil, o professor dinamarquês Gert Tingaard Svendsen, especialista em corrupção, explicou que o desempenho da Dinamarca não é por acaso. “O país começou a lutar contra a corrupção muito cedo, ainda durante o processo de construção do Estado dinamarquês. Em 1660, o rei Frederick III iniciou um processo de recrutamento de servidores públicos com base em seus méritos, e não por suas ligações com a aristocracia. Naquela época, o rei estabeleceu um canal para que as pessoas denunciassem diretamente a ele qualquer ato de abuso de poder”, lembrou o especialista.

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Segundo ele, o reforço dessas práticas ao longo dos séculos, além de um amplo sentimento de “confiança” existente entre os cidadãos, é a base do Estado dinamarquês tal como o vemos hoje.

Gert é autor do livro Trust, publicado este ano, em que lança o termo “confiança social”. Na obra, o professor dá exemplos básicos de como, na Dinamarca, a confiança no outro faz parte do dia a dia da sociedade. “Para uma mãe dinamarquesa, deixar um bebê no carrinho do lado de fora de um café enquanto almoça é um ato natural, já que ela confia que a criança estará segura e não será raptada. Em Nova York, o mesmo ato foi considerado irresponsável e criminoso”.

Para reforçar o conceito, o professor fez uma pesquisa em 2005, em 86 países, perguntando às pessoas se elas confiavam nas outras. Na Dinamarca, 78% (três em cada quatro pessoas) disseram que sim. O Brasil ficou no final da lista: apenas 10% dos entrevistados (uma em cada 20 pessoas) disseram que confiam nas outras.

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O professor também faz uma relação entre “confiança social” e desenvolvimento econômico. Segundo ele, quando as pessoas confiam umas nas outras e nas instituições, há maior cooperação, a burocracia é menor e os investimentos em segurança são reduzidos. Isso explica a razão pela qual, na Dinamarca, as pessoas pagam, com satisfação, uma das maiores taxas de impostos do mundo (chega a superar 50% dos ganhos). “As pessoas confiam que os recursos dos impostos serão distribuídos conforme esperado, e que elas terão retorno do investimento feito”, observou.

O prefeito de Aarhus, segunda maior cidade da Dinamarca, Jacob Bundgaard, não hesitou em receber a Agência Brasil para falar sobre corrupção. Com muita tranquilidade, ele disse que este não é um problema com o qual sua administração tem que se preocupar.

“A transparência, a honestidade e a meritocracia são princípios fundamentais na nossa sociedade. Com isso, somos mais eficientes, temos um sistema mais fácil de gerir e servidores públicos altamente qualificados. Como político, meu trabalho é garantir uma administração altamente transparente, em que os processos de decisão são influenciados por argumentos, e não por dinheiro”, declarou.

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O cientista político dinamarquês Jorgen Dige Pedersen, que estuda a realidade brasileira, disse à Agência Brasil que o sistema público na Dinamarca pode servir de exemplo para países que querem lutar contra a corrupção. “Aqui, quando um político ganha as eleições, ele não traz seus aliados para o governo. O líder muda, mas os servidores públicos permanecem, e têm que atuar independentemente de cor política. Eles existem para servir à sociedade”, enfatizou.

Para o cientista político Jorgen Pedersen, o Brasil precisa trabalhar para melhorar a eficiência e a transparência das instituições públicas, mas “esta é uma demanda que precisa partir dos próprios cidadãos, já que os líderes políticos são os que mais se beneficiam com o modelo atual”.

“As pessoas não podem mais aceitar a corrupção, nem em pequena escala, no dia a dia, nem na esfera política. Mas vejo mudanças na sociedade brasileira. Aos poucos as pessoas estão deixando de aceitar a corrupção. Este é um primeiro passo”, disse Pedersen.

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